A greve dos petroleiros é legítima e trabalhadores não são “privilegiados”, por Tadeu Porto

Em novo artigo no blog Sindicato Popular, Tadeu Porto responde ao bilionário Salim Mattar, secretário de privatizações do governo Bolsonaro que atacou os petroleiros

Conforme noticiou a Fórum, o secretário de governo e dono da Localiza, Salim Mattar, atacou gratuitamente uma das categorias mais relevantes para a industria brasileira: os trabalhadores e trabalhadoras do petróleo. Mattar argumenta que os petroleiros são “privilegiados” por trabalhar em uma estatal e agride, de maneira anti-republicana e desrespeitosa, um movimento popular histórico e regularização pela nossa constituição.

É importante destacar que essas falas não condizem com as condições reais que o movimento grevista foi construído. Dessa maneira, o multibilionário se posiciona como um cidadão comum e não um agente público.

Em outra palavras, Salim se posiciona da mesma maneira que o seleto grupo de integrantes do governo que parecem querer um cargo público para virar um digital influencer e fazer da política nacional um grande BBB, colocando seus interesses pessoais, curtidas e visualizações acima de uma política de Estado.

Por exemplo, estamos assistindo atônitos uma das gestões mais incompetentes que a educação do Brasil já viu e, nesse caminho, Salim caminha para se tornar o grande Weintraub das privatizações.

Destaco, abaixo, alguns dados reais sobre a greve dos petroleiros e petroleiras:

A greve é legítima e necessária

Como destacou a FUP, Federação Única dos Petroleiros, a greve é para assegurar empregos, baseados no Acordo Coletivo que rege as relações de trabalho dos petroleiros há décadas. A verdade factual é que os petroleiros pedem o cumprimento da cláusula 26 do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) da Araucária Nitrogenados S.A. (Ansa) e da própria Petrobras.

O texto negociado e assinado por ambas as partes não deixa dúvidas: qualquer demissão coletiva de trabalhadores tem de ser negociada e acordada com os respectivos sindicatos. O que, de fato, não ocorreu.

Direitos relacionados a proteção a vida dos trabalhadores são essenciais para a economia do país, afinal, sem um povo assalariado e disposto a consumir, a economia não consegue girar e atender a todos e todas.

A título de exemplo, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), entre 2013 e 2018 a Petrobras registrou a maior queda no número de trabalhadores entre as grandes petroleiras do mundo. O número de trabalhadores da companhia caiu 26,4%, de 86.108 para 63.361 trabalhadores enquanto, no mesmo período, a francesa Total elevou em 5,7% seu quadro profissional, passando de 98.799 para 104.406 trabalhadores (lembrando que na França não tem Pré-Sal).

A luta também é por empregos e investimentos na indústria

Outro ponto que a categoria petroleira sempre reivindica é a volta do fortalecimento do setor de petróleo do país, mercado mais importante do mundo.

A destruição da cadeia produtiva de óleo e gás é um dos principais motivos pelos quais a economia do país segue estagnada. A Petrobras, que era uma das locomotivas do desenvolvimento nacional, reduziu em mais de 50% os investimentos no Brasil.

Os R$ 104,4 bilhões investidos pela empresa em 2013 despencaram para R$ 49,3 bilhões, em 2018. Sem os investimentos da Petrobras, o setor deixou de gerar mais de R$ 100 bilhões para o PIB nesse período. Como consequência, 2,5 milhões de postos de trabalho foram fechados ao longo deste período, o que representa 19% da atual taxa de desemprego.

Cada R$ 1 bilhão que a Petrobras investe em exploração e produção de petróleo gera R$ 1,28 bilhão para o PIB e 26.319 empregos.

Cada R$ 1 bilhão que a Petrobras investe em refino gera R$ 1,27 bilhão para o PIB e 32.348 ocupações.

Portanto, ao se comunicar como um multibilionário e não um agente público, Mattar parece atender a um interesse pessoal de enfraquecimento dos trabalhadores para que possa, como empresário multibilionário, explorar cada vez mais a classe que gera a riqueza responsável pela sua fortuna.

Vale salientar, por fim, que um secretário do governo deveria respeitar os trabalhadores e trabalhadoras que, tanto legalmente quanto moralmente, se organizam para negociar com a empresa um acordo que valorize nossas vidas, desde nossa saúde e segurança, até o ambiente de trabalho onde possamos gerar capital produtivo – tecnologia e valor – para a população brasileira.

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Tadeu Porto

Diretor da Federação Única dos Petroleiros e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, escreve no blog Sindicato Popular, na Revista Fórum.

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