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O dia em que o "cidadão de bem" deixou a máscara cair (junto com as calças)

Mesmo com a baderna promovida no domingo, quem votou em Bolsonaro vai continuar alegando apoiá-lo "em defesa da ordem"?

Bolsonarista abaixa as calças após quebrar tudo. Foto: reprodução
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CYNARA MENEZES

Os ataques terroristas promovidos pelo bolsonarismo no domingo, dia 8 de janeiro, em plena capital do país, colocam boa parte dos apoiadores do ex-presidente num momento decisivo. As cenas de baderna generalizada e depredação de patrimônio público resultaram até agora em 1500 presos, no afastamento do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e na exoneração do bolsonarista Anderson Torres, por ele nomeado secretário de Segurança havia uma semana.

Mesmo após as 700 mil mortes na pandemia e do absoluto descaso do presidente com as vítimas da Covid-19, da volta da fome e das reiteradas demonstrações de incompetência, muitos brasileiros ainda votaram em Jair Bolsonaro em 2022 sob a justificativa de "defender a ordem". Por ilógico que pareça, o capitão que saiu do Exército pela porta dos fundos, que nunca trabalhou enquanto esteve no Parlamento e que defende o fuzilamento de adversários, conseguiu convencer incautos de que é o legítimo representante dos "cidadãos de bem", da moral e dos bons costumes, da propriedade privada e da família.

As calças arriadas do terrorista arrancam de vez as máscaras do bolsonarista, deixam-no com vergonha de encarar sua real face no espelho. “Então é essa a minha cara?”, pergunta-se o “cidadão de bem”. “Mas não era isso que acusávamos a esquerda de fazer?”

Mas o que se viu em Brasília neste domingo obriga estes "cidadãos de bem" a uma tomada de posição. Como podem se dizer defensores da ordem diante da desordem, da balbúrdia, da arruaça? Como podem se dizer defensores da propriedade privada diante da depredação do bem público? Como podem se dizer defensores da pátria diante da destruição de edifícios tombados pelo patrimônio histórico, de obras de arte, de símbolos nacionais? É no mínimo incoerente.

Uma cena repulsiva em particular coloca os eleitores de Jair Bolsonaro que não são iguais a ele, que não concordam com sua visão radical de mundo e que votaram nele apenas "para ganhar do Lula", ainda mais em xeque. Um dos invasores "patriotas", com a bandeira do Brasil no ombro, tendo ao lado móveis destroçados pela fúria dos que não aceitam eleições democráticas, sobe em uma bancada, abaixa as calças e grita, à semelhança do ex-presidente: "Irru!" São esses os defensores da família? São esses os defensores da moral?

As calças arriadas do terrorista arrancam de vez as máscaras do bolsonarista, deixam-no com vergonha de encarar sua verdadeira face no espelho. "Então é essa a minha cara?", pergunta-se o "cidadão de bem". "Mas não era isso que acusávamos a esquerda de fazer?" Se você votou em Bolsonaro e concorda com o vandalismo promovido por este setor não pode mais se esconder detrás do voto "contra Lula", do voto "contra o comunismo", do voto "em nome da ordem", do voto "em favor da polícia e contra os bandidos".

“Então se abrirão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos se desobstruirão”, diz o profeta Isaías na Bíblia, tão citada por estes cristãos que continuam a ver nele, não se sabe como, um ungido por Deus, quando tem dado provas de ser, isso sim, um cavaleiro do Apocalipse

O bolsonarismo –as cenas criminosas de domingo comprovam– é um banditismo. Quem permanecer do mesmo lado dos arruaceiros da Esplanada é no mínimo cúmplice do que aconteceu. Quem permanecer do lado dos fora-da-lei, dos vândalos que destruíram o Congresso, o STF e o Planalto, também é fora-da-lei e vândalo. Não há mais desculpas possíveis para apoiar este movimento fascista sem ser fascista.

Que o terror promovido pelo bolsonarismo em Brasília sirva pelo menos para alertar eleitores do ex-presidente de que ele só trouxe e trará desgraça e ódio a nosso país. "Então se abrirão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos se desobstruirão", diz o profeta Isaías na Bíblia, tão citada por estes cristãos que continuam a ver em Jair Bolsonaro, não se sabe como, um ungido por Deus, quando tem dado todas as provas de ser, isso sim, um cavaleiro do Apocalipse.