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É a vez da Argentina virar chacota no mundo graças à extrema direita

O lado bom é que só dura quatro anos; o lado ruim é que dura quatro anos

Nelson, de Os Simpsons, e a bandeira da Argentina com o "leão" Milei
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CYNARA MENEZES

Quando o ultradireitista Javier Milei, o "Bolsonaro argentino", apareceu com chances de levar a presidência do país no primeiro turno, brinquei nas redes sociais que a rivalidade entre nós havia ultrapassado todos os limites. "Agora estamos disputando quem tem o pior fascista", escrevi. Piadas à parte, Milei é pior que Bolsonaro. É ainda mais ridículo, mais histriônico, mais sinistro, mais repulsivo, mais bufão –e talvez de fato desequilibrado mental, ainda que nenhum dos dois rasgue dinheiro.

Há um adjetivo na língua espanhola para definir alguém tão patético em suas atitudes que vira motivo de chacota generalizada: o "hazmerreír", como grafa o Dicionário da Real Academia. Seria algo como "o faz-me rir" em português. Javier Milei, escrevam o que eu digo, em breve transformará a Argentina no hazmerreír do mundo, assim como ocorreu com o Brasil de Bolsonaro –isso enquanto nós, os brasileiros, chorávamos, e certamente chorarão os argentinos dentro de poucos meses. A extrema direita não é só ultrapassada, retrógrada, é também incompetente para governar, medíocre.

Há um adjetivo em espanhol para definir alguém tão patético em suas atitudes que vira motivo de chacota generalizada: o "hazmerreír", algo como "o faz-me rir" em português. Milei, escrevam o que eu digo, em breve transformará a Argentina no hazmerreír do mundo

Na época de Bolsonaro, quando visitávamos qualquer país, ouvíamos coisas do tipo: "Ah, não é o Brasil que tem um presidente autoritário, meio hitleresco?"; "Não foi seu presidente que falou que teve fraude na eleição do Biden sem nenhuma prova?"; "Bolsonaro é aquele que disse que pretendia fuzilar os opositores?"; "O Borsalino (sic) está querendo destruir a Amazônia, né?" Que vergonha que dava, hermanos argentinos, ouvir coisas deste tipo a todo momento. Eu confesso que sentia até vontade de dizer... que era argentina.

Comediantes estrangeiros usavam nosso presidente para fazer piada. Em setembro de 2021, quando Bolsonaro anunciou que não iria se vacinar contra Covid-19, o humorista Jimmy Fallon, do Tonight Show, tirou onda; em novembro, foi Stephen Colbert, no The Late Show, por ter confundido, em viagem oficial à Itália, Jim Carrey, o ator, com John Kerry, enviado dos EUA para questões climáticas; em janeiro deste ano, Bozo foi novamente zoado por Colbert pelos atos golpistas de 8 de janeiro. A gente não achava graça nenhuma.

Daqui a pouco serão os argentinos ouvindo por aí, coitados: "Sério que o presidente de vocês ouve conselhos do espírito de seu cachorro clonado?"; "O presidente da Argentina usa uma motosserra como símbolo?"; "É verdade que seu presidente é a favor de vender órgãos humanos?"; "Aquele cabelo dele é peruca?"; "Seu presidente não é um que se veste de super-herói?"; "Vocês votaram nesse cara por causa da inflação e a economia piorou ainda mais???" Não é fácil ser governado por "palhaços messiânicos", como avisou o papa Francisco e eles não ouviram.

Aliás, Francisco disse tudo naquela entrevista a um mês do balotaje, o segundo turno da eleição, ao comparar a extrema direita ao "flautista de Hamelin", que vai mesmerizando com sua flauta enquanto atrai todo mundo para o fundo do rio. Na fábula compilada pelos irmãos Grimm, os atraídos eram ratos; na vida real de Brasil e Argentina, o rato é o flautista. Parece que a hipnose coletiva só passa com um belo banho de água fria. Parece que é preciso experimentar na pele para entender a enganação da extrema direita.

Não eximo a esquerda de seus erros (Fernández foi um desastre), mas o histórico tem sido esse: construir um cenário de desespero e então aproveitar-se dele. O problema é que a ultradireita governa mal. São preguiçosos e mais preocupados em manter o gado engajado do que em trabalhar

A vitória de Javier Milei será um ciclo para os argentinos, assim como foi para o Brasil e como provavelmente será para os chilenos em 2025 com José Antonio Kast. Não eximo a esquerda de seus erros (o governo Alberto Fernández foi um desastre), mas o histórico tem sido esse: construir um cenário de desespero e então aproveitar-se dele. O problema é que a ultradireita é ruim de serviço –Bolsonaro que o diga, vivia com a agenda vazia. São preguiçosos e mais preocupados em fazer declarações polêmicas para manter o gado engajado do que em trabalhar.

O isolamento da Argentina também será terrível. Com Bolsonaro, o Brasil era ignorado pela maioria dos chefes de Estado do planeta: após Donald Trump deixar a Casa Branca, o extremista de direita só se relacionava com os presidentes da Hungria e de Israel. O mesmo vai acontecer com Milei, que já prometeu cortar relações com o Brasil e a China, os dois maiores parceiros comerciais do país que governará a partir de dezembro. Que líder respeitado vai querer aparecer do lado de um presidente bizarro?

O lado bom é que só dura quatro anos. O lado ruim é que dura quatro anos. Já passamos por isso e nos custou, entre outras coisas, 700 mil mortes numa pandemia. Mas um dia a normalidade volta. Por enquanto, se alguém perguntar se você é argentino e sentir vontade de responder que é brasileiro, diga. A gente entende perfeitamente, che.