SOCIALISTA MORENA

As conexões entre o fornecedor de coletes a Braga Netto e a extrema direita latino-americana

Preso por contratar mercenários para matar presidente do Haiti, venezuelano Tony Intriago integrava oposição em Miami aos governos Maduro e de Cuba

Tony Intriago, o dono da CTU Security, que vendeu coletes.Créditos: Redes sociais/Reprodução
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CYNARA MENEZES

Preso nos EUA em fevereiro deste ano sob a acusação de ter contratado mercenários para assassinar o presidente do Haiti, Jovenel Moïse, em 2021, o venezuelano Antonio "Tony" Intriago, dono da empresa que vendeu, sem licitação, os coletes superfaturados ao então interventor no Rio de Janeiro, Walter Braga Netto, é apontado como o cabeça de "uma multinacional da conspiração e do paramilitarismo" contra governos progressistas na América Latina. Intriago tem conexões de longa data com as oposições cubana e venezuelana em Miami, onde sua empresa, a CTU (sigla para Unidade Contraterrorista) Security LCC, tem sede.

Como tudo relacionado à extrema direita, o caso dos coletes balísticos não envolve apenas corrupção. Graças ao TCU, a negociata foi cancelada e a quantia estornada. Mas quem garante que o dinheiro não iria parar no financiamento de ações armadas contra governos progressistas da América Latina?

Foi justamente a investigação nos EUA sobre o assassinato de Moïse que levou a Polícia Federal brasileira a Braga Netto, candidato a vice de Jair Bolsonaro em 2022, e aos coletes balísticos, comprados no apagar das luzes da intervenção militar no RJ em 2018. "As autoridades americanas descobriram o crime no curso da investigação sobre o assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse em julho de 2021, na qual a empresa CTU Security LLC ficou responsável pelo fornecimento de logística militar para executar e derrubar Moises e substituí-lo por Christian Sanon, um cidadão americano-haitiano”, diz o comunicado da PF.

A sede da CTU fica em El Doral, uma região de Miami conhecida popularmente como "Doralzuela" por conta da grande presença de venezuelanos de oposição a Nicolás Maduro e ao chavismo que chegaram aos EUA nas últimas décadas. Intriago é membro e tesoureiro da Fundação Latino-Americanos Unidos, uma organização de direita com ampla presença política, social e midiática na Flórida, segundo revelou o site venezuelano La Tabla dois anos atrás.

Em fevereiro de 2019, Intriago e o ex-presidente colombiano Iván Duque foram os responsáveis pela realização de um concerto contra o presidente Nicolás Maduro em Cúcuta, na fronteira entre os dois países, com o nome "Venezuela somos todos".

Após as investigações apontarem o envolvimento de Intriago no assassinato de Moïse, o atual presidente da Colômbia, Gustavo Petro, denunciou a proximidade entre Intriago e seu antecessor, o direitista Duque. "Se esta foto é correta, Duque se reuniu com Tony Intriago, o venezuelano que contratou os mercenários colombianos para assassinar o presidente do Haiti e que também organizou o concerto de Cúcuta contra o governo da Venezuela. Bons meninos em más companhias", disse Petro.

Dias depois, Petro também divulgou um vídeo onde Alfred Santamaría, colombiano-americano que foi candidato a prefeito de Miami-Dade em 2016 e era sócio de Intriago, aparece ao lado de Iván Duque. "Duque é amigo de Alfred Santamaría, membro da extrema direita na Flórida, EUA, e sócio de Tony Intriago, o empresário que contratou os mercenários colombianos para assassinar o presidente do Haiti", publicou o presidente da Colômbia.

Naquele ano, foi divulgada, pela polícia do Haiti, uma foto onde Tony Intriago, o vendedor de coletes, aparece em uma reunião na República Dominicana onde teria sido planejado o assassinato do presidente Moïse. No encontro estão, além de Intriago, o médico e pastor Christian Sanon, apontado como o principal responsável pela trama e que pretendia se tornar presidente do Haiti no lugar do morto. Sanon foi transferido do Haiti para uma prisão dos EUA em janeiro. 

Intriago na reunião onde foi planejado o assassinato

Presente na reunião, o empresário equatoriano-americano Walter Veintemilla, dono da consultoria Worldwide Capital Lending Group, financiou a operação com 175 mil dólares e foi preso junto com Intriago. Também foi apontado como envolvido o ex-candidato ao Senado pela Florida, o haitiano-americano Anis Blemur, que, em 2016, foi acusado de fraude nos EUA –teria se apropriado de milhões de dólares de seus próprios compatriotas exilados.

Outro implicado com as movimentações políticas de Intriago é o cubano-americano Antonio Esquivel, presidente da Junta Patriótica Cubana nos EUA e vice-presidente do movimento "Venezuela Somos Todos", da qual o vendedor de coletes é tesoureiro.

"Esquivel, Intriago e Blemur são só alguns nomes influentes na Flórida desta espécie de multinacional de empresas de latinos nos EUA que, ao contrário de outros setores de oposição aos governos progressistas da região, não apoiam uma 'invasão' para derrubar governos", diz a reportagem do site La Tabla. "Eles elaboram e colocam em ação planos para que se tomem medidas não estatais lideradas por empresas contratistas privadas, como ficou evidente no Haiti."

"Estes barões da guerra política empresarial consideram que a falta de resposta internacional ante 'regimes totalitários' e sua 'ameaça contínua' deve ser respondida com operações militares privadas para conseguir 'mudanças em favor da democracia'", conclui a reportagem.

Estes barões da guerra política empresarial consideram que a falta de resposta internacional ante "regimes totalitários" e sua "ameaça contínua" deve ser respondida com operações militares privadas para conseguir "mudanças em favor da democracia"

A conexão entre Braga Netto e a empresa de Intriago, ao que tudo indica até agora, foi o coronel da Aeronáutica reformado Glaucio Octaviano Guerra, representante da CTU Security no Brasil e que teve seu celular apreendido no aeroporto de Dulles, na Virginia, em agosto do ano passado. Mensagens obtidas no celular indicam que Braga Netto recebeu lobistas da empresa e teria prometido "dar uma força" para viabilizar as compras dos coletes sem licitação.

"Estive em um almoço na sexta passada com o general Braga Netto e comentei sobre a liberação dos coletes de proteção balística para a Polícia do RJ, em estudo nessa Casa Civil da PR (Presidência da República). Ele disse que iria dar uma ‘força’ junto ao senhor para atender ao que pleiteamos", diz uma mensagem enviada pelo general da reserva Paulo Roberto Correa Assis, lobista da CTU, ao parecerista do contrato. Guerra envia então a cópia do e-mail e um áudio ao irmão em que afirma que o "zero dois do Exército Brasileiro, que foi o interventor federal, está do nosso lado", em referência a Braga Netto.

Como tudo relacionado à extrema direita, o caso dos coletes balísticos superfaturados não envolve apenas corrupção. Graças ao TCU (Tribunal de Contas da União), a negociata foi cancelada e a quantia estornada. Mas quem garante que o dinheiro da venda dos coletes não iria parar no financiamento de ações armadas contra os governos progressistas da América Latina?