SOCIALISTA MORENA

Prisão de Bolsonaro transformou a mídia, Moro e extremistas de direita em “humanistas”

Parece incrível, mas o mesmo sujeito que zombou das pessoas na pandemia inspira onda de compaixão nunca antes vista entre os "cristãos" do bolsonarismo

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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes
Prisão de Bolsonaro transformou a mídia, Moro e extremistas de direita em “humanistas”
Apoiadora chora em ato pró-anistia dos golpistas em outubro. Foto: Joedson Alves/Agência Brasil.

CYNARA MENEZES

Os aliados de Jair Bolsonaro pediram "prisão domiciliar humanitária" para o ex-presidente no STF. Alegam que Bolsonaro, condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado, "apresenta enfermidades simultâneas, entre elas, câncer de pele, complicações renais, distúrbios cardíacos, problemas gastrointestinais decorrentes das cirurgias pós-atentado de 2018, além de pneumonias recorrentes e condições crônicas persistentes".

Dizem ainda que "o ambiente prisional não garante tratamento adequado e representa risco concreto à sua integridade, cabendo ao Estado assegurar condições médicas compatíveis com a dignidade humana e com o direito fundamental à vida". Certamente recorreram ao chatGPT para encaixar expressões que nunca vimos na boca de bolsonaristas em relação a presidiários, como "dignidade humana" –mesmo termo, aliás, usado pelo governador Tarcísio de Freitas, que nunca manifestou igual preocupação com os inocentes mortos por sua PM.

Era bem mais comum ver Bolsonaro tripudiando de pessoas presas, uma das barbaridades que lhe trouxe notoriedade na carreira política. "Tem gente com pena de presidiário, pô. Lá é o lugar do cara se ferrar, pô. Vai se explodir, pô. Lá é o lugar de o cara pagar seus pecados. E o objetivo da cadeia é tirar o canalha da sociedade, não é recuperar, não. Cadeia é igual coração de mãe para mim, sempre cabe mais", dizia o então deputado em entrevista que voltou a circular após o mimimi dos extremistas de direita por sua prisão.

 
 
 
 
 
 
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O surto de humanismo também atingiu o ex-juiz Sérgio Moro, aquele que prendeu Lula, na época com 72 anos e sobrevivente de um câncer, em suas masmorras em Curitiba durante 580 dias. Foi apelando justamente a problemas de saúde que Moro protestou contra a prisão daquele que o chutou do governo para poder cercear a ação da PF. "O Presidente Bolsonaro tem sequelas decorrentes da facada. O histórico de cirurgias e crises é conhecido por todos. Não há motivos para tirá-lo da prisão domiciliar. A outros, como o ex-presidente Collor, com problemas de saúde bem menores, foi garantido esse tratamento."

E por Lula, o que Moro fez? Ao contrário da cela especial de Bolsonaro na sede da PF em Brasília, não havia ar-condicionado nem frigobar; o basculante era fechado e não permitia ver lá fora; a cama era de madeira com um armário simples; não eram permitidas as visitas religiosas; e só podia levar comida nos finais de semana. Subitamente o coração do "conje", que fez Sérgio Cabral usar correntes nas mãos e nos pés, foi tocado pela compaixão ao próximo.

O que dizer do Estadão? O mesmo jornal que, em 2019, enxergava "privilégios" na prisão de Lula, se derrete de peninha de Bolsonaro. "Lugar de preso é na cadeia, onde deveria estar justamente porque cometeu, por vontade própria, atos que o colocaram à margem da sociedade, aí incluídos aqueles referentes à sua família. É preciso habituar-se à ideia de que o ex-presidente tem de cumprir sua pena como todos os outros presos", exaltava-se então o jornal dos Mesquita.

Seis anos depois, com um ex-presidente mais jovem dois anos do que Lula quando foi preso e que não mostrou a menor empatia com os enfermos da pandemia de Covid-19 (a quem chegou a imitar com falta de ar e disse não ser coveiro para comentar sobre os mortos), o Estadão foi muito mais solidário e pregou exatamente o contrário: "Como ex-presidente, Bolsonaro não pode ser tratado como um preso qualquer. O ideal, em razão de sua saúde precária, é que fosse condenado a cumprir pena em prisão domiciliar".

Cadeia tem que ser "a antessala do inferno", como defendia Bolsonaro. Menos para o alecrim dourado do golpismo, que merece ser tratado a pão com leite condensado até dentro de uma cela. Tadinho, que barra, diria Brilhante Ustra

É lamentável que nossa mídia trate Bolsonaro –aquele que mandava repórteres calarem a boca ou dizia que uma jornalista tinha "dado o furo"– com mais deferência do que Lula, um estadista que tem tapete vermelho estendido onde quer que vá. Isso não surpreende ninguém no Brasil. O que impressiona é a transformação repentina de gente fria, "cristãos" sem amor ao próximo, nos mais fervorosos humanistas da nação –mas só com os deles.

Os demais 720 mil presos do país podem continuar espremidos na cela com outros detentos, comendo marmita estragada e fazendo suas necessidades num buraco. Cadeia tem que ser "a antessala do inferno", como defendia Bolsonaro. Menos para o alecrim dourado do golpismo, que merece ser tratado a pão com leite condensado até dentro de uma cela.

Tadinho, que barra, diria Brilhante Ustra.

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