2021, o ano em que o “País do Carnaval” não teve Carnaval

Dizem que o Carnaval é só uma ilusão, que a gente trabalha o ano inteiro para tudo se acabar na quarta-feira. Mas não é bom um pouco de ilusão nessa vida?

CYNARA MENEZES

Não se conhecem outros anos na História em que o Brasil não teve Carnaval. Em 1918 e 1919, anos da gripe espanhola, houve folia. Em 1892, quando a festa foi postergada para junho, por conta da falta de limpeza nas ruas e uma epidemia de febre amarela, acabou havendo dois carnavais porque as pessoas não cumpriram o adiamento. O mesmo ocorreu em 1912, quando, por luto pela morte do Barão do Rio Branco, o carnaval foi adiado em dois meses. A rigor, portanto, 2021 é o primeiro em que o “País do Carnaval” não tem Carnaval.

É um ano que começa triste. Mesmo para quem não curte pular, o Carnaval é, em primeiro lugar, o marco de que um novo ano começou. “Só depois do Carnaval” é uma expressão que já faz parte do imaginário brasileiro. Quem já esteve desempregado nesta época sabe: novas vagas só são abertas depois do carnaval; e novos projetos só surgem ou são aprovados após a farra momesca. Sem o “depois do Carnaval” é como se o ano nem sequer tivesse começado; ou como se o Rei Momo tivesse pegado a chave da cidade e ido embora…

Saudade de esquecer, nem que seja por uns dias, que Bolsonaro é presidente. Saudade da Alessandra Negrini deliciando nossos olhares no Baixo Augusta. Saudade até do trocadilho infame, infalível, enquanto esperamos “a Mangueira entrar”

O que dizer do “maior espetáculo da Terra”, o desfile das Escolas de Samba no Rio de Janeiro? Tradição desde 1932, o desfile atrai os olhares do mundo inteiro para o Brasil, além de gerar empregos. Sem o Carnaval, a Cidade do Samba virou uma cidade fantasma, e só o Rio deixou de faturar cerca de 2,6 bilhões de reais com turismo, segundo cálculos da Confederação Nacional do Comércio. São Paulo, que já foi maldosamente apelidada de o “túmulo do samba” e hoje tem um animadíssimo carnaval de rua, perdeu outros 2,9 bilhões. Em todo o país, calcula-se um prejuízo de 8 bilhões de reais; 25 mil empregos temporários evaporaram como lança-perfume.

Quantas pessoas humildes terão deixado de ganhar uns trocados vendendo cerveja, carregando seus isopores pelas ruas sob o sol escaldante do verão brasileiro? É incalculável. Num país com mais de 14 milhões de desempregados, é um dinheirinho que fará falta a muitas famílias, sobretudo porque ainda não está garantido que o auxílio emergencial continuará a ser pago. A AMBEV se tocou de dar algum retorno a quem sempre a promoveu e criou um site para ajudar os vendedores ambulantes –uma boa iniciativa que merece ser divulgada.

Para além dos prejuízos para a economia, a ausência do carnaval deixa um vazio dentro do brasileiro. Uma saudade do que não aconteceu. Saudade de bebedeiras imemoriais. Saudade de esquecer, nem que seja por uns dias, que Jair Bolsonaro é presidente. Saudade da Alessandra Negrini deliciando nossos olhares no Baixo Augusta. Saudade até do trocadilho infame, infalível, enquanto esperamos “a Mangueira entrar”.

Sinto saudade do velho normal. Dos carnavais de clube da minha infância, a fantasia de grega que vesti aos 11 anos e a sombra azul nos olhos que só podia usar enquanto durasse a folia. Saudade de sair na pipoca em Salvador, do Campo Grande até a Praça Castro Alves, e voltar para casa com os dedos roxos de pisões, extenuada e feliz. Saudade de ir para a praia no Rio e ser puxada de lá por um bloco passando na avenida… Saudade de reclamar do barulho do Carnaval e também de viajar para fugir do Carnaval. Saudade dos carnavais de Olinda que nunca vivi.

Saudade de sair na pipoca em Salvador e voltar para casa com os dedos roxos de pisões, extenuada e feliz. Saudade de reclamar do barulho do Carnaval e também de viajar para fugir do Carnaval. Saudade dos carnavais de Olinda que nunca vivi

Dizem que o Carnaval é só uma ilusão, que a gente trabalha o ano inteiro para tudo se acabar na quarta-feira. Mas não é bom um pouco de ilusão nessa vida? Ainda mais nestes tempos duros pelos quais o país e o mundo estão passando, nada melhor do que rir, encontrar os amigos, dançar, se embriagar até o sol raiar –e esquecer. Uma vez no ano que seja, o Carnaval é um momento raro em que nos sentimos vivendo o gozo pleno. Literalmente.

Em 2021, em nome do bem coletivo, trocamos a “máscara negra” da velha marchinha pela máscara de proteção contra o coronavírus. Isso é importante. Pior é saber que este é o Carnaval em que não só não pulamos, como denunciamos quem pulou em festas clandestinas, promovendo aglomerações em plena pandemia. Um bando de irresponsáveis, incentivados por um presidente inepto, nos obriga a ser dedos-duros da folia alheia. Pensando bem, nada orna mais com um não-presidente do que um não-carnaval.

Não nos resta opção a não ser levantar e sacudir a poeira. Melhor deixar de pular carnaval do que ver uma explosão de mortes ocorrendo por conta da pandemia. Dias melhores virão. Anos melhores virão. Carnavais melhores virão. E precisamos estar vivos para ver.

Esquindô! Ziriguidum! Alalaô-ô-ô-ô-ô-ô. Ai ai.

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