7 de Setembro ou 1º de Abril?

Não é de hoje que os militares tentam trocar o dia da Mentira pelo dia da Pátria; em 2021 pode ocorrer o contrário

CYNARA MENEZES

Os militares golpistas de 1964 iniciaram sua era de atraso, corrupção e terror com duas fake news: a de que aquilo era uma “revolução”; e que teria ocorrido não em 1º de abril, mas em 31 de março. Tentavam assim fugir à verdade histórica de que os 21 anos de mando fardado no Brasil nasceram sob o estigma do Dia da Mentira.

O presidente ameaça o país com um golpe, e não se sabe se fala a verdade ou se mais uma vez mente. Aconteça o que acontecer, será um 7 de Setembro com cara de 1º de Abril, no sentido 1964 de 1º de Abril. Parodiando Marx, a farsa se repete como tragédia

No período ditatorial, o 31 de março aparecia inclusive nos livros didáticos das escolas públicas, dia da “revolução”, da “redentora”. Mas os militares, no fundo, nunca abraçaram a data falsificada, e adotaram o 7 de Setembro como marco das festividades nacionais. Criancinhas se esfalfavam sob o sol em desfiles marciais intermináveis, emulando pequenos soldados a serviço da Pátria, tão perdidos quanto os da canção que levaria Vandré ao suplício nos porões do regime.

O auge ocorreria em 1972, com a patacoada monárquico-militar do Sesquicentenário da Independência, para o qual foram trazidos ao Brasil, pelo ditador Emilio Garrastazu Médici, os restos mortais de D. Pedro I, o “herói” da independência –sem o coração, que ficou em Portugal. A urna com a ossada real foi exibida aos curiosos no Rio e depois em São Paulo, à guisa de celebração. A necropolítica verde-amarela antecipou o bolsonarismo em meio século.

Bem a propósito, o 7 de Setembro tampouco ocorreu no dia 7 de Setembro, foi uma construção meticulosamente elaborada a posteriori pelo Visconde de Mauá para estabelecer um marco patriótico para o jovem país. Não houve Grito do Ipiranga, “Independência ou Morte” coisa nenhuma: a independência teria sido assinada no dia 2 de Setembro pela mulher dele, Leopoldina, atuando como regente interina porque o marido tinha partido com a missão de conter as insurreições país afora. Pelo gosto do próprio D. Pedro, aliás, a data oficial seria 12 de Outubro, quando foi aclamado imperador. Outra farsa, portanto.

Neste 7 de Setembro, Bolsonaro promete dar uma demonstração de força de seu fraco governo colocando nas ruas os fanáticos que ainda acreditam nele e os cúmplices de suas bravatas golpistas –estes últimos cada vez mais endinheirados, a começar pelos generais do governo, cooptados a salários acima dos 100 mil reais por mês e privilégios sem fim. O patriotismo dos militares bolsonaristas vale ouro, literalmente.

O presidente ameaça o país com um golpe, e não se sabe se fala a verdade ou se mais uma vez mente. Aconteça o que acontecer, será um 7 de Setembro com cara de 1º de Abril, no sentido 1964 de 1º de Abril. Tudo a ver com Bolsonaro, profissional da mentira e também amante desavergonhado da ditadura e da tortura.

Parodiando Marx, a farsa se repete como tragédia.

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Socialista Morena

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