A “comorbidade” de ser negro no Brasil em 2021

Negros são os que mais morrem de Covid-19 e os que menos são vacinados; e como se não bastasse tudo isso, Jacarezinho

MAÍRA MIRANDA

Em seu livro Erguer a Voz – Pensar como Feminista, Pensar como Negra, a ativista bell hooks narra uma situação que vivenciou com um advogado branco, que lhe falou do desconforto que sentia com as crianças estarem “aprendendo menos” sobre história na tentativa de fazer a escola ser totalmente inclusiva, ao discorrer sobre negros, indígenas e mulheres, “com um foco fragmentado em certos indivíduos representativos, sem uma estrutura histórica mais ampla”.

Ao que ela respondeu que tem sido mais fácil para pessoas brancas praticar essa inclusão ao invés de alterar a estrutura maior. “É mais fácil mudar o foco de Cristóvão Colombo, o importante homem branco que ‘descobriu’ a América, para o Touro Sentado (o “Sitting Bull” Thathanka Íyotake, líder indígena da etnia Hunkpapa Lakota que encabeçou a resistência de seu povo contra a dominação de colonizadores norte-americanos), do que contar uma versão distorcida da história dos Estados Unidos que apoia a supremacia branca”. Ela explica que ensinar a história de maneira realmente nova exigiria abandonar velhos mitos fundadores –por exemplo, a própria noção do “Dia de Ação de Graças” como data comemorativa.

Entre os casos graves da doença, enquanto 55% dos negros morreram, a proporção entre brancos foi de 38%; e a taxa de óbitos por Covid-19 entre negros na capital paulista foi de 172/100 mil habitantes, enquanto para brancos foi de 115 óbitos/100 mil habitantes

No meio dessa política de morte que temos vivenciado com a pandemia, ser negro no Brasil em 2021 é praticamente uma comorbidade, refletida diretamente nos números. São justamente os negros os que mais morrem em decorrência da Covid-19, apontam dois estudos divulgados em abril. Entre os casos graves da doença, enquanto 55% dos negros morreram, a proporção entre brancos foi de 38%; e a taxa de óbitos por Covid-19 entre negros na capital paulista foi de 172/100 mil habitantes, enquanto para brancos foi de 115 óbitos/100 mil habitantes. As chances de morte de um paciente preto ou pardo analfabeto (76%) são 3,8 vezes maiores que um paciente branco com nível superior (19,6%).

Os negros são também os que menos recebem vacinas: de acordo com levantamento feito em março pela Agência Pública, enquanto 3,2 milhões de pessoas que se declararam brancas haviam recebido a primeira dose da vacina, entre os negros, o número cai para 1,7 milhão.

Como se a pandemia do coronavírus e o pandemônio Bolsonaro já não fossem suficientes, vivemos o terror dentro do terror com a chacina do Jacarezinho, que nos revirou o estômago há duas semanas. Além de ter desobedecido à decisão do Supremo Tribunal Federal que suspendeu as incursões policiais em comunidades durante a pandemia, até agora não ficou provada a alegação da polícia de que parte das execuções foi de pessoas ligadas a algum crime.

Toda essa política de extermínio disfarçada de luta contra as drogas é poeticamente retratada em Estados Unidos vs. Billie Holiday. O filme, em cartaz no Amazon Prime, mostra a última década da cantora, sua trajetória marcada por perseguições policiais em um duro cenário de segregação racista, sobretudo após o sucesso da música Strange Fruit, que denunciava os atos assassinos contra negros praticados sobretudo no Sul daquele país, e a maneira em que sempre se achava uma maneira de incriminar Billie, utilizando o vício em heroína para calar sua voz.

O sociólogo francês Loic Wacquant fala sobre o Estado penal e em seu livro Punir os Pobres traz a ideia da prisão como substituta do gueto. Wacquant diz que os Estados Unidos recorreram, no curso de sua história, não a uma, mas a muitas “instituições peculiares” para definir, confinar e controlar os afro-americanos. Wacquant classifica a primeira como a escravidão, a segunda como o sistema de discriminação e segregação Jim Crow e o terceiro dispositivo “graças ao qual a América conteve os descendentes de escravos nas metrópoles do norte industrial é o gueto”, que ele chama de um cruzamento da urbanização e da proletarização de negros desde 1914 até os anos 1960.

Por aqui, podemos traçar um paralelo com as favelas, que são nossos guetos. Wacquant sugere uma comparação histórico-analítica entre a prisão e o gueto. “As duas organizações pertencem claramente a uma mesma classe, as instituições de confinamento forçado: o gueto é um modo de ‘prisão social’, enquanto a prisão funciona à maneira de um ‘gueto judiciário’. Todos os dois têm por função confinar uma população estigmatizada de maneira a neutralizar a ameaça material e/ou simbólica que ela faz pesar da sociedade da qual foi extirpada”, ele diz.

Como se a pandemia do coronavírus e o pandemônio Bolsonaro já não fossem suficientes, vivemos o terror dentro do terror com a chacina do Jacarezinho. Ser negro no Brasil em 2021  é praticamente uma comorbidade

Wacquant fala ainda que o gueto é uma relação etnorracial de controle e de fechamento composta de quatro elementos: estigma, coação, confinamento territorial e segregação institucional. A conjugação destes quatro elementos resulta em um espaço distinto, contendo uma população etnicamente homogênea que se vê obrigada a desenvolver no interior desse perímetro um conjunto de instituições que duplicam o quadro organizacional da sociedade circundante da qual tal grupo é banido e oferece ao mesmo tempo o esqueleto para a construção do seu estilo de vida e de suas estratégias sociais próprias. Esta trama institucional paralela oferece ao grupo dominado um certo grau de proteção, de autonomia e de dignidade, mas em contrapartida o encerra em uma relação estrutural de subordinação e dependência, explica.

Para o sociólogo, a prisão também é composta por estes quatro elementos fundamentais que formam o gueto e, por isso, tem objetivos similares. “Enquanto os muros do gueto tremem e ameaçam desabar, os das prisões se estendem, se alargam e se reforçam.”

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Socialista Morena

Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes