quinta-feira, 22 out 2020
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A revolução (armada) datou

CYNARA MENEZES

No início dos anos 1980, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, recém-chegados do exílio com a anistia, se atreveram a falar em um “socialismo moreno”, nosso, à brasileira. Um socialismo que não seguisse modelo de nenhum outro país –Darcy tinha críticas a Cuba e à URSS. Socialismo brasileiro, por isso moreno, mestiço. Foram ridicularizados pela imprensa, alvo de chacota, apenas por defender o socialismo em nosso país e, pior, moreno, “com um pé na cozinha”, como diria o nosso ex-presidente sociólogo e filho de general.

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Senti isso na pele, mais de 30 anos depois, em 2012, quando criei meu blog com este nome, Socialista Morena, em homenagem aos dois. Desde o começo, os maiores ataques que sofri e sofro são justamente em relação ao uso deste nome, “socialista”. Ataques da direita, que confunde socialismo com caridade e franciscanismo, e de parte da esquerda, que só aceita que alguém se diga assim se concordar com tudo que Marx e Lenin escreveram, revolução armada inclusive.

Assim como Darcy ou Allende, não aceito a idéia de pegar em armas para chegar ao socialismo. Me parece uma contradição que matar gente seja condição sine qua non para se chegar ao paraíso. Só admito o uso da violência contra a tirania

Será que o assassinato de Leon Trotski em 1940 não serviu para fazer parte da esquerda perceber que a divergência é indissociável do socialismo? E que nem mesmo existe uma só maneira de vê-lo? Não há socialismo, mas socialismoS. É tudo palpite, ninguém tem certeza. De minha parte (assim como Darcy ou Salvador Allende), não aceito a idéia de pegar em armas para chegar ao socialismo. Me parece uma contradição em si mesma que matar gente seja condição sine qua non para se chegar ao paraíso. Só admito o uso da violência contra a tirania.

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Também me parece um erro de estratégia ditar um exato tipo de socialismo em que a pessoa tem de acreditar, sendo que abraço a formulação de José Saramago, para quem o socialismo é um estado de espírito. É uma forma de ver o mundo que quero compartilhar com os jovens, independentemente de eles terem lido Marx e Lenin ou não. Aliás, está cheio de jovens simpatizantes do socialismo por aí que não querem ler Marx e Lenin. Querem ler e ouvir outras vozes, novas vozes.

Quando Bernie Sanders, o pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, se diz “socialista democrático”, aludindo ao fato de que infelizmente as experiências de socialismo real descambaram para o totalitarismo, essa esquerda de que falo torce o nariz. “Ah, mas isso daí é social-democracia”. Imaginem, alguém ousa se autodefinir como “socialista” na pátria do capitalismo, com sérias chances de vitória, e ainda tem gente reclamando!

Quantos políticos brasileiros, depois de Brizola e Darcy, e principalmente depois da queda do muro de Berlim, ousaram se autodenominar socialistas, socialistas de fato? Nem Lula o fez. Lula e o PT nunca fizeram questão de se dizerem socialistas, ao contrário de Hugo Chávez (e talvez até por isso, porque algum marqueteiro mandou evitar o termo para evitar comparações com o venezuelano).

Já lamentei muito isso, acho um equívoco histórico. (Diante das atuais circunstâncias, por outro lado, é até um alívio.) Mas que o PT perdeu o barco da história em não se assumir socialista, perdeu. O socialismo volta a estar em alta no mundo, volta a fazer parte do jogo político. Com todas as letras. Por isso Bernie Sanders não pára de repeti-la.

Bernie é social-democrata? E qual o problema com a social democracia, afinal, além de ter sido falsamente usada pelo PSDB todos estes anos? Os países mais igualitários do mundo são sociais democratas. Nem lá o Brasil chegou ainda e já estão depreciando, eternamente esperando pelo momento ideal, em que, pelas armas, acabaremos com o capitalismo de uma vez, pimba! Desculpem, senhores, mas não acredito nisso, acho que este conceito claramente datou. A revolução datou. Pelo menos nos próximos séculos. Sem contar que este discurso bélico se identifica muito mais com a direita hoje em dia.

Parte da esquerda parece estar eternamente esperando pelo momento em que, pelas armas, acabaremos com o capitalismo de uma vez, pimba! Desculpem, senhores, mas acho que a revolução datou. Pelo menos nos próximos séculos. Sem contar que este discurso bélico se identifica muito mais com a direita hoje

E se a social-democracia for uma etapa para o socialismo? Em vez de armas, convencimento? Em vez de reeducar posteriormente, reeducar antes? Não prego a ausência de confronto, o confronto também é intrínseco ao socialismo. É com confronto, sim, mas de idéias. Tendo o povo ao lado, apoiando. Para isso é necessário conquistar corações e mentes, como os socialistas democráticos norte-americanos estão fazendo. Nunca houve tantos jovens que se autointitulam socialistas nos EUA como agora. Temos muita sorte de ser socialistas numa época em que as informações circulam tão rapidamente e de forma tão… socializada. Ironias do capitalismo.

Quando se fala em socialismo, obviamente que queremos ir além da social-democracia. Não dá para abrir mão da reforma agrária. Não dá para não sangrar o capital financeiro. Mas uma coisa de cada vez. Antes disso, precisamos conscientizar o povo da importância deste destino. Ainda estamos nesta etapa. A desigualdade social é uma das maiores mazelas do capitalismo. E o fosso entre ricos e pobres aumenta a cada dia. A luta primordial contra a desigualdade emparelha o socialismo à social-democracia. Por enquanto, eles ainda estão juntos.

O avanço do discurso fascista entre os jovens brasileiros assusta e se espalha pelas redes sociais. Podemos estar caminhando para o emburrecimento de toda uma geração, para o emburrecimento do Brasil. A irresponsabilidade da mídia e da oposição alimenta a Hidra. Enxergo no horizonte o momento em que um fanfarrão misógino, racista, xenófobo e homofóbico como Donald Trump apareça querendo se tornar presidente. Ou será que já temos um? (Este artigo é de 2016; em 2018 o fanfarrão misógino, racista, xenófobo e homofóbico Jair Bolsonaro foi eleito.)

A esquerda precisa ser sábia. Não é ao redor do PT que gravitamos. Estamos à esquerda do PT. A esquerda irá sobreviver, iremos sobreviver. Mas nossa força ou nossa fraqueza futura se definirá pela quantidade de gente que estiver do nosso lado contra os fascistas. Tem muita gente jovem interessada no socialismo. Por favor, velhos camaradas, não os espantem com dogmatismo.

Texto originalmente publicado na revista Caros Amigos em março de 2016

Socialista Morena
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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes