quarta-feira, 28 out 2020
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Alexandre Garcia, Leda Nagle e o lobby dos médicos bolsonaristas em favor da cloroquina

CYNARA MENEZES

A apresentadora Leda Nagle, com extensa carreira na televisão e hoje com um canal próprio no youtube com mais de 950 mil inscritos, e Alexandre Garcia, atualmente na CNN Brasil e também com um canal com mais de 1,7 milhão de inscritos, têm atuado como os principais porta-vozes midiáticos da defesa da cloroquina no combate ao coronavírus, embora não haja nenhuma evidência científica da eficácia do remédio contra a doença.

Nos últimos dois meses, Leda fez mais de uma dezena de entrevistas em seu canal com médicos que advogam o uso da cloroquina e de outras medicações sem evidência científica de que funcionam contra a Covid-19, como a ivermectina e a azitromicina, no “tratamento precoce” da doença. Alguns dos entrevistados pela jornalista estiveram nesta segunda-feira no Palácio do Planalto propagandeando a cloroquina e a hidroxicloroquina na presença de Jair Bolsonaro.

O evento no Planalto, “Brasil Vencendo a Covid-19”, se transformou numa verdadeira apologia ao uso da hidroxicloroquina. Estes médicos teriam entregue ao presidente 10 mil assinaturas de colegas que defendem o “tratamento precoce” da Covid-19 utilizando o remédio, chamado de “nossa linda e velha cloroquina” por Raissa Soares, entrevistada por Leda Nagle duas vezes recentemente.

No início de julho, Bolsonaro chegou a compartilhar em suas redes sociais um vídeo da médica agradecendo pelo envio de cloroquina que havia pedido, também em vídeo nas redes sociais, onde se dirigia ao chefe do Executivo como “meu presidente”. “Meu presidente, nos ajuda. Manda um avião com um carregamento, coloca hidroxicloroquina nessa cidade”, apelava Raissa, que atuava no Hospital Luis Eduardo Magalhães, em Porto Seguro, na Bahia. Quatro dias depois, Bolsonaro mandou à cidade um avião com 40 mil doses do remédio.

Na cerimônia no Planalto, Raissa afirmou ter sido “demitida” do hospital estadual por insistir no uso do medicamento, boato que ela própria desmentiu na época, em vídeo, afirmando ter deixado o trabalho por conta própria, por não ter tempo de cumprir todas as horas exigidas em contrato.

Raissa Soares contou ainda ter sido xingada por médicos em Porto Seguro pela mesma razão, mas na verdade foi alvo de uma moção de repúdio dos colegas porque, em entrevista, os atacou: “Médico, se você tem medo de dar hidroxicloroquina pra Covid-19, fique em casa, OK?” A prefeitura da cidade acabou pedindo desculpas aos profissionais de saúde pela “declaração isolada” de Raissa, que também é funcionária do município.

Os médicos que se encontraram com Bolsonaro também são os mesmos apontados como responsáveis pelo site Covid Tem Tratamento, Sim, lançado em junho, e que apresenta a cloroquina/hidroxicloroquina, assim como a azitromicina, o zinco e a ivermectina como eficazes para deter o avanço da doença, sem apresentar nenhuma comprovação científica, apenas “fortes evidências observacionais”.

Após a cerimônia dos médicos bolsonaristas no Planalto, da qual participou como se fosse membro do governo, Alexandre Garcia publicou um vídeo dizendo que a hidroxicloroquina está “perto do topo na escala de evidência científica”. Fonte? Nenhuma

Segundo o site Comprova, de verificação de notícias, “são enganosos o conteúdo e a proposta” da página, que diz que “após meses observando o desenvolvimento da covid-19 em vários países, a comunidade médica internacional tem a convicção de uma estratégia de tratamento resolutiva para a COVID-19”. De acordo com o Comprova, “a afirmação foi feita sem comprovação e sem a anuência mesmo de pessoas que supostamente apoiavam a iniciativa”.

O principal vídeo do site dos médicos em defesa da hidroxicloroquina no tratamento precoce é uma live mediada por Alexandre Garcia, que tem falado publicamente sobre o remédio utilizando o caso do próprio Bolsonaro. “Em todo noticiário que eu ouvi, o meu colega repórter diz assim: ‘Mostrou a caixa de hidroxicloroquina, que não tem comprovação científica’. E o cara está na frente do presidente, que é a comprovação científica que o uso da cloroquina dá certo”, disse o jornalista em sua estreia na CNN.

Alexandre Garcia chegou a levar um “pito” ao vivo do colega Rafael Colombo por sua defesa da medicação baseada em achismos. “A troco do quê tanta gente morreria se a cloroquina funciona?”, questionou o âncora do programa. “Se existe um interesse farmacêutico em dizer que ela não funciona, também não há um interesse farmacêutico em dizer que ela funciona?”

Após a cerimônia dos médicos bolsonaristas no Planalto, da qual participou como se fosse um membro do governo e não um jornalista, Garcia voltou a publicar um vídeo em seu canal nesta terça, 25 de agosto, dizendo que a hidroxicloroquina está “perto do topo na escala de evidência científica”. Fonte? Nenhuma. A única “evidência científica” apresentada pelo ex-global foi a “cura” do presidente.

Enquanto os jornalistas amigos promovem a “eficácia” da hidroxicloroquina, o ministro da Saúde, o até hoje interino Eduardo Pazuello, deu entrevista dizendo que os estoques do medicamento “estão zerados”, embora ele mesmo admita existirem 4 milhões de comprimidos na Fiocruz “aguardando negociação de preço”.

“Não temos como comprar, porque o preço de custo dela, que é o que nos colocam, está acima do que nós podemos pagar na tabela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos). Então, essa produção da Fiocruz ainda não foi adquirida pela simples razão de negociação de valores, coisa que acontecerá nos próximos dias”, disse.

Pazuello disse que os estoques de cloroquina “estão zerados”, embora ele mesmo admita existir 4 milhões de comprimidos na Fiocruz “aguardando negociação de preço”. A Fiocruz nega, porém, que o ministério tenha feito pedido do medicamento

Em nota enviada ao site, a Fiocruz negou a informação do ministro, afirmando não ter havido nenhum pedido de aquisição por parte da pasta. “Atualmente, Farmanguinhos possui matéria-prima suficiente para produção de até quatro milhões de unidades farmacêuticas do medicamento. Contudo, até o momento, não houve pedido oficial do Ministério da Saúde para uma nova produção de difosfato de Cloroquina 150 mg”, diz o texto.

No final de julho, um edital para a compra de mais cloroquina foi cancelado pela instituição. Leia a íntegra da nota da Fiocruz abaixo.

“Farmanguinhos produz, desde 2007, o medicamento difosfato de Cloroquina 150mg para o atendimento do Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária, seguindo cronograma estabelecido pelo Ministério da Saúde (MS). A última compra de insumo farmacêutico ativo (IFA) foi realizada por Farmanguinhos em abril de 2019, a um custo de 219,98 reais por quilo. Na ocasião, a Fiocruz adquiriu 2.000 quilos de IFA. Em março deste ano, três milhões de unidades farmacêuticas de difosfato de Cloroquina 150 mg foram entregues ao Ministério da Saúde para atender ao Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária.

O IFA é fabricado pela IPCA Laboratories Limited, empresa farmacêutica com sede na Índia que possui registro sanitário do medicamento concedido pela Anvisa à Farmanguinhos.

Atualmente, Farmanguinhos possui matéria-prima suficiente para produção de até quatro milhões de unidades farmacêuticas do medicamento. Contudo, até o momento, não houve pedido oficial do MS para uma nova produção de difosfato de Cloroquina 150 mg.”

Socialista Morena
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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes