Atacar Lula como “estratégia eleitoral” é se rebaixar e rebaixar o nível do debate

Focar a campanha política em ataques ao melhor situado nas pesquisas é uma espécie de derrota antecipada da tal "terceira via"

CYNARA MENEZES

Os adversários do PT dizem que o partido “não aprendeu” com tudo o que sofreu nos últimos anos – “mensalão”, golpe contra Dilma, prisão de Lula, derrota para a presidência em 2018… Mas estes mesmos adversários agora abraçam como “estratégia eleitoral” atacar o ex-presidente o tempo todo como forma de decolar nas pesquisas de opinião. Ou seja, em vez de divulgar ideias e propostas, rebaixam o nível do debate político com o mesmo antipetismo descerebrado que nos trouxe até aqui. Quem foi mesmo que não aprendeu a lição?

Focar campanha política em ataques ao melhor situado nas pesquisas é uma espécie de derrota antecipada da tal “terceira via”. Demonstra que seus candidatos não têm qualidade para enfrentar uma eleição de forma propositiva, colocando em evidência o projeto de país que defendem, para que o eleitor escolha o melhor. Quem está optando pelo ataque cotidiano a Lula rebaixa o debate e a si mesmo. É humilhante, para quem quer ser presidente do Brasil, baixar a cabeça diante do marqueteiro e aceitar que suas propostas não servem para catapultá-lo nas pesquisas, e sim as críticas ao primeiro colocado.

Desde 2010, pelo menos, que nós, eleitores, assistimos à queda vertiginosa do nível na campanha eleitoral brasileira. Naquela época, com Dilma Rousseff, do PT, como a primeira mulher com chances de ganhar a presidência da República, seu adversário, o tucano José Serra, para agradar os evangélicos conservadores que hoje estão com Bolsonaro, partiu para a baixaria da acusação de “abortista” que acabaria se voltando contra ele.

Em 2014, o próprio PT usou uma estratégia demonizadora contra Marina Silva, enquanto Aécio Neves, do PSDB, lançou mão até de Cuba para atacar Dilma, narrativa que o bolsonarismo também iria copiar. Em 2018, Jair Bolsonaro levaria a baixaria política a outro patamar, ainda mais rasteiro, apelando às fake news como a “mamadeira de piroca” e ao anticomunismo rastaquera contra o PT.

Em 2021, enquanto um aparentemente desesperado Ciro Gomes não pára de falar de Lula nem quando propõe “trégua”, outros candidatos da “terceira via”, como João Doria, Eduardo Leite e Luiz Henrique Mandetta, seguem à risca a receita marqueteira de centrar fogo no petista. “Esse antipetismo será predominante dentro da nossa campanha, com muita clareza”, disse Doria ao se inscrever nas prévias do PSDB, em setembro. “Bolsonaro é também resultado de uma política feita pelo PT”, afirmou Eduardo Leite –que votou em Bolsonaro em 2018. “Lula e Bolsonaro são a falência da sociedade”, disparou Mandetta, ex-ministro de… Bolsonaro.

Será que o povo se deixará seduzir por um candidato que fala mais de outro do que de si próprio? Não é humilhante descer tanto para tentar subir nas pesquisas? Nas redes sociais, seguidores de um presidenciável divulgam mais a foto de Lula com Eunicio Oliveira do que a foto ou as ideias do seu próprio candidato… Um político que já foi prefeito, governador, ministro de Estado, não tem mais o que mostrar a não ser ataques a Lula? Onde foi parar o orgulho, o amor próprio, desse pessoal?

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E a questão mais importante: se rebaixar dessa forma vai mesmo surtir efeito eleitoral? As pesquisas mostram que não. Atacar Lula o tempo todo não parece estar dando resultados –ou Ciro já estaria em primeiro lugar e não com 6%. Segundo o Datafolha, a maior parte do eleitorado de Ciro, Doria e Leite tende a preferir o petista no segundo turno. Ora, se estes ataques nem sequer vão funcionar para alavancar suas candidaturas, está na hora de começar a pensar no Brasil e não em mais uma vez pavimentar o caminho para a extrema direita e depois fugir da raia dizendo ser “uma escolha difícil”.

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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes

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