Censura da grana: por que a imprensa paulista nunca noticiou denúncias contra Samuel Klein?

A resposta é simples: desde o começo dos anos 2000, as Casas Bahia figuram entre as maiores anunciantes do país

CYNARA MENEZES

No dia que Samuel Klein morreu, lia-se em seu obituário na Folha de S.Paulo que ele “gostava do mar, de que desfrutava em um iate de 61 pés. Com exceção dessa extravagância, era um homem simples, que trabalhava de sandálias, quando não tinha compromissos externos. Por mais de cinco décadas, teve dedicação total às Casas Bahia”. Toda a “grande” imprensa brasileira adotou o mesmo tom laudatório em relação ao fundador da rede de lojas: Klein era um homem “de hábitos e aparência simples, costumava ser visto de camisa polo e sandália franciscana”, disse o jornal O Globo.

Seis anos depois da morte do empresário, uma alentada reportagem da Agência Pública revela que este homem “simples” e abnegado era, na verdade, um predador serial de mulheres, acusado de pedofilia e estupro por dezenas de moças e meninas desde os 9 anos de idade, e de trocar mercadorias de suas lojas e dinheiro por favores sexuais. Como é que nenhum jornal ou televisão paulista nunca descobriu, estes anos todos, a vida dupla de Klein? É muito difícil acreditar que, ao longo de décadas, não tivessem nem sequer ouvido falar do assunto.

É impossível que, durante décadas, a grande mídia nunca tenha tomado conhecimento das denúncias de abuso sexual contra Samuel Klein –não há uma só linha sobre ele que não sejam elogios rasgados à figura do judeu que fugiu do nazismo e construiu um império

Mesmo levando em consideração que os repórteres da mídia comercial jamais tivessem sido informados da peregrinação constante de meninas e moças à sede da empresa em São Caetano do Sul, há, segundo a Pública, pelo menos 11 processos judiciais relacionados a abuso sexual e assédio envolvendo o fundador das Casas Bahia, todos eles públicos e acessíveis. É praticamente impossível que a imprensa não tenha tomado conhecimento e publicado algo sobre isso –e na Folha, pelo menos, não há uma só linha sobre Samuel Klein que não sejam elogios rasgados à figura do judeu que fugiu de um campo de concentração nazista na Polônia e construiu um império no Brasil.

A omissão é ainda mais intrigante quando se sabe que existem inclusive imagens em vídeo anexadas aos processos, um deles postado pela agência Pública no youtube, com Samuel Klein cercado de meninas em uma festa.

O mais grave: mesmo após a revelação destas denúncias, o silêncio em torno do caso continua ensurdecedor. Neste domingo, a ombudsman da Folha, Flavia Lima, questionou diretamente o jornal sobre o porquê de os crimes sexuais de que Samuel Klein é acusado não aparecerem nas páginas do diário a não ser em duas colunas de opinião, escritas por Djamila Ribeiro e Luciana Temer. “Não fossem os textos das duas mulheres —que falam sobre os silêncios que encobrem crimes com essas características —, o leitor da Folha talvez nem tivesse conhecimento das gravíssimas acusações”, criticou a ombudsman.

Qual a razão deste silêncio cúmplice? Ora, pelo menos até a morte de seu fundador, as Casas Bahia eram a maior anunciante brasileira: por 11 anos consecutivos, entre 2002 e 2013, a rede de lojas foi campeã em anúncios publicitários nos jornais, revistas e TVs do país. Só perderia o posto para a Unilever em 2014, quando se tornou a segunda maior anunciante. As denúncias e os processos envolvendo Samuel Klein abrangem o período entre 1989 e 2010. Em 2011, três anos antes do falecimento do patriarca, a família Klein negociou com Abílio Diniz uma fusão das Casas Bahia com o Ponto Frio, formando a Via Varejo, que em 2015 se tornou a maior anunciante. No último levantamento disponível, de 2019, a Via Varejo aparece em quinto lugar.

Pelo menos até a morte de seu fundador, as Casas Bahia eram a maior anunciante do país: por 11 anos consecutivos, a rede foi a campeã de publicidade nos jornais, revistas e TVs do país. Só perderia o posto para a Unilever em 2014, quando se tornou a segunda maior anunciante

Em agosto do ano passado, a Globo firmou com as Casas Bahia uma parceria de T-commerce, um formato inédito de publicidade que indica na tela da TV que alguns itens do cenário de seus programas e novelas está disponível no site das lojas da rede. Através de um QR Code, os espectadores são direcionados diretamente para a versão mobile do e-commerce da Casas Bahia. Como diria o ex-juiz Sergio Moro, quem gostaria de “melindrar” alguém cujo apoio é importante, não é mesmo?

A única conclusão possível para esta omissão é que a força da grana provocou a censura das notícias sobre os abusos de Samuel Klein ao longo dos anos e até mesmo agora, quando sua imagem de “herói”, de self-made man, construída com afinco pelos grandes meios de comunicação, desmoronou. A direção da Folha, que sempre disse ter o rabo preso “apenas com o leitor”, precisa explicar por que, a despeito de possuir uma parceria com a agência, não republicou as denúncias contra o fundador das Casas Bahia por uma “decisão editorial”, segundo ouviu o diretor da Pública, Thiago Domenici. Que tipo de “decisão editorial” omite dos leitores um assunto tão importante?

A própria Agência Pública apontou, em um anúncio em perfil no facebook, que temas como este não surgem com facilidade nas páginas do jornalismo comercial. “Conseguimos denunciar violações envolvendo poderosos como Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, porque não temos anunciantes. Essa independência só é possível com a ajuda dos nossos leitores”, lembraram.

Pode ser um desenho animado de 1 pessoa e texto que diz "Investigamos os poderosos porque eles não pagam nossas contas. Apoie o jornalismo corajoso e independente"

Ocultar um crime é acobertar um criminoso. Ajudar a encobrir os abusos sexuais de Samuel Klein entrará para o rol de desserviços prestados pela mídia comercial ao país, junto com o aval à ditadura militar, o empréstimo de carros à tortura, o apoio à farra das privatizações durante os governos tucanos e a cumplicidade com as perseguições da Lava-Jato. É este o papel da imprensa “livre”?

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Socialista Morena

Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes