Derrota do candidato de Rodrigo Maia demonstra que a “direita democrática” é uma ilusão

Anti-bolsonarismo da direita mostra-se nanico na Câmara e é um balde de água fria na campanha pelo impeachment

CYNARA MENEZES

Rodrigo Maia, do Democratas, conquistou 145 votos para seu candidato Baleia Rossi na eleição para a presidência da Câmara, contra 302 de Arthur Lira, o candidato de Jair Bolsonaro. Fazendo um exercício de matemática simples, sem contar as defecções nestes partidos, se excluirmos deste total os deputados federais de esquerda ou progressistas (PT, PCdoB, PSB, PDT e Rede), que somam 119 votos, Baleia terá recebido apenas 26 votos da chamada “direita democrática”, ou seja, da direita que faz oposição ao bolsonarismo na Câmara.

Somada à vitória de um aliado do governo também no Senado, Rodrigo Pacheco, são derrotas que comprovam que esta direita anti-Bolsonaro é nanica dentro do Congresso e jogam um balde de água fria na campanha do impeachment esboçada por partidos e movimentos sociais do lado de fora. Impeachment com os votos de quem?

A existência de uma direita democrática no Brasil, liberal aos moldes dos Democratas norte-americanos, tem sido uma ilusão constante alimentada pela mídia comercial, que simpatiza abertamente com essa visão política

A existência de uma direita democrática no Brasil, liberal aos moldes dos Democratas norte-americanos, tem sido uma ilusão constante alimentada pela mídia comercial, que simpatiza abertamente com essa visão política. Desde 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva se tornou presidente, a mídia tem atuado para colocar a direita liberal de volta no poder, sem sucesso. Em 2014, patrocinou a chorumela de perdedor de Aécio Neves, do PSDB, quando pediu recontagem de votos de forma antidemocrática, exatamente como fez Donald Trump agora nos EUA e como Bolsonaro ameaça repetir em 2022 –em 2018, mesmo vencedor, ele acusou as eleições de terem sido fraudadas.

Ao apoiar o golpe contra Dilma Rousseff, a tal direita liberal e seu braço midiático, as organizações Globo, flertaram com o autoritarismo com quem Bolsonaro sempre se deitou. A aposta então era que, tirando o PT do poder às custas de um processo judicial fraudulento que inviabilizou Lula –como comprovam agora as transcrições das conversas entre o ex-juiz Sergio Moro e seu subordinado Deltan Dallagnol–, abria-se o caminho para o retorno da direita liberal ao governo. As urnas anteciparam que o tamanho dela, porém, era bem menor do que a ilusão vendida. O candidato da “direita democrática”, Geraldo Alckmin, do PSDB, teve minúsculos 4,76% dos votos.

Maia, filho de exilado, mas que votou em Bolsonaro, perdeu a oportunidade de impor uma derrota ao capitão, poupado por ele do impeachment. O choro de “emoção” ao se despedir talvez esconda algo de desconsolo, de decepção com sua gente. E consigo próprio

A votação pífia de Baleia Rossi também demonstra que a extrema direita só vota na direita liberal em último caso, para derrotar a esquerda; enquanto a direita liberal é facilmente cooptada pela extrema direita quando há possibilidade de lucrar com isso. Não é à toa que o governo conseguiu aprovar com facilidade, e com o apoio da turma de Rodrigo Maia, os projetos econômicos –a mesma turma que o traiu na primeira oportunidade, se aliando ao bolsonarismo, ao ouvir o tilintar da liberação de emendas parlamentares. É inegável ainda que a postura da mídia comercial em relação a Bolsonaro se torna muito mais amena quando se trata de seu ministro da Economia, Paulo Guedes.

Por onde quer que se olhe, portanto, a “direita democrática” (“liberal na economia e nos costumes”, como se definem) dá todos os sinais de ser um espectro político tão reduzido quanto os atuais leitores de jornal em papel. E este é outro balde de água fria, desta vez nas pretensões de que será um candidato com este viés o responsável por derrotar Bolsonaro em 2022. Como? Com que votos?

Representante mais vistoso dessa direita que supostamente defende a democracia, Rodrigo Maia, filho de perseguido político da ditadura militar, nascido no exílio no Chile, mas que confessou ter votado em Bolsonaro “com convicção” em 2018, perdeu a oportunidade de ouro de sua carreira: impor uma derrota ao capitão, poupado por ele de um processo de impeachment. O choro de “emoção” de Maia ao se despedir da presidência da Câmara talvez esconda algo de desconsolo, de desamparo, de decepção com sua gente. E consigo próprio.

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