sábado, 24 out 2020
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Doação de Armínio Fraga a candidato negro deixa o PSOL em polvorosa

CYNARA MENEZES

O anúncio de que o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no governo FHC, doou 30 mil reais a Wesley Teixeira, um candidato negro a vereador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, está deixando o PSOL em polvorosa nas redes sociais. Militantes do movimento negro acusam o partido de “racismo” e de querer impugnar a candidatura de Teixeira se não devolver a doação. Do outro lado, militantes do PSOL consideram inadmissível a um socialista receber doação de alguém do mercado financeiro.

A doação de Fraga a Teixeira foi articulada num encontro virtual promovido por Pedro Abramovay, diretor da Open Society Foundations para a América Latina, do qual participaram também os cineastas João e Walter Salles, herdeiros do banco Itaú, e Bia Bracher, escritora e também herdeira do banco. Todos fizeram doações ao candidato. Em seu perfil no facebook, Abramovay explicou que sua intenção era promover a aproximação entre setores progressistas da elite do país e as candidaturas de negros e mulheres em 2020.

A doação de Armínio a Wesley Teixeira foi articulada por Pedro Abramovay, diretor da Open Society Foundations para a América Latina. Ele garantiu que nenhuma exigência foi feita por parte do economista para a doação

“Estou convencido que para derrotar o autoritarismo e construir um projeto progressista, precisamos ver negros e mulheres ocupando os espaços de poder e liderando essas mudanças. Por isso é tão necessário olhar e apoiar negros e mulheres nessas eleições”, escreveu Abramovay. “Organizei, junto com Sueli Carneiro, uma reunião online com algumas pessoas do topo da pirâmide no Brasil, que eu sei que estão preocupadas com o crescimento do autoritarismo no Brasil e também com o racismo.”

Ele garantiu que nenhuma exigência foi feita por parte de Armínio para a doação, mas que setores do partido não receberam bem a notícia. “Alguns setores do PSOL ficaram indignados com a possibilidade de Wesley receber dinheiro de setores da elite. Claro que isso já aconteceu com outros candidatos (quase todos brancos) e até com doações ao partido. Mas para o jovem negro da baixada, que precisa dos recursos para sobreviver (política e fisicamente) nessa campanha, era demais. Exigiram que Wesley devolvesse o dinheiro, o que me parece uma falta de compreensão do que está acontecendo no Brasil. O fascismo não será derrotado sem diálogo com outros setores.”

Nas redes sociais, o tema dividiu a militância de esquerda. Enquanto a maior parte dos negros ficou do lado de Teixeira, muitos psolistas também viram contradição do candidato em aceitar o dinheiro –segundo a revista Veja, Armínio doou tanto para o PSOL quanto para o neoliberal partido Novo. Pedro Duarte, candidato do Novo a vereador no Rio, recebeu 25 mil reais.

No twitter, um dos críticos mais duros à posição do PSOL sobre a doação foi o historiador negro Douglas Belchior, que, em 2018, já havia acusado o partido de racismo na distribuição dos recursos financeiros entre os candidatos. Belchior chamou de “hipócrita” a postura da legenda de recusar doações de “branco rico”, enquanto as “estrelas” do partido as aceitariam sem pestanejar.

Podem ser radicais. Quando se colocam publicamente contra o capitalismo e enfrentam as elites, estão brigando com os amigos dos pais.Tem rede de proteção. Em outros tempos, se exilavam em Paris. Hoje resistem em unidades democráticas. Alvas alianças. Eles podem. Um preto não.👇 — Douglas Belchior (@negrobelchior) October 1, 2020

Sim, eu confio. @wesleyteixeira é um mano da favela. Tem formação ideológica consistente. É reconhecido pelo seu trampo. Se fosse um lourinho zona sul teria o mesmo tratamento? Seria alvo da mesma desconfiança? Bora fuçar nas contas de campanha desses hipócritas do caralho!👇 — Douglas Belchior (@negrobelchior) October 1, 2020

A filósofa Sueli Carneiro, fundadora do Geledés, também saiu em defesa de Wesley, para quem gravou vídeo de apoio à candidatura.

Os militantes negros receberam ainda o apoio de progressistas famosos (e brancos), como os humoristas Marcelo Adnet e Gregório Duvivier.

O PSOL ainda não se pronunciou oficialmente sobre o assunto. O que se sabe até agora é que a resistência à doação de Armínio Fraga não partiu do diretório nacional do partido, mas da direção local em Duque de Caxias e da corrente que Wesley integrava dentro da legenda, a Insurgência. Teixeira decidiu abandonar a tendência.

Mas o debate sobre o racismo no PSOL já havia sido colocado em pauta durante outro processo que quase impediu a candidatura a vereadora de outra jovem periférica negra, Thais Ferreira, comparada por setores do partido a Tabata Amaral por ter feito, como ela, o curso de formação política do RenovaBr. Um manifesto em favor da candidatura de Thais, que é primeira suplente de deputada estadual e recebeu quase 25 mil votos em 2018, reuniu mais de 500 assinaturas.

Entre os nomes importantes do partido no cenário nacional, o único a defender publicamente a candidatura de Wesley até o momento foi Marcelo Freixo, que disse no twitter ser “inaceitável” qualquer tentativa de prejudicá-lo.

Socialista Morena
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