Flanei em São Paulo na pandemia e só encontrei desolação

A cidade mais rica do país vive uma crise humanitária que só um especialista em moradia pode resolver

CYNARA MENEZES

Não sei se os paulistanos sabem disso, mas uma das viagens favoritas de muitos brasileiros, sobretudo jovens, é flanar em São Paulo. Flanar, verbo que herdamos dos franceses (flâner), significa caminhar sem rumo, sair por aí andando sem destino certo. Não tem a ver com compras e sim com observar as ruas, os prédios, as pessoas, o burburinho de gente. Balzac definiu como “a gastronomia do olho”.

Nove meses de quarentena em Brasília me deixaram curiosa sobre como seria flanar novamente em São Paulo, cidade onde vivi durante 10 anos, após ter estourado a pandemia de coronavírus.

É visível para mim que, para além da pandemia, a cidade vive uma crise humanitária. Se os paulistanos permitem o palpite de uma flâneur de outro Estado, me parece que tudo que a cidade mais precisa neste momento é de um especialista em moradia

No aeroporto Juscelino Kubitschek, depois de tanto tempo sem viajar, me sinto como alguém que tivesse saído de um abrigo subterrâneo após uma hecatombe nuclear. Tudo parece novo, esquisito e soturno. Todos os funcionários usam protetor facial de acetato, além da máscara de tecido. Há frascos de álcool-gel colados nas paredes. Idosos, adultos e crianças usam máscara. As poltronas do avião, porém, continuam grudadas umas nas outras. Em vez do serviço de bordo, ganhamos sachês de álcool em gel.

A chegada a São Paulo espanta: a área de recolhimento de bagagens do aeroporto de Congonhas, outrora o segundo mais movimentado do país, com 22 milhões de passageiros em 2019, está deserta por volta das 11 da manhã de uma terça-feira. Não há absolutamente ninguém esperando pela bagagem nas esteiras. Só uma senhora na cadeira de rodas, que aguarda a pessoa que irá lhe conduzir à saída.

No táxi, ao passar pelo bairro de Higienópolis, de classe média alta e alta (é lá onde mora, por exemplo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso), começo a ver muitas pessoas em situação de rua sentados ou deitados em colchonetes nas calçadas. Comento com o motorista, que diz:

–Quando a Erundina foi prefeita –ela é nortista, né?–, falou para todo mundo de lá vir para cá que ela daria casa para todo mundo. É por isso que tem tanta gente na rua, foi assim que começou a Cracolândia.

Fico pensando quanta gente não recebeu essa história pelo whatsapp. O porteiro do prédio onde vou me hospedar, na vizinha Santa Cecília, região central da cidade, me recebe alegremente –sem a máscara de proteção contra a covid-19.

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No primeiro dia, caminho até a rua do Gasômetro, no Brás. São uns 6 quilômetros de trajeto a pé pelo centro da capital paulista. As ruas têm um movimento muito menor do que o normal, mas ainda assim estão movimentadas para uma pandemia.

Cruzo com jovens, velhos, mulheres, entregadores de aplicativo, vendedores de loja… Entre os que não usam máscara ou usam abaixo do nariz ou no queixo, dá uma proporção de 40% sem máscara para 60% utilizando corretamente a proteção –bem diferente de Brasília, onde vejo uma adesão bem mais generalizada à máscara entre a população. Aos poucos percebo que usar a máscara no queixo se tornou uma tradição tão paulistana quanto comer coxinha na padoca ou pastel na feira.

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Pisei em no mínimo 30 calçadas diferentes e, em todas elas, havia pelo menos uma pessoa em situação de rua, pedindo ou dormindo. Sempre houve sem-teto na cidade, mas tenho a impressão que o número aumentou absurdamente, e as estatísticas comprovam

Há muita, muita gente morando na rua em São Paulo. Pisei em no mínimo 30 calçadas diferentes nesta primeira caminhada e, em todas elas, havia pelo menos uma pessoa em situação de rua, pedindo ou dormindo. Sempre houve sem-teto na cidade, mas tenho a impressão que o número aumentou absurdamente, e as estatísticas comprovam. Nos últimos quatro anos, a população de rua cresceu 53% e alcançou 24 mil pessoas, segundo um censo feito pela prefeitura da cidade –e estes são números anteriores à pandemia de coronavírus.

Caminhando pela avenida São João por volta da hora do almoço, sigo um rastro de marmitas de isopor vazias e cascas de tangerina jogadas pela calçada, dobro a esquina na rua Rua General Julio Marcondes Salgado e dou de cara com uma enorme fila diante do Bom Prato, restaurante do governo onde se pode comprar um prato de comida a um real. No começo da pandemia, os sem-teto passaram a ter direito à gratuidade, o governador João Doria suspendeu o benefício, mas a Justiça o obrigou a retomar. Muitos sem-teto instalam seus colchões nas calçadas próximas ao restaurante.

O restaurante Bom Prato, de comida a 1 real

Também há muitos colchões em frente à entrada principal do metrô Marechal Deodoro, onde observo várias mulheres trans entre os sem-teto, o que me desperta curiosidade: por que será? No dia seguinte, sou abordada na avenida por Sandy, uma trans franzina que me pede, bastante envergonhada, que eu lhe compre algumas salsichas para o almoço. Aproveito para perguntar por que há tantas transexuais dormindo nas ruas e Sandy me revela um efeito da pandemia sobre o qual a maioria de nós nunca parou para pensar.

–Vou ser sincera contigo, amiga. É que a gente vive de fazer programa e com a pandemia os clientes sumiram.

Ou seja, a única fonte de renda de Sandy e suas amigas, a prostituição, se foi… Pergunto a ela por que não vai para um abrigo da prefeitura e Sandy me responde que é casada e eles não aceitam casais. Puxa vida, em pleno século 21 e ainda essa mentalidade de colégio interno?


No segundo dia, caminho da Santa Cecília até a rua Augusta, cerca de 4,5km passando por dentro de Higienópolis, com um sol bravo e a canção de Tom Zé na cabeça:

Augusta, graças a Deus
Graças a Deus
Entre você e a Angélica
Eu encontrei a Consolação
Que veio olhar por mim
E me deu a mão.

Augusta, que saudade
Você era vaidosa
Que saudade
E gastava o meu dinheiro
Que saudade
Com roupas importadas
E outras bobagens

Angélica, que maldade
Você sempre me deu bolo
Que maldade
E até andava com a roupa
Que maldade
Cheirando a consultório medico
Angélica

Ê baiano para fazer samba paulista este Tom Zé.

Cruzando a Angélica entre os carros, um homem negro, descalço e sem camisa empurra um carrinho de supermercado com seus pertences e pronuncia frases incompreensíveis. Fico imaginando há quantos séculos esta mesma cena se repete, um preto descalço, sem camisa, sem eira nem beira, naquele bairro de sinhôs…

Na Augusta, descendo em direção aos Jardins, procuro as lojinhas alternativas de roupa que gosto de visitar sempre que vou a São Paulo e, para meu espanto, nenhuma delas existe mais. Os primeiros quarteirões da rua estão todos vazios. As placas de “aluga-se” se sucedem, uma após a outra. Mais adiante, na chique Oscar Freire, com suas lojas de marca, a pandemia não parece ter promovido tantos estragos.

Na avenida Paulista, o chamado “centro financeiro do país”, os sem-teto que eu costumava ver quando ia para o trabalho ali, anos atrás, se multiplicaram. Agora há um verdadeiro camping instalado na calçada do parque Trianon, em frente ao Masp, o Museu de Arte de São Paulo, cartão-postal da cidade, e a apenas uma quadra da famigerada FIESP, aquela que ajudou a derrubar a Dilma dizendo que depois que tirassem ela do cargo tudo ia melhorar.

Quase não saí à noite durante os 10 dias em que estive em São Paulo. Em uma das duas únicas saídas, fui visitar um amigo a uns 5 minutos de onde estava, na avenida São Luiz. Dentro do carro, presenciamos neste curto trajeto uma pessoa sendo espancada numa travessa da rua Rego Freitas por um trio, aos gritos de:

–Ninguém rouba a biqueira! Ninguém rouba a biqueira!

Em 2017, o então prefeito João Doria decretou que a Cracolândia havia acabado. Os moradores de São Paulo (e o Ministério Público) dizem que, na verdade, ele dispersou os usuários de crack para pelo menos outros sete bairros da cidade. Com o vaivém noturno no centro reduzido pela pandemia, as ruas estão inóspitas. Nos faróis, aos bandos, rapazes cercam os carros com seus panos e garrafas de plástico, oferecendo de forma ostensiva a limpeza do para-brisa.

Ver São Paulo assim corta o meu coração.


No terceiro dia andei 5 quilômetros entre a Santa Cecília e o mercado da Lapa. Caminhar pelo parque da Água Branca e ver que o pavão, as galinhas e os galos carijós continuam lá faz sossegar meu espírito.

Pavão no Parque da Água Branca

Minha antiga rua na Pompeia não mudou nada, continua inclusive com seus paralelepípedos intactos. A vila Romana, as cercanias do mercado… Fora o uso de máscara, tudo parece reconfortantemente igual. O comércio popular da região não parece ter sido tão devastado quanto o do centro. Ufa, nem tudo está perdido. Há esperança em SP.

Rua do bairro da Pompeia

É visível para mim que, para além da pandemia, a cidade vive um problema sério, uma crise humanitária. Os números mostram que há um déficit habitacional de 1 milhão de moradias na região metropolitana de São Paulo, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas; ao mesmo tempo, a cidade possui quase 1400 imóveis vazios, abandonados ou subutilizados. O governo do PSDB, em vez de tentar solucionar esta equação, aprovou em outubro um projeto que extingue a CDHU, a Companhia pública de habitação.

Se os paulistanos permitem o palpite de uma flâneur de outro Estado, me parece que tudo que a cidade mais precisa neste momento é de um especialista em moradia.

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Socialista Morena

Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes

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