Indicação de mulher trans confirma gabinete de Biden como o mais diverso da História dos EUA

Indicada para a subsecretaria de Saúde, Rachel Levine será a primeira transgênero a ocupar um cargo no segundo escalão

CYNARA MENEZES

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, anunciou nesta terça-feira a indicação da médica pediatra Rachel Levine, atual secretária de Saúde da Pensilvânia, para o cargo de subsecretária da Saúde em seu governo –correspondente no Brasil ao posto de secretário-executivo, abaixo apenas do cargo de ministro. Rachel será, após sua confirmação pelo Senado, a primeira mulher trans a ocupar um cargo no segundo escalão do governo norte-americano.

“A dra. Rachel Levine trará a liderança firme e a expertise que necessitamos para ajudar as pessoas a superar esta pandemia –não importam seu código postal, raça, religião, orientação sexual, identidade de gênero ou discapacidades– e a atender as necessidades de saúde pública de nosso país neste momento crítico e além dele”, disse Biden em um comunicado. “Ela é uma escolha histórica e altamente qualificada para ajudar a liderar os esforços de saúde de nossa administração.”

“A dra. Levine trará a liderança firme e a expertise que necessitamos para ajudar as pessoas a superar esta pandemia. Ela é uma escolha histórica e altamente qualificada para ajudar a liderar os esforços de saúde de nossa administração”, disse Biden

Com a escolha de Levine, Biden confirma sua intenção de montar o gabinete mais diverso da História dos EUA, enquanto o recorde de Donald Trump era o exato oposto: o gabinete mais branco e masculino desde Ronald Reagan.

O novo presidente já tem Kamala Harris, a primeira vice mulher (e negra); a primeira mulher negra também na secretaria do Tesouro (Janet Yellen); a primeira indígena como secretária de governo (Deb Haaland, secretária do Interior); o primeiro latino a ocupar a pasta de secretário de Imigração, Alejandro Majorcas (nascido em Cuba); o primeiro afro-americano a ocupar a secretaria de Defesa, Lloyd Austin; e agora a primeira mulher trans.

De acordo com levantamento feito pela pesquisadora Kathryn Dunn Tenpas, Biden ganha de Trump em todos os comparativos por gênero, raça e idade, embora perca para Barack Obama e Bill Clinton em alguns deles. Terá o gabinete mais jovem que o de Trump, mas não que o de Obama. Em compensação, o governo Biden contará com mais mulheres do que Obama e todos os presidentes do país desde Reagan. Em termos de raça, supera Obama em relação aos afro-americanos e aos nativos americanos, mas perde de Clinton em relação aos negros.

Aos 64 anos, Rachel Levine, formada em Harvard e em Tulane, é professora de Psiquiatria e Pediatria na Universidade Estadual da Pensilvânia. Ao comandar o combate à Covid-19 no Estado, a médica sofreu vários ataques transfóbicos, que ela frequentemente se recusava a comentar, com a explicação de que preferia manter o foco no vírus.

Um bar do condado de Tioga se desculpou após colocar no cardápio um prato chamado “as almôndegas de Levine” (“Levine balls”); um apresentador de rádio só se referia à secretária como “sir”; e a feira anual de Bloomsburg colocou um homem barbudo usando vestido florido e peruca como “atração” do parque de diversões. Os organizadores alegaram, absurdamente, que não estavam fazendo referência à identidade de gênero da secretária.

Homem vestido de mulher na feira de Bloomsburg. Foto: reprodução

Após estes incidentes, ela finalmente decidiu fazer um pronunciamento contra a transfobia. “No que tange à minha pessoa, não há lugar em meu coração para o ódio e francamente não tenho tempo para intolerância”, afirmou. “Meu coração está cheio de um desejo ardente de proteger a saúde pública de todos na Pensilvânia do impacto da pandemia global de Covid-19, e continuarei focada neste objetivo.”

“Oportunidade econômica é saúde. Aumentar o salário mínimo é, na verdade, saúde. Aprimorar as oportunidades educacionais, a nutrição, o meio ambiente, o transporte para as pessoas, é saúde. Livrar-se do racismo é saúde”, defende Levine

A subsecretária também já deu declarações fortes sobre sua visão integral da saúde pública, que pode causar impacto no futuro de um país rico onde até hoje os pobres não têm acesso a atendimento médico. “Oportunidade econômica é saúde. Aumentar o salário mínimo é, na verdade, saúde. Aprimorar as oportunidades educacionais, melhorar a nutrição, o meio ambiente, o transporte para as pessoas é saúde. Livrar-se do racismo é saúde”, defende Levine.

Em abril do ano passado, em entrevista a uma TV local, Levine citou atribuiu o ódio ao medo, com palavras que podem muito bem ser repetidas em sua posse como a primeira subsecretária de Saúde transexual dos EUA. “O medo é o caminho para o lado escuro. O medo leva à raiva. A raiva leva ao ódio e o ódio leva ao sofrimento. Acho que as pessoas temem quando não podem entender… Espero que, ao ocupar este cargo, isto possa educar as pessoas e elas possam sentir menos medo e menos ódio.”

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