Lucas defende conversar com Karol Conká para seguir “lutando juntos”

Em vez de ódio pelos que o atacaram, isolaram e humilharam, o menino disse que quer conversar, conversar e conversar com eles

LAURA CAPRIGLIONE

O menino estava feliz de novo. Estava eufórico, na verdade. O Lucas Koka Penteado que encontramos nesta segunda-feira, 8 de fevereiro, no prédio do Bixiga, em São Paulo, já não era o cara brutalizado pelo show de sadismo que se chama Big Brother Brasil. Era o revolucionário risonho que desempenhou um papel fundamental na luta contra o fechamento de escolas públicas que o governo tucano quis promover em 2015.

“Pra nós, a Revolução sempre foi festa”, disse, ao encontrar a deputada Erica Malunguinho (PSOL), Pai Tuca e as lideranças do movimento de moradia Carmen Silva e Preta Ferreira, que lhe foram levar afeto, solidariedade e um ramalhete de rosas e cravos brancos.

Essa tal revolução festeira de que Lucas fala está longe de ser retórica. É assim que os movimentos sociais chamam as ações diretas. “Festa” é o encontro que surge entre pobres sem-teto que participam da ocupação de um prédio abandonado. Ou a ocupação de escolas por estudantes secundaristas. Revolução-festa é a luta para garantir os direitos negados ao povo pobre e negro.

Carmen Silva conhece Lucas desde pequenininho, na Escola de Samba Vai-Vai, que fica a poucos quarteirões das casas dele e dela. A Vai-Vai negra é o tum-tum cardíaco do bairro do Bixiga, um antigo quilombo, que inclui também a Ocupação 9 de Julho, liderada pelo Movimento Sem-Teto do Centro, de que Carmen é a cabeça. Foi nesse território de reconhecimentos que aconteceu o encontro entre eles. Quando Lucas estava nos “corres” com outros secundaristas (aqueles que o Nego Di chamou de “vagabundos”), Carmen aconselhava, cuidava, alimentava e abrigava. O menino fez questão de dizer a ela da sua gratidão.

O abraço emocionado se impôs, apesar da pandemia, sob os olhares atentos dos pais de Lucas, a professora Andrea e o açougueiro Janderson Penteado.

A deputada Erica Malunguinho tomou a iniciativa de comprar flores brancas para presentear Lucas. Um presente de paz e pureza. “Tropeços fazem parte da vida”, disse ela com doçura. “Saiba que tem muita gente do seu lado. Somos todos Zumbis”. Lucas completou: “Sim, somos Dandaras, Terezas de Benguela, Carmens, Pretas, Ericas!”

A experiência atroz do confinamento e da perda de liberdade constituiu-se no ponto central do diálogo entre a atriz, compositora e cantora Preta Ferreira e Lucas. Preta presenteou o menino com o livro Minha Carne (Editora Boitempo), que ela escreveu, sobre período de 102 dias que ficou presa injustamente, em 2019. Impossível não relacionar os abusos cometidos no confinamento do BBB com aqueles da prisão injusta: são os mesmos corpos negros que são sempre segregados, violentados, contidos, ameaçados.

Os agentes da opressão sobre Lucas foram pessoas negras, sob o olhar atento do Big Brother (a própria Globo), que vendia sanduíches do McDonald’s e roupas da C&A enquanto comemorava os altos índices de audiência que o linchamento do menino propiciava…

Terrível é que os agentes da opressão sobre Lucas, neste caso, foram pessoas negras, sob o olhar atento do Big Brother (a própria Globo), que vendia sanduíches do McDonald’s e roupas da C&A enquanto comemorava os altos índices de audiência que o linchamento do menino propiciava… E então, aconteceu a fala mais bela, vinda exatamente do cara que foi tratado como um animal pelos participantes do show de horrores chamado BBB.

Em vez de ódio pelos que o atacaram, isolaram e humilharam, como Karol Conká, Lumena, Projota e Nego Di, o menino para o qual a Revolução é Festa disse que quer conversar, conversar e conversar com eles. Porque é fácil demais ficar com ódio e ele não quer essa facilidade. Prefere conversar, se entender. Desde já, ele abre a conversa assim: “Eu admito que errei. O fato de a Karol Conká ter-se sentido invadida pela minha presença é a maior prova de meu erro. Podemos reparar tudo isso e, assim, seguir lutando juntos”.

Parece um bom começo!

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