Luciano Huck é o novo Silvio Santos –e dessa vez com as bênçãos da Globo

"Arrivista", "camelô": assim os Marinho reagiram à candidatura de um apresentador de TV à presidência em 1989. O que mudou?

CYNARA MENEZES

Em 1989, a 15 dias da primeira eleição à presidência após a ditadura militar, um apresentador de televisão decidiu aproveitar a popularidade para se catapultar candidato ao cargo mais importante do país. Ah, cruel vaticínio de Marx: a História se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. A sensação de que vivemos num eterno Dia da Marmota parece não ter fim.

O Silvio Santos da hora é Luciano Huck, apresentador que se projetou nos anos 1990 graças à Tiazinha, personagem vestida de dominatrix que depilava rapazes no palco nas tardes da Band. Repaginado na Globo, virou apresentador de programas “familiares” e, junto com sua mulher, a angelical Angélica, se tornou o protótipo do bom-mocismo no país. Em 2011, o casal chegou a aparecer numa capa da revista Veja sendo chamados exatamente assim.

De volta em 1989: naquele ano, a iniciativa de um apresentador se lançar na política não foi vista com bons olhos pelo todo-poderoso das organizações Globo, Roberto Marinho –aliás, ex-patrão do patrão do SBT. Em editorial do jornal O Globo, os Marinho, engajadíssimos na campanha de Fernando Collor a ponto de manipular um debate em desfavor de Lula, foram virulentos: “a pretensão eleitoral deste arrivista é uma afronta à consciência cívica da nação e deve ser imediatamente detida pelo Tribunal Eleitoral”. O que, de fato, acabou acontecendo.

Quem conta essa história é o ex-senador Marcondes Gadelha, um dos artífices da candidatura de Silvio Santos, no livro que escreveu sobre o imbróglio: Sonho Sequestrado (editora Matrix). “Se a luta era renhida no campo jurídico e político, na arena da comunicação era uma carnificina. Dr. Roberto Marinho situava a questão em termos pessoais”, narra Gadelha. “Parecia tratar-se de um problema de hierarquia social. Seria inadmissível para ele que um ‘camelô’, como se referia a Silvio, que ascendeu à vida artística pelas suas mãos, que fora cria de sua casa e engrossara o pescoço entre seus estúdios e corredores, chegasse à presidência da República e pudesse olhá-lo de cima para baixo ou tomar iniciativas sem consultá-lo.”

A imprensa como um todo, lembra o ex-senador no livro, era arrastada pela Globo em sua aversão à candidatura do apresentador, à exceção do Correio Braziliense. Marcos Sá Corrêa, editor do Jornal do Brasil, diria na bucha, em uma reunião com os apoiadores de Silvio: “Pois eu assumo. Tenho preconceito com apresentador de TV na política. Fica melhor no palco. A presidência não é lugar de gracinhas”.

Coluna do ombudsman da Folha em 1989

A “carnificina” era tal que o primeiro ombudsman da Folha, Caio Túlio Costa, apontou, em sua crítica de 5 de novembro: “Nenhuma candidatura à presidência foi tão bombardeada pela imprensa brasileira quanto a de Silvio Santos”. Caio Túlio também cogita a hipótese do preconceito com o “animador de auditório” como uma das razões para o rechaço midiático, escondido sob a desculpa de que Silvio estaria descumprindo as regras do jogo ao se lançar de última hora, embora a legislação de então permitisse –sua candidatura acabaria impugnada no TSE por falhas no registro do PMB (Partido Municipalista Brasileiro), que o lançou.

O que cacifou Huck a ser presidente? As depilações da Tiazinha? O roubo de seu Rolex, que resultou num artigo “white people problems” na Folha em 2007? O quadro Lar Doce Lar do Caldeirão? Sua aparição em fotos com personagens problemáticos que depois apaga?

“Será que o lançamento extemporâneo da candidatura de alguém como o empresário Antonio Ermínio de Moraes –ou mesmo o decrépito Jânio Quadros– provocaria reações contrárias tão virulentas como as que estão acontecendo contra Silvio Santos? Tudo indica que não”, conclui o ombudsman. O Jornal da Tarde, Gadelha conta no livro, divulga o desafio que Roberto Marinho teria feito ao presidente José Sarney, onde o preconceito aparece explícito: “Você tem 24 horas para convocar uma cadeia de rádio e TV e provar que não tem nada a ver com a candidatura daquele camelô!”

O que mudou desde então? Por que a candidatura de Silvio Santos foi rechaçada pela Globo e a de Luciano Huck não? O que cacifou o apresentador a ser presidente da República? As depilações da Tiazinha? O roubo do seu Rolex no trânsito de São Paulo, que resultou num artigo ao estilo “white people problems” na Folha de S.Paulo em 2007? O quadro Lar Doce Lar do Caldeirão? As camisetas polêmicas de sua grife de roupas? Sua aparição em fotos com personagens problemáticos que depois apaga? A interdição de sua pousada em Fernando de Noronha em 2003 pelo Ibama por problemas ambientais? Ou seu apoio declarado a Bolsonaro em 2018?

Só mesmo os arrivistas da mídia para comparar Lula a um aventureiro fardado que já demonstrou com sobras a tragédia de sua eleição (para a qual o Estadão lavou as mãos); e a outro aventureiro sem nenhuma passagem pela política ou qualquer indicativo de que possui algum talento para a vida pública

Se Silvio Santos era um “arrivista” na política, Luciano Huck também é. Espanta ver o beneplácito da mídia comercial com o segundo, a ponto de o Estadão implorar, em editorial, que ele nos “salve” de uma disputa entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Ora, todo mundo sabe quem Lula é. Ele governou o país por oito anos, nos quais tivemos indicadores sociais e econômicos como nunca antes na História, para usar uma expressão consagrada pelo petista. Saiu do poder com uma popularidade de 87%.

Só mesmo os arrivistas da mídia, sem responsabilidade ou amor pelo país, para comparar Lula a um aventureiro fardado que já demonstrou com sobras a tragédia de sua eleição (para a qual o Estadão lavou as mãos, afirmando ser “uma escolha muito difícil” optar entre um professor e um energúmeno defensor da ditadura); e a outro aventureiro televisivo sem nenhuma passagem pela política ou qualquer outro indicativo de que possui algum talento para a vida pública. Loucura, loucura, loucura.

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