Merval e Miriam Leitão já defenderam uso do termo “genocida” contra Bolsonaro

Em editorial nesta terça, O Globo diz que é "um abuso" relatório da CPI acusar presidente de "genocídio". O que mudou?

Trégua? O jornal O Globo partiu em defesa do presidente Jair Bolsonaro em editorial publicado nesta terça-feira, 19 de outubro, intitulado: É um abuso acusar Bolsonaro de genocídio. Segundo o diário da família Marinho, mesmo reconhecendo a responsabilidade do governo federal nas “centenas de mortes” de indígenas, o termo não pode ser aplicado ao presidente no relatório da CPI da Covid-19.

Merval Pereira e Miriam Leitão também se moveram por “interesses políticos” ao chamarem Bolsonaro de “genocida”, como o jornal acusa Renan Calheiros de agir em seu relatório? Ou mudou algo nas organizações Globo em relação a Bolsonaro?

“No caso dos indígenas brasileiros, parece claro que a omissão criminosa do governo durante a pandemia foi responsável por centenas de mortes, resultantes da falta de vacinas, da insistência em tratamentos ineficazes, da resistência a combater as invasões e o desmatamento que introduziram o vírus em suas comunidades”, defende o jornal, para quem o relator da CPI, Renan Calheiros, utiliza o termo por “interesse político”.

“Todos esses crimes devem obviamente ser punidos com o maior rigor possível. Mas nenhum deles foi cometido especificamente contra os indígenas. Nem está comprovado que o governo teve a ‘intenção de destruir, no todo ou em parte’ qualquer grupo étnico específico. Não se trata, portanto, de genocídio. O abuso da palavra só contribui para esvaziar seu sentido.”

Curiosamente, há menos de um mês, um dos principais colunistas do jornal, Merval Pereira, praticamente um porta-voz da família Marinho, disse exatamente o contrário. “O que era um exagero de retórica política, chamá-lo de genocida, passou a ser uma acusação baseada em fatos e apoiada por uma comissão de juristas, pois os experimentos médicos feitos sob inspiração do governo estão comprovados, como no depoimento do diretor-presidente da Prevent Senior”, opinou Merval.

Em março deste ano, outra colunista simbiótica com as organizações Globo, Miriam Leitão, também havia defendido, com ênfase, o uso do termo contra Bolsonaro, no texto A palavra que habita em nós. “Genocídio. Por que a palavra ficou tão presente na vida brasileira? Porque ela é usada quando um povo está morrendo. Nós estamos morrendo. Todas as outras palavras parecem pálidas”, escreveu Miriam.

“Prisioneiros de uma armadilha institucional e trágica, os brasileiros morrem diariamente aos milhares. Os remédios usados no tratamento extremo, a intubação, estão acabando, e o país está numa macabra contagem regressiva de quantos dias durarão os estoques. O que acontecerá se os medicamentos acabarem antes de serem repostos? Seremos intubados sem sedativos ou sufocaremos? Nós não estamos apenas morrendo. Caminhamos para morrer em maior número e de maneira mais cruel. Que nome deve ser usado? Genocídio.”

“A palavra habita nossas mentes porque estamos vendo os fatos. Objetivamente, é a única que temos para descrever os eventos deste tempo. Quem se ofende com ela, se fosse pessoa com sentimentos humanos, teria reagido para evitar a tragédia”, escreveu Miriam Leitão

Continuou Miriam: “A palavra habita nossas mentes porque estamos vendo os fatos, temos consciência do destino. Objetivamente, é a única que temos para descrever os eventos deste tempo. Quem se ofende com ela, se fosse pessoa com sentimentos humanos, teria reagido para evitar a tragédia. (…) O presidente adotou conscientemente o caminho de nos levar para esta exposição máxima ao vírus porque desta forma se chegaria, na cabeça dele, ao fim da pandemia. O caminho está errado sob todos os pontos de vista: médico, científico, humano. Ele está nos levando para a morte. Qual é a palavra exata? Genocídio”.

Merval Pereira e Miriam Leitão também se moveram por interesses políticos ao chamarem Bolsonaro de “genocida”, como o jornal acusa Renan de fazer? Ou mudou algo nas organizações Globo em relação a Bolsonaro?

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