Nobel de Literatura bielorrussa apela a intelectuais russos: “Por que estão calados?”

A escritora Svetlana Alexievich. Foto: Elke Wetzig/Wikimedia Commons

Na última quarta-feira, a escritora bielorrussa Svetlana Alexievich, prêmio Nobel de Literatura em 2015, denunciou que desconhecidos tentaram entrar em seu apartamento em Minsk, capital da Bielorrússia (ou Belarus). Svetlana é a única dos integrantes do Conselho de Coordenação, coalizão de oposição ao governo ditatorial de Alexander Lukashenko, que continua em liberdade após o sequestro do advogado Maxim Znak, detido no mesmo dia por homens encapuzados.

Aliado do líder russo Vladimir Putin, Lukashenko se recusa a deixar o poder, que ocupa desde 1994. No início de agosto, ele foi reconduzido ao cargo pela sexta vez em uma eleição sob suspeita de fraude e que não foi reconhecida pela União Europeia. Os protestos nas ruas de Minsk foram reprimidos e vários membros da oposição fugiram do país para não serem presos: a líder da oposição, Svetlana Tikhanovskaya, está na Lituânia.

A escritora Svetlana Alexievich divulgou uma carta aberta onde apela aos intelectuais russos que intercedam pelos habitantes da Bielorrússia, que integrou a União Soviética. “Por que vocês estão calados? Nós ainda somos seus irmãos”, escreveu.

“Primeiro, eles sequestraram nosso país. Agora, estão sequestrando os melhores entre nós. Mas, em nosso lugar, centenas de outros virão. Não foi o Conselho de Coordenação que se revoltou. O país se revoltou”

Leia abaixo a íntegra da carta.

“Nenhum dos amigos que compartilham das mesmas ideias comigo no Conselho de Coordenação ainda está por perto. Todo mundo está na prisão ou foi expulso do país. Hoje eles levaram o último, Maxim Znak.

Primeiro, eles sequestraram nosso país. Agora, estão sequestrando os melhores entre nós. Mas, em nosso lugar, centenas de outros virão. Não foi o Conselho de Coordenação que se revoltou. O país se revoltou. Quero repetir o que sempre digo: não estávamos preparando um golpe. Queríamos evitar uma divisão em nosso país. Queríamos que um diálogo começasse na sociedade. Lukashenko diz que não vai falar ‘com a rua’, mas as ruas estão cheias com centenas de milhares de pessoas que saem para protestar todos os domingos e todos os dias. Não é somente uma rua. É a nação.

“Lukashenko diz que não vai falar ‘com a rua’, mas as ruas estão cheias com centenas de milhares de pessoas que saem para protestar. Não é somente uma rua. É a nação. As pessoas vão às ruas com suas crianças pequenas porque acreditam que irão vencer”

As pessoas vão às ruas com suas crianças pequenas porque acreditam que irão vencer.

Eu também quero apelar para à intelligentsia russa, vamos chamá-la assim, ao velho estilo. Por que vocês estão calados? Nós ouvimos muito poucas vozes nos apoiando. Por que vocês permanecem em silêncio enquanto assistem este pequeno e orgulhoso país ser esmagado? Nós ainda somos seus irmãos.

Ao meu próprio povo, o que eu quero dizer é: eu amo vocês e estou muito orgulhosa de vocês.

Agora, há outro desconhecido tocando a campainha da minha porta…”

Original em russo aqui.

Este post foi modificado pela última vez em 10 set 2020 - 22:05 22:05

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