O armário de Kamala Harris e o peso das roupas das mulheres na política

Toda mulher que ocupa cargo de poder desperta um interesse maníaco pela roupa que veste

IARA VIDAL

Pela primeira vez uma mulher alcança o cargo de vice-presidenta da maior potência do Ocidente. Kamala Harris, filha de mãe indiana e pai jamaicano, é a primeira pessoa afro-descendente e sul-asiática a ocupar o posto. A nova número dois dos Estados Unidos, e toda mulher que ocupa um cargo de poder, desperta o interesse maníaco pela roupa que veste. Na esmagadora maioria das vezes, essas mulheres na política optam por emular o vestuário masculino e adotam terninhos.

Na data histórica, Kamala optou não por um terninho, e sim por um outfit monocromático roxo, acompanhado de um casaco no mesmo tom e usual colar de pérolas. As peças usadas durante o juramento de posse são de dois estilistas locais: o vestido, de Sergio Hudson e o casaco, de Christopher John Rogers, ambos representantes da comunidade afro-americana.

A cor roxa do outfit fez alusão a duas ideias importantes para o momento de polarização estadunidense. O roxo representa o bipartidarismo (a mistura do azul democrata com o vermelho republicano) e também os movimentos feministas contemporâneos ao simbolizar o status de primeira mulher a ocupar o posto.

Kamala faz questão de vestir cores com símbolos da luta das mulheres. Ao proferir o discurso de vitória ela vestiu um terno branco. A cor homenageou o movimento sufragista, que há um século rendeu às mulheres (majoritariamente brancas) o direito ao voto. A cor branca também foi escolha das sufragistas negras cuja luta prosseguiu até a passagem do Voting Rights Act em 1965, que proibia discriminação racial em eleições.

Em contraponto ao look de Kamala a ex-primeira-dama, Melania Trump, deu adeus à Casa Branca com um visual totalmente preto e sem vestir nenhum estilista estadunidense. Nos quatro anos da gestão do marido, ela causou polêmicas com as peças escolhidas. Como quando visitou um centro de detenção de crianças imigrantes vestida com uma jaqueta que dizia “I really don’t care. Do you?” (em português, “eu realmente não me importo. E você?).

Já a antecessora de Melania Trump, Michelle Obama, é tida como ícone fashion. Ao longo dos oito anos em que morou na Casa Branca, ditou tendências, lançou estilistas e posou como modelo.

Durante a posse que marcou o fim da era do extremista de direita Donald Trump, a ex-primeira-dama democrata roubou a cena com um conjunto monocromático bordô composto por pantalona, blusa de gola alta e sobretudo, arrematado com um cinto de fivela dourada, do mesmo estilista de Kamala, Sergio Hudson, com a mesma paleta de cores e a mesma mensagem simbólica. E, claro, máscara de proteção.

Hillary Clinton, a derrotada por Trump nas eleições de 2016, também aderiu à paleta de cores simbólica e representativa com um conjunto de calças e blusa de gola volumosa lilás e um sobretudo uva.

Bill e Hillary Clinton a caminho da posse. Foto: reprodução/twitter

Poucos dias antes da posse, Kamala Harris foi o centro de uma polêmica com a capa da edição de fevereiro da Vogue estadunidense. A revista de moda se tornou alvo de críticas pela escolha da foto de capa que trouxe a então futura número dois da superpotência em um traje casual. Houve, inclusive, acusações de que a cor da pele da vice de Biden tenha sido branqueada.

A equipe de Kamala foi surpreendida com a escolha da imagem. O registro da política vestida com um conjunto de terno preto, em estilo casual, e tênis All Star (Converse) teria destoado da expectativa dela para a publicação, que acreditava que a revista destacaria a outra opção de foto produzida pela equipe, com Kamala mais formal, em terno azul claro contra um fundo dourado.

A capa criticada…
…e a capa definitiva. Fotos: divulgação

Depois da avalanche de críticas, a publicação fashionista produziu uma nova capa com a segunda imagem . A polêmica deflagrada deixa à mostra a vigilância constante sobre o vestuário das mulheres em espaços de poder. Há vários episódios que demonstram essa faceta misógina da política. Como ocorreu com Dilma Roussef, a primeira presidenta do Brasil. Não se tem notícias de que um homem tenha sofrido tantas críticas relacionadas ao guarda-roupa –inclusive por parte de mulheres.

Quando virou a pré-candidata do PT para suceder Luiz Inácio Lula da Silva, a então ministra passou por uma profunda transformação de imagem. Trocou os óculos por lentes de contato; mudou a paleta de cores do armário para tons claros e sóbrios em lugar de cores potentes, exceto o vermelho; e deixou de lado os babados para adotar design mais contemporâneo. Na ocasião, ela contou com a assessoria de Alexandre Herchcovitch.

Análises do mundo da moda classificavam o visual de Dilma como de “tia ou professora, com babados e braços de fora”, seja lá o que isso significa. Os especialistas celebraram o resultado da consultoria do estilista brasileiro Herchcovitch, em especial por ter sido o responsável por introduzir no armário da então futura presidenta a jaquetinha colorida, que virou curinga nos palanques. A peça, descrita como “bem cortada, prática (sem risco de brechas descuidadas ou gordurinhas aparentes) e jovem (sem ser juvenil) virou curinga nos palanques.

Dilma como ministra em 2006. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Já como presidenta, com Cristina Kirchner em 2015. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Em geral, quando as mulheres chegam ao poder, acabam se vestindo e se penteando todas iguais e, na minha opinião, aderem à estética masculina para serem aceitas e respeitadas. Os terninhos adotados por Dilma Rousseff não são novidade entre as demais mulheres poderosas da América Latina, como Laura Chinchila, da Costa Rica, e Cristina Kirchner, da Argentina.

Mundo afora o fenômeno se repete, como Angela Merkel, quase eterna chanceler da Alemanha, adepta dos ternos femininos praticamente idênticos, que só mudavam de cor. Em 2012, a designer holandesa Noortje van Eekelen criou um “Pantone Merkel”, uma paleta de cores em sua homenagem –também conhecida como “Muitos Tons de Merkel” ou “Arco-Íris Merkel”.

O Pantone Merkel. Foto: reprodução

Não dá para deixar de lado a mãe do neoliberalismo ocidental, Margaret Thatcher (1925-2013), primeira-ministra da Inglaterra entre 1979 e 1990. O outfit dela exalava conservadorismo e servia de couraça no mundo dominado por homens. Havia poucas brechas para a feminilidade no uniforme da “Dama de Ferro”: terno e saia, corte abaixo do joelho, pescoço ajustado e lenço como complemento.

Os bens pessoais de Thatcher, política que se preocupava com a imagem de mulher poderosa, foram leiloados no Christie’s em 2012 arremataram 73 mil libras esterlinas (cerca de 530 mil reais). No catálogo da casa de leilões, Charles Powell, secretário-particular da mulher que esmagou os direitos trabalhistas na Inglaterra, comentou que a ex-primeira-ministra britânica “sabia que suas decisões de vestuário seriam minuciosamente analisadas e construiriam sua imagem”.

Thatcher e Ronald Reagan em 1986. Foto: Casa Branca

A moda tem o poder de criar narrativa e produzir signos e símbolos. Uma roupa pode ser só uma roupa. Ou carregar mensagens que traduzem pensamentos e ideias. Proporciona um jeito de se posicionar sem dizer nada.

Há quem considere o terno branco símbolo de empoderamento feminino. Daí a provocação: por que um terno e não um vestido? Já que com a moda nasceu a divisão de roupas por gênero e aos homens ficou a chatice das calças e a elegância careta e uniforme dos ternos, e a nós, mulheres, toda uma diversidade colorida e vibrante no guarda-roupas. Por que uma mulher poderosa vestir um terno é sinal de empoderamento?

Podermos vestir calças é fruto da luta pela emancipação feminina. Se por um lado usar um vestido, como o de Kamala na posse, se contrapõe à imagem do poder masculino, por outro usar terno mostra que podemos vestir o que quisermos

Fiz essa pergunta nas minhas redes e há vários olhares femininos sobre o tema. Durante muito tempo, as mulheres foram proibidas de usar calças. O fato de hoje nós podermos vestir a peça é fruto da luta pela emancipação feminina. Se por um lado um vestido se contrapõe à imagem do poder masculino, como o que Kamala Harris vestiu durante a posse no dia 20 de janeiro, por outro trajar um terno mostra que nós podemos vestir o que quisermos. Eu, pessoalmente, considero o uso do terno por mulheres em espaços de poder a vitória do patriarcado.

No século 21, na nova onda do feminismo, talvez uma das pautas que mais traduzam o espírito do tempo seja a dos direitos das mulheres trans. Há muito a avançar, mas a eleição de uma mulher como Benny Briolly (PSOL-RJ) para a Câmara de Vereadores de Niterói traz esperança. Ela foi a mais votada no município fluminense e transmitiu uma poderosa mensagem de liberdade e representatividade ao usar um vestido com estampa étnica no dia da posse.

A imagem empoderada de Benny é um sopro de ânimo num Estado onde, pouco mais de um ano atrás, outra mulher negra do PSOL fluminense, Dani Monteiro, foi alvo de um ataque misógino por parte do deputado bolsonarista Alexandre Knoploch (PSL). Na tarde do dia 11 de setembro de 2019, durante uma sessão na Alerj na tarde do dia 11 de setembro de 2019, Knoploch, de barba por fazer, terno mal cortado, cores sombrias e disfarçando a calvície com gel, subiu à tribuna para comparar as roupas de deputadas da Casa aos figurinos de novelas adolescentes como Chiquititas e Carrossel.

Parlamentares do PSOL acreditam que ele se referia especialmente a Dani, a bordo de uma saia quadriculada e meias amarelas. Atitude que mostra que os espaços de poder arquitetados pelo homens brancos não conseguem conviver com a diversidade, as cores e a pluralidade com que as mulheres se vestem. A parlamentar não deixou barato.

A moda tem uma potência simbólica que gera interpretações que variam de acordo com o repertório social e cultural de cada um. Na dimensão política da moda, a filha predileta do capitalismo, no meu ponto de vista, ela é um alicerce do patriarcado. Não à toa, mulheres podem usar calças e homens, salvo parcas exceções fashionistas e identitárias, podem usar saias. Durante uma entrevista ao Colbert Late Show, da TV estadunidense, o ator Billy Porter, destaque da série Pose, da Netflix, foi questionado sobre o motivo pelo qual usa vestidos e saias. Confira o trecho legendado da resposta do ator:

Independente das interpretações que o vestuário feminino em espaços de poder, a presença de mulheres na política representa um avanço para a democracia representativa. Que possamos, como muitas já têm feito, nos libertar da imposição patriarcal para sermos o que quisermos. De saia, calça, vestido, tênis ou salto. O que realmente importa é que o poder feminino possa equilibrar a visão masculina na escolha dos rumos do coletivo por meio da política.

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