O Dia do Trabalhador no século 21

Feliz ou infelizmente, o “chão de fábrica" já não é o front mais avançado do trabalho e da produção

DOMINGOS LEONELLI

Os valores ligados ao trabalho e as lutas e conquistas do trabalhadores são as principais referências dos socialistas de todas as matizes. As primeiras lutas pela redução da jornadas de trabalho nos Estados Unidos que culminaram com os acontecimentos de 1886 em Chicago foram dirigidas pelos anarquistas. Sociais-democratas, anarquistas, comunistas e socialistas, desde o Manifesto Comunista escrito pelos jovens Marx e Engels em 1848, em que os “operários de todo o mundo” são conclamados a unirem-se, têm no trabalho e nos trabalhadores o eixo central de suas lutas e suas visões ideológicas.

O primeiro dia de maio é feriado nacional em praticamente todo o mundo. A comemoração foi sendo conquistada em cada país desde as primeiras décadas do século 20. Iniciando-se pela França, União Soviética e Suécia. No Brasil foi transformado em feriado nacional ainda em 1924. Antes disso, porém, em 1906, realizou-se nesse dia o I Congresso Operário no Rio de Janeiro, dirigido por anarquistas e socialistas. E, em 1919, um grande comício na Praça Mauá. Depois, no entanto, o dia primeiro de maio seria disputado entre o movimento sindical de esquerda e a ditadura de Getúlio Vargas.

O trabalho e os trabalhadores estão diante de transformações sem precedentes, tanto em velocidade como em profundidade. O modo de produzir em todos os setores –nas indústrias, na agricultura, nos serviços, no comércio, na cultura– foram e estão sendo alterados pelos avanços tecnológicos

Mas, desde as últimas décadas do século 20 e, especialmente, nessas primeiras décadas do século 21, tanto o trabalho como os trabalhadores estão diante de transformações sem precedentes, tanto em velocidade como em profundidade. O modo de produzir em todos os setores –nas indústrias, na agricultura, nos serviços, no comércio, na cultura– foram e estão sendo alterados pelos avanços tecnológicos de tal forma que praticamente destruíram as fronteiras entre diversas atividades.

Os robôs estão substituindo os operários em inúmeras fases da produção. A inteligência artificial já substitui boa parte do trabalho intelectual. As tecnologias de informação e comunicação projetam um novo mundo para a produção artísticas em praticamente todas a linguagens. O capital encontra novas formas de acumulação e novas formas da exploração do trabalho. Surgem novas formas de trabalho e novos trabalhadores. Feliz ou infelizmente, o “chão de fábrica” já não é o front mais avançado do trabalho e da produção.

Claro que as fábricas continuarão a existir na nova economia do conhecimento, assim como a agricultura, o artesanato e o comércio continuaram a existir com o advento das fabricas movidas à eletricidade. Mas a indústria manufatureira que durante os dois ou três últimos séculos foi a protagonista da economia, está deixando de ser. E a classe operária industrial, vanguarda revolucionária do antigo capitalismo? Por que tipo de trabalhadores será substituída, enquanto vanguarda?

O capital encontra novas formas de acumulação e novas formas da exploração do trabalho. Surgem novas formas de trabalho e novos trabalhadores. Feliz ou infelizmente, o “chão de fábrica” já não é o front mais avançado do trabalho e da produção

Os trabalhadores manuais, intelectuais, os especialistas em informática, os técnicos em programação, os artistas das mais variadas linguagens, os pesquisadores científicos, os profissionais da saúde que na terrível pandemia do coronavírus mostraram-se tão essenciais, os criadores de softwares, os agricultores, os zootécnicos, os cientistas da natureza, os técnicos ambientais, os engenheiros sociais responsáveis pelas novas organizações, as lideranças comunitárias, enfim as pessoas que operam esse novo mundo do trabalho vão precisar de pontos criativos de unidade e luta.

Unidade, luta e criatividade contra as novas formas de organização do capital, tão ou mais vorazes que as formas mais antigas. Um capitalismo que ceifa impiedosamente empregos, sonhos e vidas. Que se acumula na lógica da destruição do patrimônio ambiental. E que criou um poderoso aparato ideológico e cultural para defender a sua perpetuação.

As forças do trabalho, e dos antigos e novos trabalhadores, precisarão unir-se sob a bandeira de uma revolução criativa para uma nova era.

Domingos Leonelli é presidente do Instituto Pensar e membro da Executiva Nacional do PSB

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Socialista Morena

Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes