sábado, 24 out 2020
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O discreto charme da Libelu

CYNARA MENEZES

No começo do documentário Libelu – Abaixo a Ditadura, que estreia nesta quarta no festival É Tudo Verdade, o jornalista Mino Carta apresenta dois integrantes da tendência estudantil trotskista que abalou as estruturas do mundo universitário entre 1976, quando surgiu, e 1985, quando desapareceu. “Nós vamos conversar a respeito de um grupo de jovens elegantes, iconoclastas, talvez um tanto mal humorados: os jovens da tendência Liberdade e Luta”, diz Mino, sobre os irmãos Ricardo e Josimar Melo.

Elegantes e iconoclastas, sim. Mas Mino acertaria mais se tivesse usado o termo “blasé” para se referir à dupla de jovens cabeludos do que “mal humorados”. Se há uma característica da Libelu é que, entre todas as tendências da luta estudantil em ação no final da ditadura militar, ela foi a que mais encarnou a ideia de que  “é proibido proibir”. Era possível ser Libelu e ser homossexual, fumar maconha e dançar rock, três atitudes para as quais parte da militância de esquerda ainda torcia o nariz naquela época como “desvios burgueses”.

De mal humorados os Libelus não tinham nada. Isso fica evidente no documentário de Diógenes Muniz, que traz falas hilárias dos integrantes da finada tendência, inclusive dos irmãos citados no início deste texto: o jornalista Ricardo e seu irmão, o crítico gastronômico Josimar. Hoje sessentões, eles são entrevistados, um a um, onde a tendência nasceu, na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP, à exceção de um deles, o ex-ministro Antonio Palocci, em prisão domiciliar.

Entre as tendências da luta estudantil, foi a que mais encarnou o “é proibido proibir”. Era possível ser Libelu e ser homossexual, fumar maconha e dançar rock, três atitudes para as quais parte da esquerda ainda torcia o nariz como “desvios burgueses”

“O tom deles acabou tomando conta do filme”, diz o diretor. “E isso tem tudo a ver com a Libelu, um grupo mais disposto a rir de si mesmo, sem deixar de ser radical. O próprio diminutivo ‘Libelu’ surgiu como apelido jocoso dado por grupos rivais, como conta a jornalista Laura Capriglione no documentário. Talvez a principal diferença da Libelu em relação às outras tendências estudantis tenha sido o choque de energia jovem e rebelde que ela jogou de volta pra organização clandestina que a animava ‘das sombras’.”

Um dos diferenciais dos Libelus para as outras tendências era o apuro visual dos cartazes que espalhavam pelo campus, sempre tentando fugir à estética que continua a seduzir setores do movimento estudantil. Em lugar de ícones guerrilheiros como Che Guevara e Fidel Castro ou da influência recorrente do realismo soviético, desenhos mais sofisticados, visualmente bonitos, e frases à primeira vista pouco politizadas: “Nem todos os gatos são pardos”, por exemplo.

Cartaz de campanha da Libelu
Convocatória de festa da tendência

A face “esquerda festiva” do grupo, famoso por organizar as baladas mais animadas do movimento estudantil, o lado “liberdade”, chega a ofuscar a parte da “luta” propriamente dita. A Libelu ganhou destaque por assumir nas ruas o slogan Abaixo a Ditadura antes de todo mundo, mas em que mais contribuiu? Para o diretor, a tendência foi importante também nas campanhas pela anistia, pela libertação de presos políticos, na defesa do ensino público e pelo voto nulo nas eleições de 1978.

“Seu berço, aliás, é a greve da ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP), puxada pelos trotskistas e que se espalhou por toda a Cidade Universitária. Essa greve vai desaguar no ressurgimento do DCE-Livre da USP, com atuação muito importante, por exemplo, do Júlio Turra
–chamado num relatório do SNI (Serviço Nacional de Informações) de ‘comunista tumultuador de aulas'”, conta Muniz.

As perseguições à Libelu pelo famigerado coronel Erasmo Dias, secretário de Segurança Pública do governador biônico Paulo Egídio Martins, soam agora tragicômicas. Com seu jeito tosco e gritalhão, Erasmo parece uma versão pioneira de Jair Bolsonaro.

Curiosamente, os Libelus que guinaram à direita, aí sim, destoam do bom humor geral. Palocci, com um cinismo ímpar, tem a cara-de-pau de se definir ideologicamente como “de esquerda”; o colunista Demétrio Magnoli tampouco mostra ter algum senso de humor. E Reinaldo Azevedo, que não chegou a pertencer à Libelu, mas gravitava em torno do grupo, faz uma constrangedora tentativa de parecer, diante das câmeras, um cara descolado, coisa que nunca foi.

Quem continuou de esquerda parece ter preservado melhor a jovialidade e a alegria de viver. Paulo Moreira Leite, ex-diretor de redação das revistas Veja e Época e atualmente no Brasil 247, provoca gargalhadas ao perguntar: “Por que vocês estão fazendo este documentário? Tem algum motivo ou é simples exploração de mercado? Vocês acham que vai ter gente, vão ganhar dinheiro?” Em uma reportagem maldosa da IstoÉ sobre a Libelu em julho de 1979, Moreira Leite aparece como o protótipo do integrante da tendência –os fartos cabelos lisos, agora grisalhos, continuam a lhe cair sobre o rosto até hoje.

Charge da IstoÉ sobre a Libelu em 1979

Assim como Paulo, os garotos da Libelu saíram da militância quase todos para o jornalismo, ocupando postos de destaque em veículos importantes, como a Folha de S.Paulo, que abrigou vários deles nos anos 1980. O diretor Diógenes Muniz conta que passou oito anos na Folha ouvindo dizer que “fulano tinha sido Libelu, quase como quem diz que o cara fez parte da guerrilha”. Pensou que essa parte da história, os anos anteriores e posteriores à anistia, nos estertores da ditadura militar, eram pouco explorados, e resolveu fazer o documentário.

Um dos primeiros textos que Muniz encontrou ao vasculhar a internet foi o post publicado pelo Socialista Morena em 2013 com entrevistas com ex-integrantes da tendência, como homenagem ao recém-falecido Luiz Gushiken, ministro da Secom durante o governo Lula e ex-Libelu. Aliás, além de Gushiken e Palocci, também Ricardo Melo e Eugênio Bucci integraram os governos petistas como diretores da EBC (Empresa Brasil de Comunicação). Pode-se afirmar sem chance de errar que a geração Libelu chegou ao poder durante os anos Lula e Dilma –à exceção dos que migraram para a direita.

“Palocci se tornou uma figura tóxica, é execrado pela direita e pela esquerda. Eu, na verdade, fiquei surpreso com a participação dele no documentário. Primeiro com o fato de ter topado falar”, diz o diretor Diógenes Muniz

Pergunto ao diretor em que estado de espírito encontrou os ex-Libelus depois da debacle. “Alguns estão mais animados que outros”, ele diz. “O Markus Sokol (membro da Executiva Nacional do PT), por exemplo, é um que pra mim parece não ter tempo de desanimar. Enfim, cada um seguiu sua vida de uma forma, mas sinto em todos um orgulho por terem participado das agitações políticas e culturais do fim dos anos 1970. Sabem que viveram a juventude numa voltagem muito alta, com ventos a favor”.

E Palocci? “Acho que ele se tornou uma figura tóxica, é execrado pela direita e pela esquerda. Eu, na verdade, fiquei surpreso com a participação do Palocci no documentário. Primeiro com o fato de ter topado falar. Depois com o balanço que ele faz da vida política, dizendo que se não tivesse agido como agiu, talvez hoje fosse ‘uma pessoa melhor’. Pra mim, esse é o tipo de franqueza que surge quando o seu ‘eu’ de 40 anos atrás, jovem e idealista, está por perto.”

Assim como aquele texto do Socialista Morena, o doc destaca o poema de Paulo Leminski, Para a Liberdade e Luta, em celebração à tendência: Me enterrem com os trotskistas/ na cova comum dos idealistas/ onde jazem aqueles/ que o poder não corrompeu/ me enterrem com meu coração/ na beira do rio/ onde o joelho ferido/ tocou a pedra da paixão.

A quem entre aqueles garotos idealistas o poder corrompeu? Assista para ter a resposta. O filme estreia nesta quarta no festival de documentários É Tudo Verdade, este ano exibido gratuitamente na plataforma Looke.

Socialista Morena
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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes