“Obedeça à ordem!”: o ciclista “abordado” na Cidade Ocidental e a lógica escravista da PM

A polícia só vai mudar quando os negros da PM se rebelarem contra seu destino de serem capitães-do-mato dos próprios irmãos

CYNARA MENEZES

Quase dois séculos separam as imagens que ilustram este post: a da esquerda foi feita na sexta-feira passada, 28 de maio de 2021 na Cidade Ocidental, município de Goiás, no entorno do Distrito Federal; já a da direita, A Escravidão no Brasil, foi pintada por Jean-Baptista Debret ao redor de 1834.

Filipe Ferreira, de 28 anos, não era suspeito de nada, não tem ficha policial, não foi “reconhecido” por alguma vítima branca de crime (como ocorre cotidianamente no Brasil), não cometeu, enfim, nenhuma ilegalidade para ser “abordado” com arma em punho e algemado por uma dupla de policiais. O “crime” dele foi fazer manobras de bicicleta em um parque –e ser negro.

Tudo nas cenas remonta à escravidão: os capatazes que chegam para “capturar” o negro; o “tronco” diante do qual Filipe é algemado; a sensação de propriedade que os policiais indicam ter sobre aquele corpo negro; a impossibilidade do negro de resistir ao comando ou…

– Por quê?, pergunta o ciclista ao ser parado.

– Porque eu estou mandando. Coloca a mão na cabeça!

– Por quê?, insiste Filipe.

– Isso é uma abordagem! Se você não obedecer vai ser preso.

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– Olha só como estão me tratando…

– Põe a mão na cabeça!

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– Como assim? O que eu estou fazendo, cara?

Em 2 minutos, a palavra “obedecer” aparece 5 vezes. Por que o negro precisa obedecer a uma ordem injusta? Se fosse um ciclista branco, bem vestido (como Filipe estava), obedeceria? Não, até porque o policial jamais diria o mesmo a um ciclista branco

– Eu estou te dando uma ordem.

– Pára de apontar essa arma para mim.

– Esse é o procedimento, coloca a porra da mão na cabeça!

– Cidadão, obedeça, diz o outro policial.

– Vou tirar a camisa para mostrar para vocês que não tenho arma, nada, só estou dando meu rolé de bike.

– Vira de costas! Pode algemar.

– Algemar???

– Resiste aí para ver o que vai acontecer contigo.

– Mas por quê?

– Porque você não obedeceu à ordem legal que te dei.

– Meu Deus do Céu… Eu sou trabalhador, não sou vagabundo.

– Por que você não obedece à ordem?, diz o policial “bonzinho”.

– Obedece à ordem, caralho!, repete o outro.

Em 2 minutos do vídeo, a palavra “obedecer” aparece cinco vezes. Por que o negro, sendo inocente, precisa obedecer a uma ordem policial? Se fosse um ciclista branco, bem vestido (como Filipe estava), obedeceria? Claro que não, primeiro porque o policial jamais diria a mesma coisa para um ciclista branco. Filipe foi levado à delegacia e fichado por “desacato à autoridade”, como se fosse sua obrigação baixar a cabeça e dizer “sim, senhor” diante de uma ordem injusta. Obedeça, caralho!

As cenas deploráveis da “abordagem” ao ciclista Filipe demonstram a lógica escravista presente em nossas polícias. Todos os dias vemos imagens de policiais agredindo (quando não matando) jovens negros inocentes, moradores das periferias. Como os capitães-do-mato da época da escravidão, acham-se no direito de invadir e devassar o corpo negro como se pertencessem a eles ou a seus senhores, com tapas, socos, safanões, chutes, tiros. Antes era o chicote.

A escravocracia que rege a polícia normaliza, aos olhos da sociedade, a invasão das favelas e das casas dos moradores, como aconteceu no Jacarezinho recentemente. O bairro não é dos negros; a casa não é dos negros. E, sendo assim, a polícia pode entrar ali para “capturar os negros fugitivos” quando quiser. Quando eram mão-de-obra escrava, era preciso capturá-los vivos. Agora fuzilam sem pestanejar.

A esquerda preconiza a desmilitarização da polícia como solução para pôr fim a estas práticas de 500 anos de História. Para mim, essa lógica escravista não acabará com a desmilitarização, se é que algum dia ela vai ocorrer. É preciso que passemos a ver o policial como um trabalhador da segurança pública e não como as elites querem: como a guarda pretoriana dos seus privilégios. Os policiais, civis e militares, precisam se reconhecer como trabalhadores e não como um instrumento de dominação.

Todos os dias vemos imagens de policiais agredindo (quando não matando) jovens negros inocentes. A escravocracia que rege a polícia normaliza a invasão das favelas e das casas dos moradores. A polícia pode entrar ali para “capturar os negros fugitivos” quando quiser

Falta consciência de classe e de raça na formação da polícia, daí o porquê de policiais, também eles negros, serem racistas. Muitos negros e pobres da periferia enxergam no concurso para a polícia uma oportunidade de ascensão social. No entanto, como acontece em muitas outras profissões, acabam seduzidos pela ideologia das classes superiores.

Enquanto os negros e pobres da PM não se rebelarem contra seu destino de serem capitães-do-mato dos próprios irmãos, a polícia não muda. Não adianta só desmilitarizar. Aliás, a polícia que assassinou 29 pessoas no Jacarezinho era civil.

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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes

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