Ódio de classe da mídia a Lula é maior que o desprezo que ela diz sentir por Bolsonaro

(Já o amor pelo país é zero)

CYNARA MENEZES

No início de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Edson Fachin anulou as condenações sofridas por Lula em Curitiba por considerar que o foro era incompetente para julgá-lo e que as ações deveriam ter corrido em Brasília. Lula e boa parte dos brasileiros festejaram a notícia: tanto é que o petista logo apareceu liderando pesquisas de intenção de voto para a presidência em 2022, pois a anulação o tornou elegível.

Mas o preconceito de classe tantas vezes escancarado contra o ex-presidente pela mídia comercial não tardaria em dar o ar de sua graça. Vários analistas se apressaram em avaliar, baseados em achismos sem nenhuma evidência científica, que uma possível candidatura de Lula beneficiaria Bolsonaro. Com as pesquisas expondo que, pelo contrário, o petista é o adversário mais forte do atual presidente em sua campanha à reeleição, o discurso mudou: a presença de Lula “esmaga” o centro, passaram a dizer em uníssono os “especialistas”.

Que ninguém duvide que, em 2022, essa gente se aproxime do energúmeno defensor da ditadura sentado na cadeira de presidente, transformado em candidato “de centro”. Se a mídia que apoiou o golpe de 1964 pode posar de “centro”, por que não Bolsonaro?

Como o “centro”, eufemismo para a direita liberal, é a ideologia que veículos como as organizações Globo, a Folha de S.Paulo e o Estadão dizem abraçar, eles se sentiram mortalmente feridos. Ora, aquele nordestino já comparado a um “encanador” por um colunista da Folha em 1994 em contraposição a “Jean-Paul Sartre” (o então candidato Fernando Henrique Cardoso), quer voltar ao poder e esmagar o candidato limpinho e cheiroso da elite e sua representante, a mídia? “Esmagaremos ele antes”, prometem-se os patrões do jornalismo.

Nesta segunda-feira, a Folha publicou em manchete uma pesquisa do Datafolha segundo a qual “a maioria” dos brasileiros rejeita a decisão de Fachin (51%) e também a candidatura de Lula (51% acham que não devem se candidatar de novo contra 47% que acham que sim). É possível confiar nestes números? Eles não parecem nada lógicos. Em primeiro lugar porque não é plausível que tantos brasileiros assim conheçam Fachin e muito menos que sejam especialistas em processo legal; em segundo lugar, porque os números contrariam as pesquisas onde Lula aparece como favorito e é inclusive o menos rejeitado de todos os candidatos. Como pode Lula ser o favorito da maioria em algumas pesquisas e em outra “a maioria” defender que ele não devia se candidatar? Estranho.

Não é a primeira nem a última vez que este site olha as pesquisas de opinião com desconfiança. Sempre defendemos que as pesquisas mais induzem do que acertam. Também causa espécie que as pesquisas de opinião sejam feitas por gente que se beneficia delas: no caso dos jornais, a própria mídia; há ainda pesquisas feitas por entidades empresariais e atualmente até especuladores da Bolsa de Valores patrocinam sondagens, o que deveria ser proibido por lei, já que as pesquisas influenciam nas oscilações do mercado financeiro. Em outros países, os institutos de pesquisa são independente ou ligados a universidades.

Os números do Datafolha não parecem nada lógicos. Não é plausível que tantos brasileiros assim conheçam Fachin e muito menos que sejam especialistas em processo legal. Como pode Lula ser o favorito da maioria em algumas pesquisas e em outra “a maioria” defender que ele não devia se candidatar?

A assessoria do ex-presidente já havia reclamado das matérias requentadas que a Folha vem soltando em suas páginas desde a decisão de Fachin, apenas com o propósito de atacá-lo. Neste domingo, sem nem mesmo se dignar a ouvir o “outro lado” como prega seu Manual de Redação: a defesa de Lula. “O jornal Folha de S. Paulo recicla suspeitas de 5 anos atrás contra o ex-presidente, em uma prática de levantamento de acusações difusas e fúteis típicas do Lawfare”, reclamou o ex-presidente em uma nota intitulada “O jornalismo de suspeição da Folha de S.Paulo contra Lula”.

Nesta segunda, a pesquisa do Datafolha foi repercutida com estardalhaço pelo Globo e outros meios de comunicação corporativos. Curiosamente, o instituto não fez pesquisa de intenção de voto incluindo Lula, ao contrário dos levantamentos do XP/Ipespe, do Poder Data, da Atlas e da Revista Fórum.

Ao dirigir sua metralhadora giratória para Lula em vez de focar num presidente responsável pelo morticínio da pandemia de Covid-19, a mídia comercial dá sinais de que seu preconceito de classe contra o petista é maior do que o desprezo que diz sentir contra Bolsonaro. Lula deixou o poder com 87% da aprovação –sinal de fomos todos bem felizes nos tempos dele–, mas a mídia hegemônica continua não só comparando-o ao show de incompetência e sandice que ocupa o Planalto, como faz de Lula seu alvo dileto.

Enquanto isso, os mais importantes veículos de comunicação de outros países continua a tratar Lula com a devida reverência e respeito: após Fachin anular as condenações, o ex-presidente foi entrevistado com o máximo de destaque pela jornalista Christiane Amanpour, estrela da CNN Internacional, e pelo jornal francês Le Monde.

O que exatamente os jornais brasileiros têm contra Lula, um dos melhores (se não o melhor) presidentes que o país já teve, a não ser o puro suco do preconceito de classe? Este classismo se estende às conquistas dos mais pobres nos governos petistas. Acaso não foi nas páginas destes jornais que vimos, durante os governos Lula e Dilma, artigos no mais legítimo estilo “classe média sofre”, com uma colunista reclamando das empregadas de carteira assinada e outro lamentando que os aeroportos tinham virado rodoviárias ou churrasco na laje? Tudo a ver com o ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, para quem doméstica indo à Disney com o dólar barato era um absurdo. Agora, com o dólar a 5 reais, a culpa é… do PT, lógico.

O que exatamente os jornais brasileiros têm contra Lula senão o puro suco do preconceito de classe? Não foi nas páginas deles que vimos uma colunista reclamando das empregadas de carteira assinada e outro lamentando que os aeroportos tinham virado rodoviárias?

Em 2016, a mídia corporativa patrocinou um golpe jurídico-parlamentar contra uma presidenta legitimamente eleita para arrancar o PT do poder, sem se preocupar com o dano que isso causaria à nossa jovem democracia. Amor pelo país? Zero. Mais de quatro anos se passaram e, mesmo com as evidências do enorme erro que cometeu, ela segue demonizando Lula, o PT e a esquerda. Que ninguém duvide que, em 2022, essa gente se aproxime do energúmeno defensor da ditadura sentado na cadeira de presidente, transformado em candidato “de centro”.

Se a mídia que apoiou o golpe de 1964 pode posar de “centro”, por que não Bolsonaro?

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Socialista Morena

Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes