domingo, 20 set 2020
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Pelas caspas de Paulo Guedes! O bolsonarismo é o pesadelo dos estetas

IARA VIDAL

Houve uma época em que havia constrangimento em ter caspa. Mas isso acabou. Durante o desabafo sobre a debandada no Ministério da Economia, Paulo Guedes mostrou que, além do pouco caso com a dignidade da classe trabalhadora, também não dá muita bola para higiene pessoal. O terno cinza-chumbo; a padronagem risca de giz; a gravata insípida –tudo nele parece remeter à necropolítica em voga no país. A cafonice e o desleixo se imprimem como marcas da era Bolsonaro.

A dermatite seborreica no couro cabeludo do Posto Ipiranga é uma inflamação que pode causar muita coceira, manchas vermelhas, irritação e feridas, mas tem tratamentos simples além de xampus especializados: vinagre de maçã, gel de babosa, suco de limão… Já para a sanha privatista “família vende tudo” do ultraliberal, o piti na tevê surtiu efeito em favor da venda das estatais na “bacia das almas”.

Jair Bolsonaro acabou cedendo à ameaça e publicou nas redes sociais, na manhã da quarta-feira, 12 de agosto, um post em defesa das privatizações. Em sua live do dia seguinte, voltou a falar em privatizar estatais para agradar o seborreico titular da Economia.

A caspa e o cabelo sujo do ministro de Guedes após o pedido de demissão dos secretários especiais de Desestatização e Privatização, Salim Mattar, e o de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel, obviamente não passaram despercebidos nas redes sociais.

Desde o primeiro dia de 2019 os democratas e também os estetas do Brasil vivem um pesadelo e padecem de vergonhas indescritíveis. Como se não bastasse serem toscos nas ideias, os bolsonaristas também são um insulto ao bom gosto. Logo no início do governo, em fevereiro de 2019, de chinelos, camiseta falsificada, calça de moletom e um blazer mal cortado, Bolsonaro posou para foto depois de discutir a reforma da Previdência no Palácio da Alvorada. O #OutfitReaça ideal para destruir a Previdência de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros. Histórico.

Ao longo da pior crise sanitária da nossa geração, o presidente da República insiste em não usar o item do vestuário mais importante e simbólico desses tempos de pandemia e distanciamento social: a máscara facial. Nem mesmo quando esteve infectado o atual ocupante do Palácio do Planalto usou a proteção. A familícia é um desfile de #OutfitReaça com tiro, porrada e bomba no trajar, no pensar e no vestir. Com algumas fraquejadas no caminho.

Eduardo Bolsonaro, o Dudu Bananinha, que já usou uma camiseta em homenagem ao torturador Brilhante Ustra, parece ter sido criado para celebrar a morte, a tortura, a violência e as armas, que cultua até mesmo na decoração de seu apartamento.

O apê de Bananinha. Foto: reprodução

Claro que no “chá revelação” do bebê que Eduardo e a mulher esperam não poderia faltar… um fuzil. Freud explica.

O caçula, Carlos Bolsonaro, tem registros nos quais veste uma camiseta com o líder negro Martin Luther King e a frase “Keep The Dream Alive” (“Mantenha o Sonho Vivo”). O #OutfitReaça é tão contraditório e confuso quanto Carluxo: enaltece a figura do pastor norte-americano que lutou pela igualdade racial nos EUA e cuja ficha no FBI o classificava como “marxista” e “adúltero”.

Carluxo com camiseta do “comunista” Luther King. Foto: reprodução

A primeira-dama também gosta de passar recadinhos com roupas. Em dezembro de 2018, antes da posse, Michelle Bolsonaro desembarcou no Iate Clube Itacuruçá, litoral sul do Rio de Janeiro, com uma camiseta bem desaforada. “Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema”, uma bronca proferida pela juíza Gabriela Hardt em Lula ao ouvi-lo no processo de Atibaia –a mesma juíza que, tempos depois, teria uma sentença anulada por fazer “copia e cola” do texto do Ministério Público, mesma coisa que fez ao condenar o ex-presidente plagiando o texto de Sergio Moro sobre o apartamento do Guarujá

O ex-ministro da (des)Educação e pateta oficial do regime, Abraham Weintraub, usou uma gravata estampada de girafas para debochar das queimadas na Amazônia em setembro do ano passado. Quase um ano depois, o candidato a presidente dos EUA pelo partido Democrata, Joe Biden, anunciou como candidata a vice a senadora Kamala Harris, que já criticou publicamente o presidente brasileiro pelo fogo criminoso na floresta.

Um burro com gravata de girafa. Foto: reprodução

No Rio de Janeiro, durante uma sessão na Alerj na tarde do dia 11 de setembro de 2019, o deputado bolsonarista Alexandre Knoploch (PSL) subiu à tribuna do Palácio Tiradentes para defender a causa da misogina. De barba por fazer, terno mal cortado, cores sombrias e disfarçando a calvície com gel, subiu à tribuna para comparar as roupas de deputadas da Casa aos figurinos de novelas adolescentes como Chiquititas e Carrossel. Parlamentares do PSOL acreditam que ele se referia especialmente à Dani Monteiro (PSOL), que vestia saia quadriculada e meias amarelas no plenário. Atitude que mostra que os espaços de poder arquitetados pelo homens brancos não conseguem  conviver com a diversidade, as cores e a pluralidade com que as mulheres se vestem. A parlamentar não deixou barato.

O também bolsonarista Bibo Nunes, deputado federal pelo PSL gaúcho, é conhecido muito mais por seu histrionismo do que propriamente por seus projetos. Ele subiu à tribuna da Câmara dos Deputados na tarde daquele mesmo 11 de setembro “fantasiado” de bandeira brasileira. Ele mandou confeccionar, especialmente para a ocasião, um paletó multicolorido com as cores da bandeira. O objetivo do parlamentar, além de envergonhar a República, era celebrar o projeto de lei de autoria dele que autoriza o uso do símbolo nacional em “vestimenta e acessórios visíveis ao público”.

Deu bandeira. Foto: Lula Marques

A moda bolsonarista se apropriou dos símbolos e cores nacionais de tal forma que vestir uma camiseta amarela e, pior, não usar a máscara corretamente, sinaliza muito mais do que a seleção de futebol ou negacionismo. Ao avistar alguém com esse #OutfitReaça há grandes chances de ser um cloroquiner, defensor do ozônio no reto, caçador de comunistas e que acredita em kit gay e mamadeira de piroca.

Pelas caspas de Paulo Guedes, quem poderá nos socorrer?

Socialista Morena
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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes