Por uma esquerda com coragem de assumir suas bandeiras

Assisto com espanto setores da esquerda defenderem que sigamos covardemente negando que somos a favor da legalização do aborto e da maconha

CYNARA MENEZES

Se há um sentimento que une uma parcela significativa da população brasileiro hoje é o desejo de arrancar o medíocre, antipatriota, nefasto Jair Bolsonaro do Palácio do Planalto. Acredito que, em 2022, isto irá acontecer, não importa quem esteja à frente deste movimento. Mas esta união contra o fascismo não pode significar, mais uma vez, que a esquerda precise abrir mão de suas bandeiras.

Qual esquerda queremos ser no futuro? Uma esquerda covarde, que não assume suas bandeiras mais difíceis? Ou uma esquerda capaz de enxergar além e perceber que, sem estas bandeiras, perdemos nossa identidade e nos diluímos na geleia geral do conformismo?

No final de 2020, a Argentina legalizou o aborto, seguindo o exemplo civilizatório do vizinho Uruguai, que também legalizou a maconha, realidade para a qual a Argentina deu os primeiros passos ao legalizar o uso e plantio para fins medicinais em novembro. Estes avanços não aconteceram da noite para o dia. São o resultado do investimento no amadurecimento da sociedade empreendido ao longo de décadas pelos partidos de esquerda e pelos movimentos sociais argentinos e uruguaios.

No Brasil, o PT só chegou ao poder em 2002 ao abdicar das teses de esquerda mais “espinhosas”, sobretudo a defesa da legalização do aborto como questão de saúde pública. Pressionado pelos fundamentalistas religiosos que atualmente se encontram no poder com Bolsonaro, em 2010 o PT chegou a forçar Dilma Rousseff a recuar de suas posições firmes em defesa da legalização do aborto. Em 2007, a então ministra do governo Lula dizia com todas as letras ser a favor da descriminalização da interrupção da gravidez.

Em 2010, já candidata, Dilma recuou e se disse “pessoalmente contra” o aborto em encontros com pastores e lideranças religiosas. E em que esta violência contra seus princípios resultou, no longo prazo? Em 2015, Dilma foi impichada com o apoio dos mesmos fundamentalistas religiosos a quem adulou para ganhar a eleição –sendo que, pouco antes disso, o presidente da Câmara que articulou o golpe, Eduardo Cunha, havia feito a presidenta anular uma portaria desburocratizando o aborto legal no SUS. Foi também com o apoio desta turma que Lula foi preso. De que valeu, repito, ceder ao conservadorismo?

Neste momento, eu assisto com espanto setores da esquerda defenderem a manutenção dessa estratégia: que sigamos covardemente negando que somos a favor da legalização do aborto (e da maconha) porque “a sociedade brasileira é conservadora”. Ora, e o papel pedagógico que temos a cumprir na sociedade? Nós não temos a convicção de que a proibição do aborto e da maconha pune apenas os pobres? Por que, em nome de “derrotar Bolsonaro”, vamos abdicar da defesa de teses que contrariam justamente o seu discurso?

A estratégia de aderir a teses conservadoras pode funcionar, mas não será duradoura porque repete o equívoco de ter que negociar com o fundamentalismo religioso para se manter no poder. Um pessoal tão confiável quanto o próprio Judas, até no interesse pelos 30 dinheiros

Vejam bem: não descarto a possibilidade de esta “esquerda conservadora”, como chamo, estar certa e ser esta a estratégia pragmática para o campo progressista voltar ao poder (“progressista conservador”, chega a dar um bug na cabeça da gente). Eu duvido. Vejo nas novas gerações a possibilidade de uma adesão crescente às teses da legalização do aborto e da maconha. Mas, ainda que eu esteja errada, esta vitória não será duradoura, porque repete o equívoco do passado de ter que negociar com o fundamentalismo religioso para se manter no poder. Um pessoal tão confiável quanto o próprio Judas, até no seu interesse pelos 30 dinheiros.

Nos EUA, onde a maconha segue sendo legalizada nos Estados, inclusive para uso recreativo, a promessa de Donald Trump de intervir para reverter a decisão Roe vs Wade, de 1973, que possibilitou a legalização do aborto no país, não vingou. E Joe Biden foi eleito prometendo que não irá fazer qualquer movimento neste sentido. A vitória de Biden deixa claro que a tendência no mundo é usar as teses liberais contra o fascismo e não aderir a teses conservadoras para derrotá-lo.

A esquerda deve se preparar para contribuir para a derrota de Bolsonaro, ainda que seja sem exercer protagonismo no próximo governo. Não há problema quanto a isso. Mas, como ideologia política, o que temos de fazer é colocar nosso pensamento, desde já, no pós-bolsonarismo, em qual esquerda queremos ser no futuro. Uma esquerda covarde, que não assume suas bandeiras mais difíceis? Ou uma esquerda capaz de enxergar além e perceber que, sem estas bandeiras, perdemos nossa identidade e nos diluímos na geleia geral do conformismo?

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