Round 6: Uma Coréia do Sul e problemas globais

No último dia 20 inspirados em personagens da série “Squid Game”, cerca de meio milhão de trabalhadores sul-coreanos foram às ruas, em greve geral

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Por Beatriz Marques* e Caroline Matias**

A Coréia do Sul tem sido considerada a  “menina dos olhos” do sistema capitalista, o país que já chegou a ter apenas ? da renda per capita brasileira na segunda metade do século passado, hoje é um dos mais desenvolvidos do mundo, possuindo um grandes pólo industrial e tecnológico, bem como, uma indústria cultural gigantesca, que juntas têm construído a  visão de um país próspero, sem desigualdades. 

A origem dessa visão, vem do armistício de 1963, que pôs fim à Guerra da Coreia e culminou na separação do que antigamente era um único país em dois, um socialista (Coréia do Norte) e outro capitalista, a Coréia do Sul. Com a separação, o lado sul se inseriu dentro do sistema capitalista, dando início a uma política econômica desenvolvimentista, comanda pelo governo autoritário do general Park Chung-hee, que fortaleceu a industrialização do país, o aumento das exportações e a criação de poderosos conglomerados familiares, conhecidos como chaebols. Os chaebols são muito influentes na economia e política sul-coreana, como demonstra a soltura do herdeiro da Samsung, Lee Jae-yong, da prisão. Lee foi condenado por corrupção, mas teve sua liberdade condicional decretada, de acordo com o governo atual de Moon Jae-in, pelo bem dos “interesses nacionais”.

Enquanto a elite sul-coreana possui o controle econômico e político do país, parte da população sul coreana vive em situação de pobreza e dívidas. Apesar de industrializado e desenvolvido, a Coréia do Sul não está imune às desigualdades sócio-econômicas do mundo globalizado e do neoliberalismo e com o lançamento de séries como “Squid Game” (O Jogo da Lula), elas têm ficado mais evidentes.

Fonte: Crunch Stories

A indústria de entretenimento sul-coreana vem dominando o mundo, desde o fenômeno musical K-Pop, séries de grande alcance em plataformas de streaming, ao sucesso confirmado no maior evento que celebra o cinema, “Parasita” de Bong Joon-ho levou quatro estatuetas do Oscar em 2020: de melhor filme, melhor roteiro original, melhor diretor e melhor filme internacional. Em Round 6, o diretor Hwang Dong-hyuk relata ter demorado cerca de dez anos para aperfeiçoar o roteiro, fora a resistência das produtoras em aceitar a produção do projeto. 

Em entrevista ao The Korea Times, o diretor sul-coreano Hwang Dong-hyuk comenta que a ideia surgiu após ter ficado desempregado em 2008, assim passava seu tempo em café lendo animações japonesas, que serviram de inspiração para “Round 6”.  O ano de 2008 é conhecido pela crise financeira causada pelo setor imobiliário nos Estados Unidos, cujas consequências acabam respingando no mundo inteiro. Dong-hyuk explica que sua obra foi pensada para ser justamente uma alegoria sobre a sociedade capitalista moderna, onde a competição extrema se faz presente. A série já é a mais vista e a mais lucrativa criada pela plataforma e empresa Netflix, gerando uma receita de quase 891 milhões de dólares desde sua estreia em setembro de 2021 e os fãs estão animados para uma sequência.

Desigualdade extrema é motor da série Round 6

A trama se baseia em um jogo em que pessoas comuns aceitam participar por conta do valor em prêmio que será dado ao ganhador no final. O perfil das pessoas que aceitam participar são de pessoas com dívidas extremamente altas e que se encontram em uma situação de desespero e é esse o sentimento que permite a continuação no jogo e a “frieza” para resistir até final. Os jogos se baseiam em brincadeiras infantis famosas na Coreia do Sul, o fácil entendimento dos jogos é proposital, segundo o diretor, para que o telespectador foque na história dos personagens.  A trajetória de cada personagem é o que aguça a curiosidade do telespectador e torna a série viciante, todos os personagens possuem um motivo para terem aceitado a participação no jogo, as amizades construídas ao longo da trama dão um tom empático a obra, mas logo traições e a individualidade assegurada pela competição demonstram a violência da desigualdade no sistema capitalista. A série elucida com maestria a violência do capitalismo levando as pessoas aos seus limites físicos e emocionais, por conta disso, o uso da violência exacerbada é compreensível.

Embora a parte do jogo seja fictícia, a extrema desigualdade sócio-econômica presente na sociedade sul-coreana é o principal personagem. Classificada como um “tigre asiático”, o padrão de vida na Coreia do Sul aumentou por conta de seu rápido crescimento econômico, o país atualmente conta com uma taxa de pobreza em 16,7% colocando em quarta posição pelos 38 países que fazem parte da OCDE  e diferença salarial entre homens e mulheres em 32,5%. Ademais, grande parcela de sua população idosa vive abaixo da linha de pobreza, como é retratado pelas mãe do protagonista Seong Gi-Hu (interpretado por Lee Jung-jae), o personagem principal descobre que sua mãe  é diabética e precisa de cirurgia, todavia, a família não possui meios para arcar com as despesas médicas, e por conta disso acaba falecendo.  Já a parcela mais jovem deve lidar com a pressão no meio escolar e acadêmico e desemprego.  

Em Round 6, enquanto jogadores batalham para chegarem a final, existe uma elite que financia e consome esse “espetáculo”, logo, a série se desdobra explorando mais do que a perspectiva do explorado, ao mostrar a narrativa do explorador. Os “VIPs” como são chamados o grupo de elites mundiais muito ricas que passam a assistir o jogo presencialmente quando o jogo vai afunilando, eles até mesmo fazem apostas nos jogadores que acreditam ter mais chances. Qualquer semelhança com a forma em que está estruturada a sociedade econômica sul-coreana não é mera coincidência. Na Coreia do Sul, as famílias ricas e influentes são donas dos conglomerados de empresas chamado de chaebol e possuem apoio do governo, uma das empresas mais conhecidas pelo mundo ocidental, é a concorrente da Apple, Samsung, que já sofreu acusação de corrupção, todavia, o governo sul-coreano enfatizou a importância vital da empresa para a economia do país. As semelhanças com a vida real não param por aí, o endividamento é algo fielmente retratado na série, uma vez que, no primeiro trimestre de 2021, o endividamento das famílias na Coreia do Sul atingiu 104,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

A luta por direitos trabalhistas: greves e ocupações

Apesar de altamente industrializado e com uma das maiores cargas anuais de trabalho do mundo, o país sul coreano enfrenta problemas comuns, que geralmente são associados aos países empobrecidos do Sul Global, esses problemas são tanto de ordem trabalhista, quanto de ordem econômica. Entre os problemas relacionados ao trabalho destacam-se o alto índice de desemprego que tem atingido, inclusive, os mais jovens e pessoas qualificadas com diplomas universitários; além do alto número de mortes decorrente de acidentes de trabalho; o aumento do trabalho informal e a falta de apoio aos trabalhadores autônomos, que são grande parte da força laboral do país, o faz com que em tempos de crise, estes fiquem mais precarizados e vulnerabilizados.

Por sua vez, entre os problemas de ordem econômica destacam-se o aumento do preço dos imóveis, que nos últimos anos quase duplicaram, apenas de 2020 a 2021 o custo médio de um imóvel em Seul aumentou 22%. Bem como, o aumento do endividamento da população, os sul-coreanos, apenas em 2021, totalizam um débito, principalmente com cartões de créditos, que chega a mais de US$ 1,5 trilhão, o PIB do país é de US$ 1,63 trilhão).

Esses problemas, aliados às desigualdades sociais, refletem na força dos sindicatos no país. Apesar de pouco noticiadas na mídia brasileira, a Coréia do Sul é um país com forte representação sindical. A Confederação Coreana de Sindicatos (KCTU) sozinha possui cerca de 1.1 milhões de trabalhadores sindicalizados, o que reflete no fato de que a manifestação de trabalhadores envolvendo comícios e greves gerais, não seja uma novidade no país.

Em 2009, ano em que Hwang Dong-hyuk, escreveu o roteiro original da série, centenas de trabalhadores ao serem avisados de que seriam mandados embora, devido a falência da fábrica em que eles trabalhavam, a Ssangyong Motor Company, a ocuparam exigindo por direitos. Eles só a deixaram após serem duramente repreendidos pela polícia sul-coreana e com dezenas de companheiros feridos, conforme conta Lee Chang-keun (ex-funcionário da Ssangyong Motors) à ABC News, muitos dos companheiros de luta de Lee, se suicidaram após não conseguir se realocar no mercado de trabalho, outros se renderam ao trabalho informal.

No início de 2021, a LG acabou com uma greve, dos seus trabalhadores de limpeza, que já durava por 136 dias, jogando água gelada nas tendas em que os trabalhadores armaram para dormir. Em junho desse ano, a  Korean Health and Medical Workers Union, realizou protesto para reivindicar tanto a expansão do setor público de cuidados de saúde como melhores condições de trabalho, o que pode demonstrar como os problemas trabalhistas no país afetam tanto os trabalhadores ditos intelectuais e braçais. E no mês seguinte, contrariando as indicações e ordens sanitárias do governo de Seul, mais de 8.000 trabalhadores se mobilizaram na capital, também para reivindicar por melhores condições de trabalho e direitos como, por exemplo, auxílio em caso de acidente de trabalho e aumento salarial.

A Greve Geral do último dia 20, tinha como lema superar a desigualdade no mundo e  assim como a de julho sofreu repressão do governo sul-coreanos, que chegou até a abrir uma queixa contra o KCTU, classificando as manifestações trabalhistas como ilegais, com base no argumento sanitário de impedir a proliferação do vírus do coronavírus. No entanto, se apoiando no sucesso mundial da série “Squid Game”, os sindicalistas conseguiram mobilizar trabalhadores em 13 cidades diferentes do país, apenas em Seul cerca de 27.000 trabalhadores.

Assim, como nos casos relatados anteriormente, a greve buscou exigir direitos trabalhistas e as suas demandas podem ser resumidas em três áreas centrais, são elas: (1) acabar com o trabalho irregular no país, que já é cerca de 40% dos postos de trabalhos do país e a extensão dos direitos e proteções trabalhistas a todos os trabalhadores; (2) poder aos trabalhadores de influenciar e tomar decisões em tempos de crises; e, (3) a nacionalização das principais indústrias, bem como a socialização de serviços básicos, como educação e habitação.

De acordo com o KCTU, em janeiro de 2022, eles pretendem mobilizar nova greve geral, para o qual as mobilizações do último dia 20, foram chamariz para atrair e conseguir o apoio de mais trabalhadores à causa, o que faz com que o uso dos símbolos de Squid Game, que têm colocado em evidência para todo o mundo as desigualdades da sociedade sul coreana, sejam eficazes, uma vez que, tanto na série como na vida real, os personagens lutam para “ganhar a vida”.

* Graduanda em Relações Internacionais pela PUC-SP.

** Pós-Graduanda em História da África, Cultura e Relações Internacionais (UNIFAI) e mestranda em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais. Graduada em Relações Internacionais pela PUC-SP

Revisão: Reginaldo Nasser

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