Ataques em Gaza e Jerusalém revelam diferentes aspectos da violência colonial de Israel – Blog Terra em Transe

Enquanto o bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, luta contra o despejo de famílias palestinas, Gaza é bombardeada pelo exército de Israel. O que está por trás das violências nessas diferentes regiões palestinas?

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Por Isabela Agostinelli*

A última segunda-feira (10) foi marcada por intensos ataques de forças israelenses em algumas regiões da Palestina. Na Mesquita de Al Aqsa, localizada na Cidade Velha de Jerusalém, palestinos que faziam suas orações no mês sagrado do Ramadã foram atingidos por bombas e gás lacrimogêneo disparados por policiais israelenses, inclusive dentro do estabelecimento religioso.

O dia 10 de maio, ou Dia de Jerusalém, é comemorado anualmente por colonos israelenses por representar a data de ocupação da Cidade Velha e de Jerusalém Oriental, em 1967. Grupos israelenses de extrema-direita organizaram uma marcha na frente da mesquita de Al Aqsa. Um vídeo circulado nas redes sociais mostra colonos sionistas celebrando enquanto uma árvore bem próxima à mesquita era tomada por chamas. Cerca de 300 palestinos ficaram feridos com as repressões de forças israelenses, sendo que mais de 220 tiveram de ser hospitalizados.

As violências têm sido recorrentes em Jerusalém. Nos últimos dias ocorreram diversas manifestações de palestinos lutando contra o despejo forçado de seis famílias residentes do bairro de Sheikh Jarrah. A expulsão dessas famílias vem de um esforço da organização colona Nahalat Shimon, que utilizou como argumento uma lei de 1970 para defender que aquelas terras pertencem a famílias judaicas, de forma que os residentes palestinos deveriam evacuar a área. O despejo forçado, porém, pode constituir crime de guerra, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Como de praxe, as ações de repressão de soldados e policiais israelenses foram de extrema violência, culminando no que talvez tenha sido o dia com mais número de palestinos feridos, seja por balas de borracha, gases lacrimogêneos ou bombas de efeito moral.

Onde começa a violência?

Mas, não surpreendentemente, foi após o Hamas lançar foguetes em território israelense como retaliação aos ataques, que a narrativa da “escalada de violência” tomou conta de alguns veículos midiáticos. Hamas é um grupo armado que controla politicamente a Faixa de Gaza, desde 2006, e é considerado por Israel e aliados como terrorista. O lançamento ocorreu após o líder militar do Hamas, das Brigadas Al Qassam, dar um ultimato ao Estado israelense para que retirasse suas forças da área de Al Aqsa até as 18h de segunda-feira, o que não ocorreu.

As Forças de Defesa de Israel declararam que o Hamas disparou cerca de 150 foguetes – parte deles foi interceptada pelo sistema antimíssil israelense. Em clara demonstração de assimetria de forças, Israel bombardeou a Faixa de Gaza na noite de segunda-feira, no que chamou de “Operação Guardiões do Muro”.

Como resultado, até a manhã de quinta-feira (13), 83 palestinos foram mortos, incluindo 17 crianças, e mais de 480 ficaram feridos. O Exército israelense afirmou ter matado 15 integrantes do Hamas e derrubou um prédio que servia de escritório do grupo. Além disso, o Ministério da Defesa de Israel mobilizou cerca de 5 mil soldados para “reforçar a segurança” na fronteira de Gaza. Em comunicado, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou que “tanto o poder dos ataques quanto a frequência dos ataques [em Gaza] serão aumentados”.

Importante mencionar, porém, que não se trata de um confronto entre duas partes igualmente poderosas. Enquanto o Estado de Israel conta com sistemas de ataque com tecnologia avançada, a população de Gaza mal consegue sobreviver. Em Gaza, e em tantos outros locais da Palestina, a violência já é parte estrutural da vida cotidiana há décadas.

Muito embora seja mais comum que violências diretas, decorrentes de conflitos armados, sejam noticiadas, há aquelas que são invisibilizadas. Os ataques armados e bombardeios podem aparecer como atos isolados ou escaladas do conflito, mas é importante indagarmos: onde de fato começou a violência?

Desde o fim do século XIX, com o início da implementação do projeto político sionista de colonização da Palestina, os nativos foram sendo paulatinamente expulsos de suas terras, decorrente de um processo planejado de despejo forçado e consequente colonização. Em livro recém traduzido para a língua portuguesa, “Expulsão dos palestinos: o conceito de “transferência no pensamento político sionista (1882-1948)” (Editora Sundermann, 2021), o historiador palestino Nur Masalha descreve como os sionistas, com apoio de grandes potências como Grã-Bretanha, desenvolveram o conceito de transferência para lidar com o que chamavam de problema demográfico árabe – a grande quantidade de palestinos que deveriam ser deslocados para outros Estados, a fim de que fosse estabelecido um Estado judeu.

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Após a fundação do Estado de Israel em 1948, evento lembrado por palestinos como Nakba(catástrofe em árabe), pois resultou na expulsão de 700 mil palestinos, dos quais 200 mil se refugiaram em Gaza, que na época contava com apenas 80 mil habitantes, as expulsões têm sido recorrentes. Para as pesquisadoras palestinas Mariam Barghouti e Noura Erakat, o possível despejo de famílias palestinas de Sheikh Jarrah é reflexo de uma Nakba contínua: o despejo forçado de palestinos e sua substituição pela população israelense, com total apoio dos EUA.

O que está acontecendo hoje em Sheikh Jarrah não é novidade. Cidades e/ou bairros como Jaffa, Silwan, Umm al-Fahm, Khan al-Ahmar também sofreram ameaças ou até mesmo expulsões de colonos sionistas. Além disso, desde março do ano passado, em Jerusalém Oriental, mais de 160 casas palestinas foram demolidas, resultando no despejo de 359 palestinos.

Diferentes faces de um mesmo projeto

A expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia cresceu ao longo dos últimos anos, assim como a construção de checkpoints controlados militarmente por Israel. Como consequência, essa realidade instaurou uma arquitetura de territórios palestinos não-contínuos e desconexos entre si, fragmentando e separando ainda mais as cidades e vilarejos palestinos tanto internamente quanto em relação uns aos outros. Recentemente, ONGs como a israelense B’Tselem e a internacional Human Rights Watch acusaram Israel de estar possivelmente cometendo crime de apartheid, algo que é denunciado há décadas pelos palestinos.

Assista aqui a edição do Programa Terra em Transe sobre diferentes aspectos do apartheid israelense na Palestina, com os pesquisadores doutores Arturo Hartmann e Bruno Huberman

A Faixa de Gaza é o exemplo mais claro dessa prática histórica e sistemática de separação e fragmentação territorial que Israel orquestra na Palestina. Atualmente, Gaza enfrenta uma realidade de isolamento socioespacial e vulnerabilidades extremas, controlada em suas fronteiras terrestres e espaços aéreos e marítimos pelo exército de Israel. Mas, apesar de estar em uma situação que a difere dos demais territórios palestinos, Gaza ainda está sob ocupação, e é por isso que as diferentes violências nesses espaços estão conectadas.

Como bem aponta o pesquisador palestino Tareq Baconi, “Gaza está tão desconectada do resto da Palestina que muitos veem o que está acontecendo lá como algo distinto da desapropriação em curso em Sheikh Jarrah. Eles não conseguem ver que Gaza é o eixo central da experiência palestina – de expropriação, retorno negado e enclausuramento” (tradução livre).

Assim, as violências israelenses que acometem Jerusalém e Gaza compõem dois espectros de um mesmo projeto e processo histórico de colonização, despossessão e expulsão da população nativa das terras palestinas e sua substituição por colonos israelenses, processo denominado por diversos pesquisadores como colonialismo por povoamento (settler colonialism).

*Isabela Agostinelli é doutoranda em Relações Internacionais no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), integrante do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Norte da África do Conselho Latino Americano de Ciências Sociais (CLACSO).

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Blog do grupo de estudos de conflitos internacionais da PUC-SP

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