Encontro de gigantes: as relações amigo-inimigo entre Rússia e EUA – Blog Terra em Transe

Após declaração em reunião da OTAN de que Moscou e Pequim constituem as principais ameaças estratégicas ao Ocidente, os presidentes Vladimir Putin e Joe Biden se encontraram na tentativa de diminuir as tensões entre os países

Por Giovana Dias Branco *

Na última semana, os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e dos Estados Unidos, Joe Biden, se reuniram em Genebra para tratar de tópicos caros a ambas as potências, como as recentes tensões na Ucrânia, a cibersegurança, a expulsão dos respectivos embaixadores de seus postos, e o controle de armamentos nucleares. Em Villa La Grange – o mesmo local em que Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev estiveram em 1985 para tratar de questões diplomáticas e da corrida armamentista – os atuais presidentes buscaram reforçar o diálogo entre seus estados num momento de relações abaladas pelas sanções impostas à Moscou pelos Estados Unidos após a anexação da Crimeia, e à sombra das recentes de declarações realizadas durante a reunião de cúpula da OTAN classificando a Rússia como ‘grande ameaça estratégica’. 

Desde sua chegada ao poder, Joe Biden busca se distanciar dos posicionamentos tomados durante o governo de seu antecessor, Donald Trump, sobretudo no que tange às relações com a Rússia. Anteriormente, Trump se mostrava condescendente em relação ao presidente russo e a atuação de Moscou no ambiente internacional. Biden, por sua vez, tem criticado as ações russas, uma vez que reforça a posição de Moscou como agressora. Para tal encontro, ambos os líderes ressaltaram suas respectivas forças e reafirmaram a permanência de seus países como atores centrais da atual ordem mundial, cujas fundações estão no período pós-Guerra Fria. Dessa forma, apesar da crescente multipolaridade e do surgimento de novos atores influentes no sistema internacional, a situação estratégica geral não foi alterada, uma vez que permanecem concentradas no eixo Moscou-Washington as decisões relativas ao controle armamentista e às questões de segurança e conflitos em países periféricos. 

Apesar dos recentes tensionamentos, o encontro proposto pelos Estados Unidos representa o início de uma reaproximação entre as potências, que buscam a maior previsibilidade em suas relações. Ao que parece, a atual busca por estabilidade estratégica é um elemento fundamental para a segurança nacional de ambos os países, e se contrapõe a um período em que as relações entre Estados Unidos e Rússia eram pautadas por desconfianças, recriminações e inércia das partes. Dessa forma, a ordem internacional moderna permanece pautada na lógica do ‘mundo nuclear’, embora também seja preciso negociar com demais atores do sistema, como a China, cuja emergência redefine o antigo equilíbrio de poder bipolar, o qual tanto Putin quanto Biden têm interesse em manter. 

Ainda que as últimas décadas tenham registrado um crescimento da China como potência, Moscou e Washington buscam reforçar sua situação de patrulha internacional conjunta, sobretudo em relação ao controle de armamentos (nucleares ou não) e a resolução de conflitos. Tais questões, embora acumuladas desde a Guerra Fria, se distanciam daquele período na medida em que os presidentes declararam a intenção de um completo afastamento de um conflito nuclear, prejudicial a todos os envolvidos. Portanto, o encontro bilateral mostrou-se construtivo, visto que representa o início do fortalecimento da comunicação entre os dois gigantes militares em um cenário multipolarizado de disputas comerciais, tecnológicas, militares e geopolíticas. 

Por outro lado, a reunião bilateral em Genebra teve como pano de fundo o encontro entre os países-membros da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – que declararam que a China, em conjunto com a Rússia, constituem as maiores ameaças estratégicas para a aliança. Tal declaração ressalta a necessidade da organização revisitar seu conceito estratégico a partir da formulação de inimigos em comum, uma vez que foi criada para a defesa dos países europeus contra possíveis ameaças promovidas pela então União Soviética, criando um sistema de defesa coletiva contra quaisquer reverberações vindas do leste. Entretanto, mesmo com o desmantelamento do Pacto de Varsóvia e a dissolução da URSS, a OTAN se manteve ativa no continente europeu, atuando inclusive em territórios para além dos limites de seus membros com a justificativa de contenção de supostas ameaças.

A redefinição de inimigos permanentes

Se antes a ameaça soviética – e então russa – era pautada em suas capacidades nucleares e de armamentos convencionais; a atual ameaça da China é sobretudo econômica, visto que os produtos chineses têm grande inserção internacional e substituem os demais produtores globais. Entretanto, por mais que pareça improvável que a China realize investidas militares contra os países da organização, seus investimentos militares e tecnológicos crescentes soaram o alerta das demais potências, sobretudo dos Estados Unidos, que veem sua hegemonia abalada entre os demais Estados. Em conjunto com a Rússia, a China mostra seu poder de contestar o Ocidente, situação que Putin tem explorado a partir do aprofundamento de negociações com o gigante asiático. Portanto, o presidente russo participou da reunião não como líder de um país dependente dos Estados Unidos, mas sim como de uma potência capaz de cultivar novos aliados e repensar a ordem proposta pelos norte-americanos desde o fim da Guerra Fria. 

Torna-se interessante, portanto, que mesmo com a tentativa de reaproximação entre os líderes russo e norte-americano, permaneçam presentes antigas rivalidades que classificam a Rússia como inimiga permanente da Casa Branca. Seja por seu arsenal nuclear, seja pela fragilidade democrática de seu regime, Moscou ainda é retratada como o “outro” oposto aos valores ocidentais, os quais são defendidos não apenas pelos Estados Unidos, mas inclusive pela OTAN. Portanto, o eixo Estados Unidos-Europa, representado pela organização, tem em sua raison d’être o combate a um inimigo em comum, que precisa ser constantemente fabricado. O que move tal grupo é a noção de uma ameaça em comum, representada pela contestação russa – e chinesa – aos principais pontos defendidos pelo chamado Ocidente. 

Entretanto, apesar do discurso combativo da OTAN e dos Estados Unidos frente à Rússia, é possível perceber que não há uma vontade real de enfrentamento direto. Recentemente, com a escalada de tensões com a Ucrânia, o pedido de adesão à Organização feito pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelensky não só não foi acatado, como também não recebeu comentários por parte dos líderes europeus e norte-americano. Nesse sentido, pode-se perceber que as contestações entre os blocos se dão primordialmente no âmbito dos discursos, mas não há maiores aderências materiais das rivalidades. A contenção, portanto, enquanto produto da Guerra Fria, não ocorre mais de forma direta entre os atores, mas como reformulação de narrativas passadas que não representam mais a totalidade das relações entre os blocos, visto que as práticas revelam eventuais períodos de aproximação. A partir desse contexto, permanecem incertos os reais resultados provenientes do encontro bilateral entre Putin e Biden, embora já seja possível vislumbrar um novo período de relações mais previsíveis e com uma comunicação mais ampla entre as potências no que tange seus interesses mútuos no sistema internacional. 

*Giovana Dias Branco é mestranda em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP), pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI/PUC) e do Observatório de Conflitos do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES).

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Blog do grupo de estudos de conflitos internacionais da PUC-SP

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