Israel avança na diplomacia e no apartheid de vacinas – Por Isabela Agostinelli

Israel vacina quase metade de sua população, doa vacinas para aliados que aceitam a reivindicação de soberania sobre Jerusalém e não cumpre responsabilidades com a saúde de milhões de palestinos sob ocupação militar

“Se é responsabilidade do ministro da Saúde de Israel cuidar dos palestinos, qual é exatamente a responsabilidade do ministro da Saúde da Palestina? Cuidar dos golfinhos no Mediterrâneo?”, ironiza o ministro de Saúde de Israel, Yuli Eldestein.

Por Isabela Agostinelli *

Israel tem sido retratado como um dos países com a vacinação contra a Covid-19 em estágio mais avançado do mundo. O Estado judeu já conseguiu vacinar quase metade de sua população de 9 milhões de cidadãos, com pelo menos uma dose da vacina Pfizer, segundo o Ministério da Saúde do país. Contudo, os palestinos que ainda vivem sob ocupação israelense — e formalmente sob a sua soberania — são apagados dessa conta e das narrativas do suposto sucesso israelense no combate ao vírus.

Alguém ingênuo ou que não conhece a realidade política da região poderia até imaginar que o Estado israelense enviaria vacinas para os palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, haja vista a responsabilidade de facto que o Estado israelense tem sobre a população desses espaços.

Relatores de direitos humanos das Nações Unidas e representantes da Anistia Internacional solicitaram que Israel se responsabilize pela vacinação dos palestinos, visto que, enquanto poder ocupante, Israel deveria conduzir os serviços de saúde na área, de acordo com a Quarta Convenção de Genebra. O chefe da missão da Organização Mundial da Saúde para a Palestina chegou a pedir informalmente que Israel enviasse algumas doses de vacina para os profissionais de saúde. O governo israelense, no entanto, negou o pedido.

Contudo, o destino dessas vacinas tem sido outro: países que declararam reconhecer a reivindicação israelense de Jerusalém enquanto sua capital, cidade dividida e que é objeto de disputa entre israelenses e palestinos. Com isso, Israel parece “recompensar” aqueles que aceitam sua soberania sobre Jerusalém, cuja parte leste é reivindicada como capital para um futuro Estado palestino.

Em notícia recente publicada no The New York Times, foi divulgado que Honduras e  República Tcheca confirmaram a promessa que o Estado israelense fez de enviar 5.000 doses da vacina Moderna para cada um. O governo de Honduras já declarou que reconhece Jerusalém como capital de Israel, inclusive buscando abrir uma embaixada lá, ao passo que o governo tcheco afirmou, em dezembro passado, que incluiria uma presença diplomática em seu escritório na cidade.

Guatemala e Hungria também estão na lista de doações.  A Guatemala abriu embaixada em Jerusalém, em maio de 2018. No ano seguinte, a Hungria anunciou a decisão de abertura de um “escritório diplomático” na cidade. Esse tipo de declaração foi comum desde que o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, reconheceu Jerusalém como a capital de Israel, ainda em 2017.

Geopolítica de vacinas

O sucesso israelense na campanha de vacinação parece oferecer poder de negociar alguns pontos estratégicos. Para além da política interna, sobre a qual o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, busca diminuir sua imagem manchada por denúncias de corrupção – frente às eleições que ocorrerão em março – é no cenário internacional que a “diplomacia de vacinas” tem um lugar proeminente.

Recentemente, ganhou destaque a notícia sobre suposto acordo secreto entre autoridades de Israel e da Síria, dois países há muito tempo rivais, que teriam negociado a troca de uma jovem israelense, que havia sido detida em território sírio, por financiamento no valor de 1,2 milhão de dólares da vacina russa Sputnik e sua transferência para Damasco. A narrativa oficial, porém, foi de que a jovem israelense fora trocada por dois pastores sírios que estavam detidos em Israel.

O acordo teria sido secreto porque Netanyahu estaria preocupado que o Hamas, grupo que controla politicamente a Faixa de Gaza e considerado terrorista por Israel e seus aliados internacionais, poderia usar a mesma tática para conseguir vacinas para a população de Gaza. O território vive sob bloqueio territorial, marítimo e aéreo por parte de Israel há 14 anos. Inclusive, as famílias de dois soldados israelenses, cujos corpos estão detidos em Gaza, estão pedindo para o governo israelense de fato usar a vacina como moeda de troca.

Palestinos sofrem com descaso israelense e falta de vacinas

Durante o período de vacinação em Israel-Palestina, os cidadãos palestinos da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza que vivem espoliados de praticamente todos os direitos humanos têm tido o seu direito à saúde praticamente ignorado pelo governo israelense.

Israel argumenta que, desde a assinatura dos Acordos de Oslo (1993), a Autoridade Palestina seria responsável pelas políticas de saúde para os palestinos. O ministro da Saúde de Israel, Yuli Eldestein, chegou a declarar, em tom de ironia: “Se é responsabilidade do ministro da Saúde de Israel cuidar dos palestinos, qual é exatamente a responsabilidade do ministro da Saúde da Palestina? Cuidar dos golfinhos no Mediterrâneo?”. É evidente o completo descaso israelense, que não assume suas responsabilidades humanitárias com os palestinos em territórios ocupados. A construção contínua de assentamentos israelenses em territórios palestinos, ao contrário do que se esperava com o acordo de “paz” de Oslo, tem sido apenas a mais evidente das violações israelenses ao direito internacional que tem  mais uma camada no apartheid da vacina agora imposto aos palestinos.

Apesar da declaração de Eldestein, o governo israelense anunciou, no começo de fevereiro, a doação de cerca de 5.000 doses de vacinas para a Autoridade Palestina. 2.000 já chegaram aos palestinos, que aguardam as 3.000 restantes. Um número absolutamente ínfimo, diante de uma população de quase três milhões de palestinos que vivem na Cisjordânia. Assim, esse número de doses é apenas simbólico e pouco ajudará na vacinação da população. Por enquanto, as vacinas recebidas estão sendo destinadas aos profissionais de saúde, mas há especulações de que a Autoridade Palestina teria distribuído algumas doses para alguns membros de seu alto escalão.

Na Faixa de Gaza, que conta com dois milhões de palestinos cercados e isolados do restante da Palestina desde 2007, a situação é ainda mais desesperadora. Israel, que controla as fronteiras alfandegárias de Gaza, chegou a bloquear o envio de 2 mil doses da vacina Sputnik doadas pela Rússia. Hazem Qassem, representante do Hamas, disse que essa atitude é uma violação das leis internacionais e dos padrões humanitários.

Após pressões, o governo israelense acabou autorizando a entrada das vacinas em Gaza, que finalmente recebeu os primeiros imunizantes. Além disso, os Emirados Árabes Unidos, que recentemente normalizou suas relações diplomáticas com Israel, anunciou a doação de 20.000 doses da vacina Sputnik para Gaza. A ação foi mediada por Mohammad Dahlan, rival de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina.

A partir de agora, é bem provável que, além do poder militar e econômico, o Estado de Israel deverá contar com uma arma sutil, silenciosa e devastadora: as vacinas.

*Isabela Agostinelli é doutoranda em Relações Internacionais no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), integrante do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Norte da África do Conselho Latino Americano de Ciências Sociais (CLACSO).

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Blog do grupo de estudos de conflitos internacionais da PUC-SP