Mercenários colombianos no Haiti e a conexão com os EUA – Blog Terra em Transe

A descrição dos matadores responsáveis pela ação é consistente com um perfil comum em outros palcos de conflito pelo mundo. É a mão-de-obra militar contratada de empresas militares e de segurança privada (EMSP)

Por Tomaz Paoliello *

As informações na mesa sobre o assassinato presidencial

Na madrugada do dia 7 de julho, um grupo de homens armados invadiu a residência oficial e assassinou o presidente haitiano Jovenel Moïse. De acordo com as autoridades haitianas, 26 colombianos estão envolvidos no atentado que tirou a vida do presidente, além de mais dois haitiano-americanos. Dos suspeitos, 21 estão presos e três foram mortos. O restante ainda está sendo procurado pela polícia do Haiti.

Os homens armados invadiram a residência presidencial alegando ser uma operação da Drug Enforcement Administration (DEA), agência de combate a drogas dos Estados Unidos. Autoridades dos EUA negam participação no atentado. Analistas e observadores declararam que o atentado foi bem organizado e demonstra treinamento das partes envolvidas. Essas declarações apontam para o caráter “profissional” do atentado que difere do padrão de atuação das gangues e grupos armados locais haitianos. Os vídeos do atentado mostram um homem falando inglês e os demais falando espanhol, o que ajuda a corroborar a versão da polícia haitiana sobre os suspeitos.

Alguns dias depois do assassinato de Moise, a polícia local prendeu o haitiano Christian Emmanuel Sanon como suposto líder e mandante do atentado. De acordo com as autoridades, ele planejava assumir a presidência do país e contratar alguns dos homens envolvidos no ataque a Moïse como sua equipe de segurança. Sanon, que vive entre a Flórida e o Haiti, teria recrutado a equipe por meio de uma empresa de segurança venezuelana com sede nos Estados Unidos, a CTU.

Há ainda muitas pontas soltas sobre o caso. Como é comum em atentados apócrifos, diversas teorias e versões parecem se sobrepor, muitas vezes com dados contraditórios que posteriormente serão descartados. No momento, parece estranha a surpreendente eficiência da polícia haitiana, que rapidamente identificou e prendeu diversos suspeitos muito bem treinados e profissionais, ao contrário das próprias forças do Haiti. Também deixa desconfiança o grande rastro de informações deixadas pelos colombianos do que seria uma operação secreta. Eles estavam com seus documentos originais, entraram no país legalmente e postaram fotos em suas redes sociais fazendo turismo nos dias anteriores.

O que se pode inferir sobre os assassinos e o assassinato

A descrição dos colombianos identificados como responsáveis pela ação é consistente com um perfil que se tornou comum em outros palcos de conflito pelo mundo. Com o crescimento da demanda por mão-de-obra militar por empresas militares e de segurança privada (EMSP) nas Guerras do Iraque e do Afeganistão, durante a década de 2000, soldados colombianos tornaram-se figuras carimbadas nos palcos de conflito contemporâneos. Grosso modo, as EMSP estadunidenses se tornaram um componente crucial da política externa dos EUA, já que permitiram que o governo e seus aliados contratassem no mercado privado capacidades que não estavam disponíveis nas forças armadas regulares. Particularmente, as EMSP permitiram que os EUA empregassem os chamados “cidadãos de terceiros países” (nem estadunidenses, nem nativos do país de operações, iraquianos, por exemplo) em atividades militares.

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Embora existam relatos de ex-militares de diversos “terceiros países”, algumas origens foram mais valorizadas no Iraque. Na Colômbia, por exemplo, era possível encontrar pessoal com extenso treinamento fornecido pelas próprias agências dos EUA, como a DEA, ou mais comumente por EMSP especializadas em treinamento. Em outras palavras: soldados terceirizados treinando futuros soldados terceirizados. Os colombianos, assim como militares de algumas outras origens, como jordanianos, sabiam inglês e estavam familiarizados com equipamentos e procedimentos também utilizados pelas polícias e forças armadas estadunidenses. Constantemente esses terceirizados eram mais experientes em operações de combate do que as tropas oficiais, formadas por jovens recém recrutados.

Finalmente, a utilização de terceirizados não americanos significava uma dupla redução de custos, econômicos e políticos. Em termos dos custos do trabalho, recrutar fora dos Estados Unidos e demais países aliados da OTAN significa economia. Ex-soldados da Colômbia e outras origens estariam dispostos a trabalhar em ambientes de alto risco por valores relativamente baixos para os padrões americanos, mas altos para sua realidade local. Por exemplo, a esposa de Francisco Uribe, um colombiano preso por sua participação no ataque a Moïse, afirmou que a CTU, empresa de segurança baseada na Flórida, ofereceu ao marido cerca de US$ 2.700 por mês para trabalhar no Haiti. Esses acordos muitas vezes escapam de legislações trabalhistas e envolvem condições de trabalho precárias. Não será surpreendente, portanto, se os empregadores não prestarem auxílio aos colombianos presos no Haiti.

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O emprego de cidadãos de terceiros países também significa uma redução de custos políticos. No caso do Iraque, permitia que o governo dos EUA contabilizasse as mortes de terceirizados como civis, reduzindo aparentemente os números de baixas em combate. Ademais, evita os custos com veteranos, feridos em combate, pensões a familiares, enterros oficiais etc. Mas, mais importante, deixa um espaço precioso para a negação (deniabilty). É possível utilizar fontes de financiamento secretas, back channels para comunicação, entre outros. No caso de violações cometidas por funcionários de empresas terceirizadas, abre-se a possibilidade de transferir a culpa à empresa no lugar do contratante. No caso do atentado contra Moïse esses “benefícios” ficam claros: a contratação de terceirizados privados contribui para a opacidade do caso.

Mesmo que as autoridades estadunidenses neguem sua participação no atentado, é possível identificar diversas camadas de relações transnacionais que se originam nos Estados Unidos, assim como é visível a gigantesca pegada dos EUA em toda parte na política haitiana. Os suspeitos colombianos agiam ao lado de membros da comunidade haitiana nos EUA. Ao que tudo indica, esses soldados foram treinados pelos EUA ou por empresas estadunidenses, já que tinham conhecimento de táticas empregadas pela DEA. Ademais, foram contratados por uma empresa sediada na Flórida por um haitiano residente no mesmo estado. Assim como visto recentemente na tentativa de golpe na Venezuela, o caso do assassinato do presidente do Haiti demonstra que a indústria de serviços militares tem potencial de se converter numa fábrica de golpes em países latino-americanos, particularmente onde interesses de elites bem representadas nos EUA estejam em jogo.

*Tomaz Paoliello é professor do curso de Relações Internacionais da PUC-SP e vice-coordenador do Mestrado Profissional em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais (PUC-SP).

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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