Novo governo em Israel: haverá vida após Netanyahu? – Blog Terra em Transe

Partidos sionistas se esforçam para evitar que o país se torne um Estado árabe

Por Marta Silva *

Em Março de 2021, Israel foi a eleições legislativas pela quarta vez em menos de dois anos, na esperança que um governo estável e sólido emergisse. Como já vem sendo tradição em Israel, nenhum dos partidos alcançou uma maioria confortável, pelo que uma nova dança das cadeiras para a formação de uma coligação se iniciou mais uma vez.

À frente dos esforços para a formação da coligação estiveram duas figuras: de um lado, Benjamin Netanyahu, líder do Likud e primeiro-ministro de Israel nos últimos 12 anos. Do outro lado, Yair Lapid, ex-jornalista, com uma carreira política ainda bastante recente, e fundador e líder do partido centrista Yesh Atid.

Apesar da centralidade destas figuras, as negociações para a formação de um governo ficaram dependentes de um terceiro nome: Naftali Bennett, líder do partido nacionalista religioso Yamina, e antigo braço forte de Netanyahu. Ao longo dos últimos dois meses de negociações, Bennett, conhecido pela sua postura abrasiva e violenta relativamente aos Palestinos – quer aqueles nos Territórios Ocupados, quer aqueles em Israel – mostrou saber gerir a importância relativa que tem no xadrez político do país, apesar do seu partido não ter ido além de 7 lugares no Knesset.

Do ponto de vista ideológico, e de modo a não alienar o seu eleitorado, faria sentido que Bennett se alinhasse com Netanyahu, o homem que forçou uma viragem ainda mais à direita do Likud, e entrasse numa coligação com outros partidos de direita e conservadores, tal como já tinha acontecido no passado.

Durante o ataque israelense sobre Gaza, Bennett chegou a cancelar as negociações que tinha em curso com Lapid, e parecia que a estratégia de Netanyahu de escalada de violência estava a cumprir o objetivo por ele traçado: a unificação de partidos nacionalistas e de direita em redor de um inimigo comum.

Contudo, com a incapacidade de Netanyahu em vender a ofensiva sobre Gaza e subsequente cessar-fogo como vitórias claras para Israel, Bennett encontrou a oportunidade política que lhe tinha escapado durante os últimos anos e reaproximou-se de Lapid.

Yair Lapid apresentou ontem à noite, a escassos minutos do fim do prazo que lhe tinha sido dado, uma proposta de governo a Rivlin, Presidente de Israel, que deverá ser votada pelo Knesset nas próximas semanas. Os últimos dias e noites foram marcados por incessantes negociações com diversos partidos políticos, de modo a acomodar as demandas de todos, e garantir que este novo governo é aprovado por uma maioria marginal de 61 deputados do Knesset, de um total de 120. Apesar de Lapid ter superado esta primeira prova, as últimas notícias indicam que um deputado do Yamina, Nir Orbach, poderá votar contra, inviabilizando assim a coligação quando esta chegar a votação no Knesset.

Coligações que envolvam partidos com agendas aparentemente contraditórios não são uma novidade em Israel: basta olhar para as inúmeras vezes que o Partido Trabalhista, identificado como de esquerda e secular, teve que obter o apoio de partidos religiosos e socialmente conservadores.

A ser aprovada, esta coligação apresentada por Lapid será, no entanto, um verdadeiro monstro de Frankenstein, juntando partidos que haviam declarado anteriormente que jamais se juntariam. No total, espera-se que 8 partidos façam parte desta coligação, que irá desde o Meretz, um partido de esquerda cujo programa inclui a revisão da Lei do Retorno, assim como o desmantelamento dos colonatos na Cisjordânia, passando pela Nova Esperança de Gideon Sa’ar, ele próprio um dissidente do Likud, e que já afirmou que a sua colaboração no futuro dependerá do apoio que este governo der à expansão dos colonatos. A presença do Ra’am, um partido palestino de natureza islâmica e conservadora, cuja presença no novo corpo ministerial foi apenas confirmada ontem à noite, marca também a primeira participação de um partido palestino num governo israelense.

De fora ficarão apenas o Likud, o partido com maior representação parlamentar (30 lugares), partidos ultra-ortodoxos e religiosos (Shas, United Torah Judaism e Sionismo Religioso), e a Lista Unida, uma lista composta por 4 partidos palestinos, que se encontram agora numa encruzilhada: por um lado, os anos de governação Netanyahu foram dos mais intensos no que toca à retirada de direitos aos cidadãos palestinos de Israel; por outro lado, uma coligação liderada por Naftali Bennett, um homem que se orgulha publicamente de “ter matado muitos árabes”, não pode ser vista como a solução política que desejariam. Quatro dos seis deputados eleitos pela Lista Unida já garantiram que votarão contra a coligação, pelo que a sua aprovação poderá depender da orientação de voto dos restantes dois.

Num momento em que se fala incessantemente de uma crise política israelense e se cria um otimismo generalizado em torno de uma era pós-Netanyahu, é importante analisarmos este possível governo à luz do que é a política israelense desde o estabelecimento do Estado, em 1948. Em particular, duas conclusões sobre o futuro e a natureza desta coligação podem ser já retiradas.

Em primeiro lugar, esta é uma coligação anti-Netanyahu, cujo único objetivo comum é retirar o atual primeiro-ministro do poder, sobretudo numa altura em que ele começou já a responder em tribunal sobre crimes de corrupção. Esta aliança junta partidos com agendas, identidades e interesses, não só distintos, como contraditórios. Deste modo, a esperança de vida desta coligação adivinha-se extremamente curta, e Yair Lapid muito dificilmente chegará à posição de primeiro-ministro. As tensões que devem surgir entre partidos tão diversos podem ser várias: desde questões do foro económico e social, problemas relativos ao papel do Judaísmo na vida política e privada dos cidadãos israelenses, ou questões relativas aos direitos dos cidadãos palestinos em Israel. Estas tensões não são recentes, nasceram em 1948, e foram ignoradas e até alimentadas por diferentes governos.

Em segundo lugar, o único ponto que poderá gerar um consenso alargado dentro – e fora – da coligação (e, ainda assim, alienando o Meretz e o Ra’am) é a perpetuação da ocupação e do bloqueio a Gaza, a expansão dos colonatos, ou o incitamento à violência entre Palestinos e Judeus em Israel. Tal como as tensões entre diferentes grupos étnicos e religiosos dentro da maioria judaica, a identificação dos palestinos como uma ameaça ao Estado judaico desde 1948 tem servido para gerar uma solidariedade e identificação entre a maioria judaica que, de outra forma, não existiria.

Em 1999, Ian Lustick, um cientista político israelense, escrevia que Israel se debatia permanentemente com uma crise política e identitária, visível na natureza frágil e em constante mudança do significado de Israel como “Estado judaico”. Israel, escrevia Lustick, definia-se não por aquilo que é, mas por aquilo que não quer ser: um estado árabe.

Desde a Segunda Intifada, em Outubro de 2000, que as lideranças sionistas têm forçado uma imagem de homogeneidade da “tribo judaica” em Israel que não corresponde à realidade. Várias Leis Básicas de Israel foram alteradas, de modo a reforçar a ideia de que Israel é um Estado judaico, sendo que, em 2018, uma nova Lei Básica – a “Lei do Estado-Nação” foi aprovada simplesmente para esse propósito.

Apesar da atenção mediática e académica sobre esta lei de peso constitucional, nenhum debate significativo surgiu sobre em que consiste, realmente, um “Estado judaico”. Seria fácil assumir que, entre aqueles que apoiaram a adoção da lei, entre eles o Partido Trabalhista e o Yadima, existisse um consenso relativamente a esta questão e a outras que lhe estão associadas: quem pode ser considerado judeu e quem pode aceder à cidadania israelense. No entanto, estas questões, que são centrais à identidade do Estado, permanecem por resolver e estão no centro das tensões entre partidos religiosos e seculares, cujos eleitorados estão divididos entre grupos étnicos e religiosos.

O que podemos, então, esperar desta nova coligação? Muito pouco. Tal como aconteceu nas anteriores coligações, esta também começará em breve a sentir o peso destas divisões políticas e ideológicas. Na melhor das hipóteses, estas tensões reflectir-se-ão num desmoronamento da aliança e na convocação de novas eleições. Na pior das hipóteses, podemos assistir a uma intensificação no incitamento à violência contra os cidadãos palestinos de Israel, na expansão da colonização da Cisjordânia, ou até mesmo num novo ataque sobre Gaza.

Sempre que uma crise política assola Israel, são os Palestinos, dos dois lados da fronteira, quem sofre com a violência. Tal como Baruch Kimmerling, sociólogo israelense, tinha já avisado, em 1985 e em 1993, o conflito exerce uma “função positiva” em Israel, “prevenindo uma escalada significativa do conflito interno entre judeus israelenses”. A institucionalização do conflito, da ocupação e da limpeza étnica não surgem de uma incapacidade das lideranças israelenses em encontrar soluções políticas para o conflito, mas da sua necessidade em neutralizar as tensões no mapa sociopolítico israelense.

Qual a boa notícia? Esta estratégia tem um prazo de validade: o uso dos palestinos como bode expiatório não poderá perpetuar-se, porque não constitui uma forma de coesão social sólida. De momento, o melhor que se pode fazer é controlar as expectativas relativamente à era pós-Netanyahu. Haverá vida em Israel após a sua saída, mas esta não será, tal como nunca foi, fácil para os palestinos.

*Marta Silva é doutora em Política Internacional e Resolução de Conflitos pela Universidade de Coimbra (Portugal).

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Blog do grupo de estudos de conflitos internacionais da PUC-SP

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