NSO Group: a empresa israelense que Carlos Bolsonaro quer contratar para te espionar – Blog Terra em Transe

Os Bolsonaro têm mantido relações próximas com os israelenses desde a eleição de 2018 e mostrado o desejo de importar diversas tecnologias militares e de vigilância para reforçar a já brutal repressão policial no Brasil

Por Bruno Huberman*

Está no centro da mais recente crise no governo Bolsonaro a israelense NSO Group, uma empresa de espionagem capaz de invadir os softwares mais seguros do mundo.

Conforme revelado pelo UOL, o vereador Carlos Bolsonaro, em conjunto da Polícia Federal e do Ministério da Justiça, viabilizou a publicação de um edital para a contratação do software de espionagem Pegasus como parte de seu projeto de formar uma “Abin paralela”. O edital está fora da alçada do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chefiado pelo general Augusto Heleno, e da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que seriam os órgãos responsáveis pela inteligência federal.

Dessa forma foi criada uma crise de poder com os militares. Contudo, este edital revela problemas que extrapolam os corredores palacianos. O NSO Group é uma empresa bastante obscura cujos softwares já teriam sido usados pelos governos do México e da Arábia Saudita para vigilância política. Além, é claro, de palestinos e demais inimigos israelenses.

A família Bolsonaro tem mantido relações próximas com os israelenses desde antes da eleição de 2018 e mostrado o desejo de importar diversas tecnologias militares e de vigilância para reforçar a já brutal repressão policial no Brasil. Este é, portanto, mais um episódio de como os israelenses têm auxiliado na repressão e vigilância de movimentos políticos ao redor do mundo.

NSO Group é pego hackeando o WhatsApp

Em 2019, o Financial Times reportou que o NSO Group pode ter invadido o celular de qualquer pessoa do mundo por meio de uma ligação não atendida no WhatsApp para espionar. A brecha foi confirmada por engenheiros da empresa comandada por Mark Zuckenberg, considerada uma das mais seguras do mundo.

O NSO Group emprega não mais de 500 pessoas no seu escritório na região de Herzylia, próximo a Tel Aviv, em Israel, mas que possui um valor de mercado de mais de 1 bilhão de dólares. Esse potencial se deve ao desenvolvimento do software chamado Pegasus, cuja importância estratégica é tanta que o Ministério da Defesa israelense regula a sua comercialização apenas para aliados próximos.

Embora o Pegasus não seja um software recente, a novidade reside na sua capacidade de hackear um celular por meio de apenas uma ligação não atendida ao seu WhatsApp, permitindo o acesso até mesmo a conteúdo criptografado, além das suas mensagens, ligações, localizações, fotos, câmera e microfone. Isto é, o usuário não precisa ser iludido a ativar o hackeamento do seu próprio aparelho, mas o vírus se ativa de forma autônoma. O Pegasus seria capaz de invadir até mesmo Iphones, considerados os aparelhos mais seguros, o que a Apple nega.

Segundo o Financial Times, o hackeamento do WhatsApp serviu como uma ação de marketing do NSO Group, que possui entre seus clientes agências de espionagem dos EUA, do Reino Unido e da Arábia Saudita. Mais da metade das relações comerciais da empresa seriam com países do Oriente Médio, que ainda possuiria enquanto clientes 21 países da União Europeia.

Essa capacidade de desenvolvimento de tecnologias de última geração do campo da cibersegurança, vigilância e espionagem tem permitido uma crescente influência política de Israel, colocando o país na mesa de decisões de ações de segurança secretas e ostensivas dos principais atores do sistema internacional.

Além disso, permite a Israel construir relações com países que supostamente não possuiria, como as ditaduras árabes do Golfo ricas em petróleo e que possuem enormes investimentos na área de segurança, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, que figuram na lista de clientes da NSO Group.

Cibersegurança: um mercado bilionário e perigoso

Embora a corporação israelense afirme que o seu software seja usado principalmente em ações como prevenção de ataques terroristas, resgate de pessoas sequestradas e combate ao crime organizado — entre seus clientes está o México, que teria adquirido o software para operações contra cartéis de drogas —, ativistas mexicanos e sauditas reivindicam que o programa também serve para perseguição política.

Segundo o ativista saudita refugiado no Canadá Omar Abdulaziz, o governo saudita teria utilizado o Pegasus para infiltrar no seu celular e no do jornalista Jamal Khashoggi, oposicionista do regime morto em 2018 dentro da embaixada da Arábia Saudita em Istambul. A empresa israelense nega envolvimento na morte de Khashoggi. O alcance da companhia, entretanto, é difícil de ser medido, pois a maioria dos seus dados são sigilosos e até o ano passado não possuía um website.

Para além das questões políticas, o mercado da cibervigilância tem se mostrado altamente lucrativo para o NSO Group. Apenas entre 2014 e 2018, a empresa israelense teria elevado o seu faturamento de 109 milhões de dólares para 251 milhões de dólares. No entanto, a corporações garante que todos os seus clientes passam por um comitê de ética independente, o que teria a levado deixar de ganhar milhões de dólares. “Esse comitê é uma piada”, observa, por outro lado, o advogado palestino Alaa Mahajna, que representa clientes mexicanos e sauditas contra a empresa em tribunais israelenses por violações de direitos humanos.

Pesquisadores do Citizen Lab, da Universidade de Toronto, no Canadá, já encontraram o vírus em diversos locais e reafirmaram a sua capacidade de agir de forma autônoma, agressiva e até mesmo descontrolada. “Essas companhias estão dizendo ao mundo que seus produtos fazem do mundo mais seguro, mas as pessoas que sabem como essas companhias agem param de usar seus celulares e isso não me parece mais seguro”, observa o pesquisador John Scott-Raitlon, do Citizen Lab.

É revelador o caso do ex-ministro da Defesa de Israel Avigdor Lieberman, líder de um partido de extrema direita e morador de um assentamento judeu nos Territórios Palestinos Ocupados da Cisjordânia, que deixou de usar smartphones e passou a recorrer a um antigo, ultrapassado e deteriorado Nokia para realizar ligações e mandar mensagens.

*Bruno Huberman é professor do curso de Relações Internacionais da PUC-SP.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Blog do grupo de estudos de conflitos internacionais da PUC-SP

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