terça-feira, 29 set 2020
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Duas sínteses

12244236_10153186529325423_3951159941106527318_oNa semana retrasada, tivemos aqui na Universidade do Texas um seminário comemorando os 20 anos de existência do Centro de Estudos Brasileiros (Brazil Center), parte do Lozano Long Institute of Latin American Studies – LLILAS.

Criado em 1995, o Brazil Center é um dos maiores do mundo, contando atualmente com 48 professores de todas as áreas do conhecimento, dentro de um instituto onde colaboram 230 latinamericanistas. Acredito que só o IEB da USP, no mundo todo, seja maior que o nosso Brazil Center.

Pois bem, celebrando o aniversário de 20 anos e aproveitando a ocasião para discutir o momento atual da conjuntura brasileira foi organizado um seminário que contou com a presença de brasilianistas destacados como Francisco Soares, presidente do INEP; Severino Albuquerque, de Wisconsin; Paulo Sotero, do Wilson Institute; e Gustavo Azenha, de Columbia University.

Durante o seminário, a polarização Fla-Flu de direita e esquerda teve seus momentos, mas no geral predominou uma conversa muito cordata e bem informada sobre os avanços dos últimos 20 anos e os problemas atuais. No meio das discussões, às vezes intensas, surgiram duas sínteses interessantes que julgo importante reportar.

A primeira, elaborada por este que vos fala, já foi publicada aqui no blogue Urbanidades e em outras entrevistas ao longo de 2015.  Trata-se de uma síntese sobre o a conjuntura política brasileira e diz o seguinte: o governo Lula mudou os fins do Estado brasileiro, fazendo com que ele servisse, pela primeira vez na história, aos mais necessitados. Mas não mudou os meios que continuaram os mesmos de sempre. Na sequência dos protestos de 2013, a direita aprendeu a usar estes meios corruptos e viciados como ferramenta política, não para reformá-los (espere sentado quem ache que a direita se incomoda de verdade com a corrupção), mas para mudar os fins.

Agora, o desafio da esquerda é gigantesco e frustrante. Atacar os meios fisiologistas significa abandonar fins, ainda que temporariamente. Preservar os poucos fins que ainda resistem no segundo governo Dilma significa compactuar com os meios. Em suma, temos uma direita empoderada via BBB (bala, bíblia e boi) e um cobertor curto para a esquerda.

A segunda síntese é estrutural. Como a Revista Fórum tem revelado desde a sua fundação, o Brasil não consegue enfrentar de frente questões como racismo e machismo. A síntese do colega Joe Straubhaar é uma excelente comparação com os EUA.  Nos Estados Unidos, discute-se muito a questão de raça, mas falar de luta de classe é proibido. O Brasil consegue perceber muito bem as desigualdades de classe, mas tem muita dificuldade de ver o racismo inerente a nossa sociedade.  Na mesa redonda que discutiu a questão racial (muito forte no âmbito da Universidade do Texas), os brasileiros ficaram todos visivelmente incomodados.

No final do evento, uma constatação: o Brasil e os EUA estão cada vez mais parecidos, embora esta convergência seja incômoda para ambas as sociedades.

Ps: na mesa sobre questões ambientais na qual participei, a discussão girou em torno do passivo gerado pelo desenvolvimentismo a qualquer custo dos últimos anos. Mal sabíamos que, três dias depois, 62 bilhões de litros de lama tóxica escorreriam pelo vale do Rio Doce.

Fernando Lara
Fernando Lara
Fernando Luiz Lara é o diretor do PhD Program in Architecture na Universidade do Texas. Foi diretor do Centro de Estudos Brasileiros do LLILAS/UTexas entre 2012 e 2015. Professor titular da UFMG enre 2016 e 2018. Seus livros mais recentes são Excepcionalidade do Modernismo Brasileiro e Modern Architecture in Latin America.