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16 de outubro de 2019, 20h26

Lições do Equador

“Só uma população organizada e informada pode enfrentar a lógica atual do capitalismo global”, destaca Fernando Lara, no blog Urbanidades

Foto: Reprodução/Twitter

Eu tinha certeza que a grande mídia brasileira esconderia a revolta equatoriana de duas semanas atrás, mas perceber que a mídia alternativa também comentou muito pouco o ocorrido me deixa bastante preocupado.

Restou o de sempre, Glenn Greenwald no 247 lembrando o silêncio ensurdecedor da mídia brasileira. E não vale dizer que o Equador não faz fronteira com o Brasil, porque o Equador está, na verdade, muito próximo de nós, em diversos níveis. Ou os corintianos já esqueceram o baile que levaram do Independiente del Valle no mês passado?

Tive a honra de visitar o Equador em julho pela primeira vez e vi um país interessantíssimo, o qual deveríamos observar com redobrada atenção. Um país um pouco maior do que o Uruguai, mas com quase cinco vezes mais população que nosso vizinho ao sul.

E com uma história de resistência indígena de dar inveja. Começando por Rumiñahui, o general Inca que resistiu junto com o jovem imperador Atahualpa. Vilcabamba resiste por muitas décadas e o movimento religioso Taki Onqoi que rechaça o deus católico se propaga de Quito a La Paz.

Em 1570, a resistência foi liderada por Tupac Amaru e, em 1742, por Juan Santos Atahualpa. Poucas décadas depois eclodiram as rebeliões lideradas por Tupac Amaru II (1780) e Tupac Katari (1781), que era um líder Aymara (da região onde hoje chamamos Bolívia).

O século XIX foi ainda mais povoado por rebeliões e o século XX viu nascer no Peru o Movimento Revolucionário Tupac Amaru e o Sendero Luminoso.

O século XXI não deixa por menos. Enquanto a Bolívia elegeu Evo Morales, seu primeiro presidente Aymara, o Peru, Ollanta Humala, primeiro presidente Qeuchua, e o Equador levou ao poder Rafael Correa.

Correa merece um artigo mais longo, analisando sua presidência e sua influência até hoje. Autoexilado na Bélgica, Rafael Correa está rompido com o atual presidente Lenín Moreno, que foi seu vice entre 2007 e 2013. Correa acusa Moreno de ter traído os princípios populares da aliança PAIS (Patria Alternativa e Soberana).

Agora, traição não é monopólio de Lenín Moreno. Converse com os líderes indígenas equatorianos e eles lhe dirão rapidamente que Correa não cumpriu as promessas de autonomia e desenvolvimento sustentável para o povo andino. Pelo contrário, apropriou o conceito de Suma Kawsay, que sempre foi uma causa indígena, para fazer propaganda de sustentabilidade, enquanto assinava contratos com petroleiras e mineradoras na Amazônia equatoriana.

O Suma Kawsay ou “Bem Viver” é a ideia de que o bem-estar da população, dos animais e inclusive da terra devem ser considerados antes do ganho financeiro. Em 2008 o Equador colocou a ideia de Suma Kawsay nos artigos 10, 71 e 74 da constituição. Por conta desta cláusula constitucional, equatorianos podem entrar na justiça em nome de animais, rios ou montanhas.

Imagine uma ação da Serra da Piedade ou do Rio Doce contra a Vale pelo desastre de Mariana. Temos muito que aprender com a ideia de Suma Kawsay, a mais ainda o que aprender com a organização dos povos andinos no Equador.

Como disse alguns parágrafos acima, estive em Quito em julho passado para ministrar um workshop na “Universidad San Francisco”, de Quito. Andando pela cidade vi um aeroporto sendo transformado em parque, transbordando de gente nos gramados e também na antiga pista de pouso.

Vi museus maravilhosos contando a história de Quito, antes e depois da invasão espanhola. Vi uma cidade limpa e organizada, e não vi gente dormindo na rua.

Mas o que mais me impressionou foi ver uma assembleia da comunidade Tola Xica, na área de Ilaló. Num galpão simples, cheio de gente bem simples, quatro líderes trituravam a secretária de meio-ambiente de Quito.

O vulcão Ilaló, onde eles vivem, é sagrado e demarcado como área de preservação. No entanto, a prefeitura de Quito autorizou a construção de um condomínio de luxo (lotes de 2.000 m2) com a desculpa de que a densidade é baixíssima.

Os líderes da comunidade destruíram a lógica da secretária municipal com argumentos muito bem fundamentados. Demonstraram que condomínios de luxo demandam uma média de 1.5 automóvel por habitante, desmatam a vegetação nativa para plantar grama, e o pior, restringem o acesso da população local às trilhas utilizadas para honrar o vulcão sagrado.

Depois de duas horas de debate a secretária disse que não podia fazer nada, porque o processo cumpriu os temos legais e os líderes disseram que iriam bloquear o acesso e impedir a construção, entrando na justiça ao mesmo tempo para preservar os direitos da montanha.

Avance 90 dias e veja do que é capaz uma população bem organizada. Quando Lenín Moreno assinou um acordo com o FMI, em 22 de setembro, estava claro que viriam as medidas de sempre: cortes nos gastos estatais, aumento do desemprego e piora no bem-estar social. Dessa vez, o pacote anunciado em 1º de outubro anunciava os cortes sempre prescritos pelo FMI, incluindo um corte no subsídio dos combustíveis.

A mídia internacional insiste em focar no aumento do preço da gasolina, mas quem parou Quito e quase derrubou o governo foram os indígenas. Lenín Moreno tentou mudar a sede do governo para Guayaquil, cidade costeira, onde o movimento indígena não tem tanta força. Não funcionou e depois de 15 dias Moreno revogou o decreto de austeridade.

A lição é muito clara: só uma população organizada e informada pode enfrentar a lógica atual do capitalismo global.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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