Urbanidades

11 de março de 2014, 13h03

Menos alcatrão e menos nicotina

Para pensar uma cidade melhor um bom ponto de partida é entender que o automóvel, assim como o cigarro, encantou e envenenou as multidões no século passado. Repetindo aqui a frase já amplamente divulgada: o carro é o cigarro do século 21.

Por Fernando Lara

Para pensar uma cidade melhor um bom ponto de partida é entender que o automóvel,  assim como o cigarro, encantou e envenenou as multidões no século passado. Repetindo aqui a frase já amplamente divulgada: o carro é o cigarro do século 21. Mas é angustiante pensar que enquanto vamos ficando aos poucos livres do cigarro, continuamos agarrados ao automóvel graças ao modelo desenvolvimentista em vigor.

Precisamos urgentemente de campanhas que quebrem a relação de glamour e poder do automóvel, da mesma maneira que as fotos de dentes estragados, de pulmões com enfisema e de câncer de esôfago vão aos poucos minando o “charme” construído pela publicidade do tabaco.

É urgente mostrar o carro como máquina ineficiente que realmente é um amontoado de 700kg de metal usado para transportar na maioria das vezes um único ser humano que pesa um décimo disto. Qualquer máquina com esta relação de 10/1 entre suporte e carga já teria sido abandonada por melhores tecnologias, não fosse a relação de status vendida junto com aço e plástico. Todo mundo sabe que os transportes marítimo e ferroviário são muito mais eficientes, mas causa espanto saber que um avião cargueiro como o Airbus 330 pesa 100 toneladas vazio e carrega outras 70. Ou seja, quase é 7 vezes mais eficiente que um carro (4 vezes quando computamos o peso máximo do combustível).

Uma forma de desestimular o uso do automóvel é tornar um pouco mais difícil a vida dos motoristas solitários. O incômodo de sair na chuva, no sol ou no frio, para satisfazer sua demanda por nicotina desempenha um papel importante na redução do uso do cigarro, além de salvar o pulmão da maioria que não fuma. Da mesma forma a cidade de São Paulo na atual administração está certíssima em implementar as faixas exclusivas de ônibus, facilitando o deslocamento da maioria que usa o transporte coletivo e dificultando a vida dos automóveis.

Mas o poder do carro, assim como o do cigarro, vai além. A nicotina causa dependência e é preciso muito mais que campanhas ou incômodos para minimizar o estrago feito pelo hábito de ingerir fumaça. No caso do automóvel, a nicotina se chama asfalto, ironicamente conhecido pelo nome de alcatrão por ser também composto por hidrocarbonetos.

Assim como no caso do alcatrão e da nicotina do cigarro, criamos ao longo do século 20 uma forte identidade entre o asfalto e o desenvolvimento. Para se ter uma ideia da força desta imagem, a palavra asfalto é no idioma vernáculo brasileiro o oposto de favela. Na dicotomia simplória que a publicidade tanto gosta de explorar, ou se vive na favela (excluído, pobre e feio) ou se vive no asfalto (bonito, rico e importante).

Ficar livre do vício do automóvel implica superar a ideia de asfalto como sinônimo de desenvolvimento. Mas esta é uma batalha dificílima quando pensamos que é a Petrobras, orgulho da esquerda nacional, quem precisa vender asfalto, como subproduto do refino do petróleo. Este mesmo asfalto que faz diminuir a permeabilidade, aumentando o efeito bolha-de-calor e facilitando as enchentes cada vez que chove forte.

Está então instalado o dilema: ou ficamos livres do asfalto como paradigma de sucesso ou vamos continuar viver em cidades engarrafadas, quentes e inundadas. Mas para isto vamos ter que convencer a população, o governo e a Petrobras dos malefícios do asfalto/alcatrão.

Em Belo Horizonte o vereador Arnaldo Godoy (PT) protocolou um projeto de lei (PL 702-13) tornando obrigatório o uso de pavimentação permeável em áreas de trânsito lento (faixas de estacionamento junto ao meio fio, por exemplo). Outro projeto (PL 700-13) proíbe a canalização dos cursos d’água e força a prefeitura a se planejar para renaturalizar aqueles que possam servir de parques lineares pela cidade a fora. Não há neste momento nenhuma vontade política, nem da esquerda nem do resto do espectro político para aprovar um projeto desta natureza, mas vale o esforço de fazer este projeto correr as comissões e levantar a discussão.

Afinal de contas, se queremos uma cidade melhor temos de tomar para nós a responsabilidade de propor uma cidade melhor.

Via sem a área permeável

Acima, a via sem a área permeável

 


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