Urbanidades

por Fernando Lara

O que o brasileiro pensa?
06 de junho de 2020, 20h20

O desenho do racismo

"Por favor colegas arquitetos, prestem atenção aos arranjos espaciais que naturalizam a exclusão", diz o urbanista Fernando Lara sobre a morte de Miguel, de 5 anos, deixado sozinho no elevador "de serviço" pela patroa

Enquanto o mundo todo se horrorizava com a morte de George Floyd nos EUA, o Brasil em parte se choca e em parte normaliza a morte do menino Miguel. Nas redes sociais leio mais do mesmo, muita gente tratando a morte de Miguel como acidente. Não foi acidente porque o racismo não é um acidente, é resultado de um desenho de sociedade fundada no holocausto ameríndio e na escravidão, e que ainda se recusa a superar a ambos, tanto no Brasil quanto nos EUA. Não é à toa que estes dois países estão hoje no topo do pódio da morte por Covid, medalha de ouro e de prata para as nações em que a vida vale menos, as vidas negras menos ainda.

Os absurdos em volta da morte de Miguel são inúmeros e vão desde a crueldade de expor as empregadas domésticas ao transporte público no meio de uma pandemia ao fato de que nenhuma criança deveria ser deixada sozinha no elevador. O vídeo que mostra a patroa apertando o botão dos andares de cima enquanto a mãe estava no térreo é a cereja do bolo, o toque de crueldade, o joelho no pescoço do menino e de sua mãe ao mesmo tempo.

Mas reconhecendo que tem gente muito mais qualificada do que eu para discutir tudo isto, até porque sou homem e branco, me atenho ao detalhe da normalização da exclusão no espaço doméstico. Por favor colegas arquitetos, prestem atenção aos arranjos espaciais que naturalizam a exclusão. Membros de uma profissão que vende exclusividade o tempo todo, lembrem-se de que a exclusividade só existe porque alguém é excluído. Exclusividade e exclusão são dois lados da mesma moeda. Se todos fossem incluídos não haveria exclusividade, nem no condomínio, nem na moda, nem no restaurante.

Pior do que vender exclusividade para os ricos (vide o documentário Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, entrevistando justamente os moradores das coberturas do Recife) é naturalizar a exclusão. Que outra sociedade acha normal ter elevador de serviço e porta de serviço? Que outra sociedade acha normal escrever DEP na planta aprovada na prefeitura, em referência a um espaço de 1,5 por 2 metros que não vai funcionar como DEPósito, apesar de não ter janela e tecnicamente não poder ser DEPendência de Empregada.

Em 2013 escrevi uma série de 5 textos aqui na Fórum, um deles especificamente sobre a exclusão no espaço doméstico. Para minha tristeza, estes textos lidos por centenas de colegas arquitetos, que os comentam quando nos encontramos socialmente, não tem nenhuma penetração no discurso acadêmico brasileiro (baseado em dados de citação do Google Scholar). Temos dezenas de livros e teses sobre a exclusão na escala urbana, e quase nada sobre a exclusão na escala doméstica. Não temos ainda no Brasil um Craig Wilkins ou uma Mabel Wilson para nos lembrar que o racismo sistêmico constitui a base de nossas cidades contemporâneas. Minha hipótese para tal discrepância é que todos nós, brasileiros de classe média alta, naturalizamos os processos racistas de exclusão que determinam nosso cotidiano. E o fazemos desde sempre. Tenho esperança que os jovens negros brasileiros (principalmente as jovens negras) vão forçar este debate goela abaixo da minha geração. E espero que o façam com a maior brevidade possível.

Por exemplo, entre os edifícios mais significativos da arquitetura moderna brasileira estão os apartamentos do Parque Guinle (Lucio Costa, Rio de Janeiro, 1947) e a Casa de Vidro (Lina Bo Bardi, São Paulo, 1951). No Parque Guinle os apartamentos têm 2 ou 3 quartos de empregada, a Casa de Vidro tem 3. Um casal como Pietro e Lina Bo Bardi precisava de 3 empregadas para manter sua vida moderna. Que modernidade é esta? Quais estudos de arquitetura discutem estas questões? E não precisa voltar aos anos 50 do século passado. Quem hoje, nos escritórios de arquitetura do país inteiro, questiona o fato de termos elevadores separados, portas separadas e depósitos servindo de habitação para as empregadas domésticas?

Não se assustem quando uma criança de 5 anos for colocada sozinha no elevador e mandado por crueldade ao andar errado. Tudo isso foi desenhado, especificado, orçado e construído por uma sociedade que naturalizou a exclusão e o racismo.


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