Urbanidades

#Fórumcast, o podcast da Fórum
05 de novembro de 2017, 18h13

Pensando o espaço nas Américas

Fernando Lara, editor do blog Urbanidades, é autor de uma instalação sobre os espaços nas Américas na 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo. Confira

XI Bienal de Arquitetura de São Paulo

Biblioteca Mário de Andrade

a instalação / manifesto

A 11a Bienal de Arquitetura de São Paulo está funcionando desde o final de outubro, com atividades por toda a cidade. Neste último sábado dia 4/11 foi aberta uma parte da exposição na Biblioteca Mário de Andrade, R. da Consolação, 94. Alí está o nosso manifesto por uma teoria do espaço das américas.

Denominada 250 Arquiteturas Americanas, a instalação ocupa uma parede inteira com 250 peças cerâmicas que formam o mapa do continente.  Idealizada pelo Prof. Fernando Lara junto com o Coletivo Goma Oficina e confeccionadas pelos alunos da University of Texas at Austin e da Universidade Federal de Minas Gerais, estas pecinhas cerâmicas representam as várias tipologias arquitetônicas do continente: favelas, trailerhomes, palafitas, arranha céus; edifícios de taipa, cerâmica, concreto, madeira e vidro. Os alunos desenharam uma centena de fachadas de todas as partes do continente, abstraíram as linhas para chegar à proporção de 5×7 cm e fizeram os moldes usando uma cortadora laser. As pecas seguem as proporções do espaço construído das cidades nas Américas: 100 retratam a informalidade das grandes cidades (40%), 150 representam arquitetura dita “de mercado” (55%) e 20 são arquiteturas paradigmáticas – estas que aprendemos nos livros – aqui representadas pelo tradicional processo de vitrificação da Cerâmica Saramenha, onde as peças foram confeccionadas e queimadas.

a teoria

Estudar o ambiente construído das Américas é lidar com uma contradição inerente. Enquanto nossas disciplinas de arquitetura, design urbano, paisagem e planejamento compartilham a crença fundamental no espaço como formador de sociedades, a esmagadora maioria do nosso conhecimento vem de outro continente.

Como lembrou Edward Said no clássico “Orientalismo” de 1974, a cultura européia desenvolveu narrativas sobre todas as outras sociedades e, como resultado, estabeleceu-se como o centro do conhecimento humano. Poderíamos facilmente aplicar o orientalismo de Said a um certo “ocidentalismo” do continente americano e perguntar o que tal narrativa implica. De acordo com a narrativa eurocêntrica, as Américas eram um vasto continente vazio de culturas pouco sofisticadas e prontas para serem conquistadas pelo conhecimento superior do “velho mundo”.

Mais recentemente, na primeira metade do século XX, arquiteturas dos EUA, México e Brasil foram extremamente influentes em todo o mundo. Nossa literatura, mais Eurocêntrica (ou Otancêntrica) do que nunca, ainda não explorou completamente essas contaminações cruzadas. A grande maioria das histórias da arquitetura moderna nas Américas foi escrita como se fôssemos ramos de vanguarda Européia espraiados para além do Atlântico. Não há dúvida sobre a raiz Européia do modernismo, nem sobre a importância do Velho Continente em nossas tradições arquitetónicas. A tradição ocidental é fundamental sim, mas insuficiente.

Mais importante e muito mais desafiador do que reconhecer nossas raízes Eurocêntricas é a tarefa de reconstruir a imensa quantidade de conhecimento existente no nosso próprio continente e buscar uma síntese, uma teoria do espaço americano. Nossas cidades foram, nos últimos 500 anos, máquinas de excluir e máquinas de esquecer. Urge inverter esta lógica e fazer dos nossos espaços americanos lugares de inclusão e de memória.

E esta síntese deve partir dos autores que pensaram o espaço das américas desde uma perspectiva americana. Em primeiro lugar trata-se de retomar o sentido original da palavra americano/a, referente à todas o continente e não apenas aos EUA. A partir daí importa sistematizar o pensamento sobre este espaço, a partir deste mesmo espaço. Apresento aqui muito rapidamente 3 dos mais importantes pensadores deste continente: Eduardo Viveiros de Castro, Edmundo O’Gorman e Arturo Escobar

Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro, é o autor do perspectivismo ameríndio, teoria que ao explicar a visão de mundo dos habitantes originais do continente propõe uma relação entre ser humano e natureza – no nosso caso ser humano e espaço – radicalmente diferente da tradição ocidental. A capacidade de ver em cada objeto ou animal: pedra, árvore ou onça, uma humanidade potencial, revela uma continuidade entre nós humanos e o mundo ao redor que infelizmente perdemos no processo de modenização. A mesma tecnologia que me permite escrever estas linhas e enviá-las pelo espaço, reduzindo drásticamente a distância entre o meu pensamento e o de alguém que me lê do outro lado do planeta, serve ao mesmo tempo para aumentar exponencialmente a distância entre esta mesma consciência e os seres: planta, inseto, temperatura, chuva, que estão do outro lado da janela, a menos de um metro no espaço linear. Estudar o espaço americano pelas lentes do perspectivismo ameríndio significa retomar, ainda que precária e insuficientemente, um conhecimento que se perdemos na primeira grande tragédia a marcar o espaço das américas: o holocausto ameríndio.

Impressionante perceber o quanto este holocausto, causado por sarampo, catapora e gripe além de chumbo e pólvora, é ignorado pelas sociedades contemporâneas. Nenhum outro continente, em nenhuma época, viu sua população ser reduzida em 90% durante três ou quatro gerações. Não há maneira de entender este espaço sem tratar desta tragédia. Quando o historiador mexicano Edmundo O’Gorman escreveu em 1947 que foi o encontro com o continente americano que serviu de gatilho para a modernização europeia e não o contrário, usou de uma metáfora que ainda hoje serve bem para explicar o que se passou entre 1492 e os idos de 1515. Imagine se encontrarmos amanhã vida em outro planeta. Seremos forçados a repensar tudo que acreditamos sobre nós mesmos. Foi isto que aconteceu com a inteligência europeia na virada do século XV para o XVI. Foram forçados a repensar tudo a partir do encontro com sociedades diferentes e sofisticadas à sua maneira das quais não faziam a mínima ideia que poderiam existir. O terremoto intelectual provocou retrocessos como Savonarola em Florença (cujo governo entre 1494 e 1498 queimou centenas de obras renascentistas) mas deu à ciência uma ferramenta conceitual que faltava à religião: a ideia de que tudo pode e deve ser questionado. Lutero e Calvino são consequência direta disto.

Voltando ao continente americano, a ideia de uma América vazia e virgem, esperando a racionalidade europeia não existiria sem o holocausto que dizimou a população local de 15 milhões em 1500 para menos de 2 milhões em 1600. E esta ideia de espaço vazio (onde antes havia muita gente) é o motor moral do processo de modernização. Arturo Escobar, antropólogo colombiano, chama atenção para o fato de que não existe modernização sem exploração ou colonização.  Em ambas as faces desta mesma moeda: modernização e colonização, a racionalidade do homem branco se arvora ao direito de ensinar a todos os outros não-brancos e não-homens como alcançar a prosperidade e o progresso. A modernização é o sonho da libertação, a colonização o pesadelo do processo. Acontece que um não existe sem o outro, a ideia de modernização, sempre utilizada como objetivo maior das transformações, trás junto a ideia de colonização, de que o modus vivendi do homem branco deve ser imposto a todos os outros, sem nunca perceber que é esta desigualdade primordial que permite ao homem branco, e quase sempre só a ele, viver mais e melhor. E aqui chegamos a segunda grande tragédia do espaço americano: a escravidão. Milhões de africanos foram trazidos a força para o nosso continente para fazer funcionar justamente este projeto de modernização/colonização.

Não há como entender o espaço atual das américas, suas cidades excludentes e sua memória seletiva, sem tratar diretamente destas duas grandes tragédias. Elaborar um projeto emancipador e transformador a partir deste continente demanda documentar e teorizar estes espaços onde vivemos todos.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum