Urbanidades

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20 de julho de 2015, 16h10

Porque as américas são campeãs de desigualdade?

Parece importante perguntar se não estaria na cidade, na relação entre as pessoas e o espaço construído, uma faceta importante na nossa ultrajante desigualdade. Se na Europa as cidades sempre foram sinônimo de inclusão, nas Américas a cidade foi desde o início da empresa colonial uma ferramenta de exclusão

O último relatório da OCDE sobre desigualdade chamou a minha atenção no seguinte sentido: os três países mais desiguais entre os chamados “desenvolvidos” que fazem parte da OCDE são americanos: EUA, Chile e México nesta ordem.

Some-se a estes três o Brasil, a Colômbia, a Venezuela, e o Peru com este mesmo nível altíssimo de desigualdade; e a Argentina e o Uruguai com um nível um pouco melhor mas longe do ideal; e temos o seguinte quadro: as américas são muito mais desiguais que a Europa.

Explicar esta diferença exige um mergulho na empresa colonial que nos dominou por mais três séculos. Isto porque depois de 200 anos de independência as américas tem um Produto Interno Bruto quase idêntico ao Europeu: 24.5 trilhões deste lado do Atlântico, 24.4 do lado de lá (dados de 2013). Nossa população é 20% maior, 930 milhões de pessoas, contra 730 milhões de europeus.  Num mundo hipoteticamente igualitário os europeus seriam 20% mais ricos que nós nas américas.

Mas a realidade é que a questão da desigualdade americana grita aos olhos de qualquer um que resolva visitar o outro lado com olhos sensíveis. Estive mês passado em três países europeus dando palestras sobre meu novo livro e apesar dos duros dados sobre desemprego principalmente na Espanha e na Itália, vi cidades vivas, cheias de gente comendo, bebendo e tomando sorvete nas praças. Praças e ruas muito bem tratadas, bem desenhadas, e bem apropriadas. Note que não estou comparando a Espanha com o Brasil ou o Paraguai, estou comparando a Espanha e a Itália com os EUA. Se olharmos apenas as planilhas que os economistas que nos governam tanto gostam, veríamos uma Espanha arrasada pelo baixo desempenho econômico e um EUA pujante. Mas não é isso que as ruas mostram. muito pelo contrário. Vejo nos EUA pessoas ansiosas e exaustas, trabalhando 50, 60 horas por semana para fechar as contas. E vi nas Itália jovens tranquilamente aproveitando a vida apesar das dificuldades de se encaixar no mercado de trabalho.

Como não sou economista nem sociólogo não me atrevo a comentar sobre as razões desta diferença de atitude em relação a vida e ao predomínio do econômico sobre o social. Mas como urbanista a relação das pessoas com a cidade me salta aos olhos.

E por isso me parece importante perguntar se não estaria na cidade, na relação entre as pessoas e o espaço construído, uma faceta importante na nossa ultrajante desigualdade. Se na Europa as cidades sempre foram sinônimo de inclusão: stadtluft  macht frei / o ar da cidade liberta; nas Américas a cidade foi desde o início da empresa colonial uma ferramenta de exclusão.

Em 1572 o rei espanhol Felipe II declarava na sua famosa “lei de índias” que nas cidades poderiam residir apenas os espanhóis e seus descendentes. Ao povo mestiço ou original das Américas restava a periferia. Os portugueses não eram muito diferentes, negros e índios eram brutalmente reprimidos quando estavam “fora do lugar”, ou seja: na cidade só trabalhando; devidamente uniformizado em roupas de escravo, e descalço.

Esta matriz excludente das nossas cidades se revela hoje como desprezo total pelos espaços públicos. Nas áreas ricas da cidade a transição entre o público e o privado é pontuada por cercas elétricas, muros com caco de vidro, arames farpados e mais recentemente por aparatos eletrônicos. Todos eles servindo apenas para aumentar a distância entre casa e rua, ineficazes que são contra as verdadeiras causas da violência urbana. E nas áreas pobres da cidade não é diferente. Edifícios inacabados por fora guardam TVs de tela plana e outros apetrechos que custam mais caro que emassar e pintar a casa toda. Juntamente com espaços públicos vandalizados e mal cuidados, estas estruturas agressivas e repulsivas revelam bem onde estão as nossas prioridades patrimonialistas.

Diante da imensidão da nossa crise política e do enorme desafio de melhorar as nossas cidades, parece fútil e burguês colocar uma flor na janela ou cuidar do canteiro da pracinha em frente. Só que é ai que acontece a vida cotidiana, é na calçada limpa e nivelada que as pessoas vão se encontrar e se reconhecer como iguais.  É de bicicleta que vamos re-apropriar a cidade. É trocando cara muro sem reboco por cercas vivas que vamos devolver humanidade pras nossas cidades tão maltratadas pela impaciência do capital.

David Harvey anda correndo o mundo para dizer que a desigualdade tem de ser atacada pelo urbanismo. Os protestos de 2013 disseram a mesma coisa. Sou muito cético em relação à crise política brasileira. Como disse numa entrevista recente, Lula e o PT tem todos os méritos por terem mudado os fins da política brasileira. Mas não mudaram os meios, que continuam podres. A direita, aproveitando-se do terremoto político que foram os protestos de 2013, usa de maneira hipócrita e seletiva a questão dos meios, com o objetivo único e exclusivo de mudar os fins. O desafio da esquerda nunca foi tão grande desde a redemocratização: mudar os meios para preservar os fins vai demorar no mínimo uma geração, talvez mais.

Até lá, resta melhorar a cidade para atacar a desigualdade por outro flanco que venha a se complementar ao aumento da renda e as políticas de ação afirmativa. Isto implica resgatar os processos participativos que a própria esquerda abandonou. Implica dificultar a vida do automóvel, este cigarro do século XXI, retomando espaços para o transporte público, para pedestres e ciclistas. Implica investir de verdade em espaço público, com projetos que saiam das planilhas e discutam o desenho da cidade em todas as escalas, do banco de praça ao trajeto dos corredores de ônibus.

Implica basicamente integrar uma cidade que por séculos foi desenhada e construída para a exclusão.


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