Urbanidades

Fórumcast, o podcast da Fórum
13 de janeiro de 2015, 22h09

Quem vai mandar parar as máquinas de guerra?

o que ninguém ainda discutiu muito é que existe uma enorme indústria de armamentos ganhando trilhões de dólares com este estado de guerra e de terrorismo constante. Que tipo de paz teremos enquanto o orçamento das Nações Unidas (que deveria, ainda que em tese, promover a paz ) for 300 vezes menor que o faturamento anual da indústria bélica?

Enquanto se desenrolavam as tragédias de Paris na semana passada eu terminava de ler um livro que tem tudo para se tornar um clássico: Covert Capital (University of Califormia Press, 2014), escrito por um jovem professor, Andrew Friedman.

Não escrevi aqui o subtítulo do livro para não estragar a surpresa, tratarei disto alguns parágrafos abaixo. Por ora, urge voltar aos eventos de Paris, do Iêmen e da Nigéria na semana passada com o fundamentalismo religioso matando milhares de pessoas inclusive cartunistas de renome. Ou voltar um pouquinho mais no tempo até os atentados da Al Qaeda em Madri ou o uso de drones pelo governo Obama para eliminar suspeitos pelo mundo afora, ou ao ataque criminoso à população da Faixa de Gaza no ano passado. É evidente que todos estes eventos estão conectados. É óbvio que o uso de violência, seja ela extrajudicial, no caso dos drones; usando uma bandeira nacional, no caso de Israel; uma bandeira imaginária no caso do ISIS ou a bandeira do governador do dia no caso das polícias militares, gera mais ódio e mais violência. É óbvio que a saída para todos estes conflitos é o estabelecimento de leis supranacionais que levem o ideal de justiça para todos os cantos do mundo.

Mas o que ninguém ainda discutiu muito é que existe uma enorme indústria de armamentos ganhando trilhões de dólares com este estado de guerra e de terrorismo constante. Que tipo de paz teremos enquanto o orçamento das Nações Unidas (que deveria, ainda que em tese, promover a paz ) for 300 vezes menor que o faturamento anual da indústria bélica? O presidente francês François Hollande, por exemplo, esteve na Arábia Saudita no final de setembro e sorridente anunciava a venda de três bilhões de euros em armas para a casa real de Saud, por sua vez a maior fonte de financiamento das madrassas que espalham o radicalismo islâmico. Fecha-se assim um ciclo que enriquece os vendedores de armas e seus lobistas “consultores de segurança”, financia campanhas, lava dinheiro, mobiliza milícias particulares e mata milhares de inocentes todo ano. E não venha me dizer que os chargistas “provocaram” o ataque porque este tipo bárbaro de linchamento a là direita raivosa não cabe no mundo civilizado. Je Suis Charlie Hebdo ao mesmo tempo em que je sui 83 negros brasileiros mortos por dia e je sui milhares de nigerianos assassinados só na semana passada.

E aqui volto ao livro de Andrew Friedman. Covert Capital:Landscapes of Denial and the Making of U.S. Empire in the Suburbs of Northern Virginia, o subtítulo já diz tudo. Vizinho de Washington DC, os subúrbios do norte do estado da Virgínia se tornaram, segundo Friedman, a verdadeira capital dos EUA e seu império. Uma capital disfarçada. O livro de Friedman analisa o desenvolvimento urbano de uma faixa de 50 km entre o aeroporto de Dulles e as margens do rio Potomac que corre atrás da Casa Branca e do Congresso. É nesta faixa que foram construídos o Pentágono e a CIA, é aí que moram e trabalham milhares de “consultores”, ex-militares e ex-espiões que movimentam as encomendas de armas pelo mundo a fora. O que Friedman mostra muito bem ao longo do livro é que neste corredor está o verdadeiro centro do poder norte-americano, responsável ao mesmo tempo pela enorme indústria bélica e por parte significativa da política externa norte-americana.

E não se engane de achar que só os EUA operam desta forma. A Rússia ultrapassou os EUA na venda de armas ano passado, uma reedição macabra da Guerra Fria. Logo atrás dos dois gigantescos produtores de armas vêm a Alemanha, a França, O Reino Unido e Israel. Qualquer semelhança com os líderes formando a linha da hipocrisia no domingo passado em Paris não é mera coincidência.

A grande pergunta que fica no ar é a seguinte: como desmontar esta indústria da guerra? Como aconselhava o próprio Dwight Eisenhower, no seu discurso de despedida da presidência dos EUA em 1961, a relação entre o complexo militar e o governo democrático precisa ser constantemente monitorada para evitar abusos e desvios de função. Ike sabia do que estava falando, antes de ser presidente ele fora comandante da invasão da Normandia em 1944 e primeiro supremo comandante da Otan.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum