Urbanidades

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15 de agosto de 2013, 20h46

Uma espiadinha em Detroit

Detroit sempre achou que o que era bom para a indústria automobilística seria bom para a cidade. Em Detroit ninguém se encontra porque os poucos que ainda trabalham no centro chegam pela autopista, estacionam na torre, andam por uma passarela até seu escritório e fazem o percurso contrário no final da tarde.

(Foto: camilojosevergara.com/Detroit)

Hoje li no New York Times que o secretário de estado dos EUA John Kerry ficou na maior saia justa em Brasília, apertado pelo ministro Antônio Patriota sobre a questão da espionagem yankee. Claro que a grande mídia brasileira  não deu muita atenção ao assunto,  o Brasil puxando a orelha do time do Obama não vale mais do que uma notinha na coluna social.

Minhas poucas décadas de vida entre os dois países (somadas a alguma pouca leitura) me dizem que os EUA não vão parar de espionar então sugiro que façamos o mesmo: o Brasil deveria espionar os EUA.

E pra começar sugiro que espiemos Detroit. Ali nasceu a indústria automobilística como conhecemos hoje. Uma cidade que sempre foi espalhada e cuja terra nunca foi muito cara: uma verdadeira bênção no início do século passado. Enquanto Chicago se verticalizava em resposta ao alto preço do solo urbano Detroit crescia para os lados. E assim nasceram ali a Pontiac, a Chevrolet, a Chrysler, e a Ford entre tantas outras.

Como forma de agradecimento Detroit sempre fez tudo que a indústria automobilística pediu.  Construiu autopistas rasgando a cidade (sempre pelas áreas pobres, você já viu autopista passar no meio de área rica?) e investiu na suburbanização, alcançando densidades baixíssimas mesmo quando tinha 3 milhões de habitantes. Nunca investiu em transporte público e quando o fez criou um monotrilho em volta do centro que apenas servia para ligar os escritórios aos edifícios garagem. Tampouco investiu em espaços públicos, ao contrário de tantas outras cidades norte-americanas. Em resumo, Detroit sempre achou que o que era bom para a indústria automobilística seria bom para a cidade.

A cada crise – conflitos raciais em 68, chegada das montadoras japonesas em 73, crise do petróleo em 79 – a cidade fazia tudo que a indústria automobilística pedia: mais torres de estacionamento, mais autopistas, menos espaço público e o nenhuma melhoria no transporte coletivo. E tome subsídio e incentivo de toda parte para ajudar a vender automóvel, com a conivência dos sindicatos diga-se de passagem.

O resultado vocês podem ver dando uma espiadinha em Detroit, usando o Google Street View ou fotógrafos como o chileno Camilo Jose Vergara.  (http://camilojosevergara.com/Detroit)

Detroit hoje é uma cidade destruída, com 700 mil habitantes (pobres) ocupando uma área que já teve 3 milhões de habitantes de classe média.  O que é bom para as montadoras não é bom nem para Detroit. A cidade que perdeu o que as metrópoles têm de melhor: o encontro fortuito entre pessoas diferentes gerando idéias novas. Em Detroit ninguém se encontra porque os poucos que ainda trabalham no centro chegam pela autopista, estacionam na torre, andam por uma passarela até seu escritório e fazem o percurso contrário no final da tarde.

A cidade que popularizou o automóvel morreu pelo seu próprio veneno. A sede da Chrysler-Fiat, da General Motors e da Ford agoniza a olhos vistos. A olhos vistos não porque tanto a impressa norte-americana quanto suas primas pelo mundo a fora insistem em não mostrar o tamanho da desgraça de Detroit.

Isso nós precisamos urgentemente espionar para não repetir o mesmo erro.


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