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24 de outubro de 2014, 21h13

Assim como no filme O discurso do Rei, as hesitações de Dilma é que nos contam: ali está um coração valente!

DILMA E O DISCURSO DO REI!

Sônia Maria Rodrigues*, especial para o Maria Frô
Goiânia, 23 de outubro de 2014

Mais um debate se anuncia, o de hoje, dia 24 de outubro, a dois dias da finalização das eleições presidenciais deste ano. Muitos outros aconteceram, contabilizando os realizados no primeiro turno e, agora, temos os do segundo turno, protagonizados pelos dois primeiros escolhidos dentre tantos os que disputaram no primeiro turno.

A cada debate que se vislumbra ficamos sempre na expectativa da divulgação das pesquisas, como também da forma como cada um dos candidatos se apresentará, ou melhor, poderia dizer da performance, pelos seus desempenhos na forma de debaterem os temas que comparecem nas perguntas formuladas por eles ou também pelos jornalistas.

Mas, por que relacionar o nome de Dilma, candidata à reeleição pelo PT com um filme projetado há algum tempo nas telas dos cinemas, cujo título em português é O discurso do rei? Então, foi a partir do primeiro debate deste segundo turno, o do SBT, realizado no último dia 14 de outubro, uma terça-feira, que as cenas do filme foram aos poucos comparecendo, na medida em que lia os comentários a respeito da performance de Dilma, de seu desempenho, muito focados em constatações de que ela hesita e gagueja, disseminando, assim, uma ideia de que não foi bem no debate porque não tem boa dicção, eloquência etc. Isso percorre todas as mensagens postadas no facebook, como em vários artigos de Blogs, jornais etc. É justamente nessa constatação que pretendo colocar uma interrogação para assim tirá-la da vala do senso comum na qual ela vem se cristalizando desde as eleições de 2010.

Assim passo para o filme, O discurso do Rei, filme britânico de 2010, escrito por David Seidler, dirigido por Tom Hooper. Em que ele se encaixaria nessa discussão? Ora, é justamente o seu argumento! A história de um homem que fará um discurso importantíssimo para a nação, mas que é assombrado por uma gagueira que lhe acompanha desde a infância. O fato é que não é um homem qualquer, trata-se de alguém da nobreza britânica, o próprio Rei. Alguns dos elementos da história são recolhidos para constituir essa narrativa, pois trata-se do discurso lido pelo Rei George VI, da Inglaterra, em função de um pronunciamento que fez, após ser declarada guerra à Alemanha nazista.

A narrativa é entrecortada por cenas que remetem ao tempo antes da coroação, quando ainda era Príncipe Albert, Duque de York e culmina no dia em que ele lerá o discurso. Nas palavras do personagem, o Rei, ao amigo e “terapeuta” da fala, está a angústia e o medo de não conseguir se pronunciar. Assim ele diz: “quando eu falo é por eles [a nação], mas eu não consigo”. E quem é esse que o acompanha desde o fiasco de um pronunciamento no Estádio de Wembley até ao estúdio montado no Palácio para que ele ali realize a leitura do tão aguardado discurso? É Lionel Longue, ator australiano, morador de Londres, que se torna terapeuta da fala em função de uma demanda de tratamento por soldados traumatizados após o fim da Primeira Guerra Mundial.

O que do filme se pode retirar e conduzir para a bancada onde Dilma se coloca toda vez para debater com seus adversários? Justamente as cenas finais, logo após o pronunciamento, Lionel diz ao Rei que ele havia falado bem, mas que hesitara em algumas letras. A lembrança do filme no momento do primeiro debate foi exatamente a frase pronunciada pelo Rei em resposta à Lionel: “Tive que gaguejar um pouco para que soubessem que era eu!”

A marca da Dilma é essa, a de discursar com hesitações repetidas vezes. Para quem assiste pode ser angustiante, porque ficamos quase lhe completando as frases, dando-lhes palavras mentalmente. Por que não suportar essa condição? Se para nós, ficarmos assim em compasso de espera, por um tempo mínimo que seja, uma fração de segundo, entre uma palavra e outra, é penoso, como será para ela? Por que não pensar que sejam pontuações, ou melhor, as vírgulas que a fazem respirar? Contam que Clarice Lispector reclamava de seu editor quando mexia em suas virgulas, pois ali eram os buracos por onde ela respirava. Podemos também recorrer à Manoel de Barros. Evocar o seu poema Palavras e citar dele um fragmento: “Vem me dizer que eu desestruturo a linguagem. Eu desestruturo a linguagem? Vejamos: eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar de debaixo de mim”.

Essas palavras de Manoel de Barros nos ajudam a falar um pouco mais sobre a forma de Dilma, a cada debate, discursar, considerando que nela se constitui um testemunho de um tempo. E por quê? Porque as hesitações entre as palavras ou frases, nos colocam em um tempo de espera e faz com que uma palavra venha por debaixo para tirar o lugar da outra. No caso desse debate do SBT, foram duas as palavras forjadas para desestruturar a forma da Dilma se apresentar: “leviana e mentirosa”. As duas foram vociferadas para que lhe fosse tirado por debaixo o lugar da verdade.

Só que não! De onde viriam tais se abrirmos o retrovisor da história? Não estaria Dilma, ainda que entre hesitações, firme no propósito de testemunhar um tempo passado de ditadura militar e que dele ainda não fizemos a experiência, mas que por isso mesmo dele retornam traços, como que se atualizando nesse processo eleitoral?

Se quisermos ainda narrar a história que nos atravessou no passado, para que que não seja esquecida ou distorcida, de certo modo, teríamos que suportar esse tempo de espera que se abre entre as hesitações de Dilma, marcas de seu dizer, reconhecendo-as como lugares de onde provém a verdade de seu discurso e, ainda, nos encontrando com ela ali, por aqueles buracos, nos humanizando.
Assim como no filme, as hesitações de Dilma é que nos contam: ali está um coração valente! Isso que nos faz ir para as ruas e defender o voto, palmo a palmo, cantando, pintando as ruas de vermelho com as bandeiras tremulantes!

Depois de falar em história e testemunho, não há como não retornar a 1989, em uma zona apuradora de votos, no tempo em que as eleições se decidiam nas mesas apuradoras de cada zona eleitoral. Estava eu em uma dessas, onde se anulavam os votos de Lula por qualquer traço a mais para além dos limites do quadrado em que um “X” ali demarcado indicava a intenção do eleitor. Um repórter me chamou e pediu que desse uma entrevista porque os fiscais do PT sabiam falar melhor. Perguntou, então, o que estava fazendo ali e o que estava achando das apurações. Respondi-lhe, depois de hesitações, alguns balbucios, em cadeia nacional, o seguinte: “Fazendo história para o Lula ganhar”.

Desse modo, quero finalizar esse texto evocando aqui um conterrâneo de Dilma, de sua Minas Gerais, o Carlos Drummond de Andrade. Ele usou do dispositivo de endereçar-se à Cora Coralina, a quem queria demonstrar o seu apreço, através de uma escrita no jornal: “não tendo o seu endereço, lanço estas palavras ao vento, na esperança de que ele as deposite em suas mãos”. As que ele disse à Cora Coralina podem ser encontradas na contracapa de Poemas dos Becos de Goiás e Estórias mais, e as que gostaria de soprar ao vento para que plainem nas mãos de nossa presidenta, novamente candidata são essas: “seja Dilma nesse debate, nosso coração valente! No dia 26 de outubro estaremos fazendo história para Dilma ganhar!”

*Sônia Maria Rodrigues é Professora da Faculdade de Educação da UFG.

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