Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

07 de janeiro de 2011, 12h49

Castradora de desejos

Ele resistiu bravamente, não sem um grande stress, há quatro longos anos de solidão. Certo que às vezes uma companhia e outra de caráter fortuito o visitava. Mas, enfim, a companheira dos sonhos chegou: jovem, saudável, esbelta, com porte de rainha.

No começo ele fez a corte: deu voltas e voltas para examinar a amada nos mínimos detalhes. Fez investidas pouco sutis, desejando sofregamente sentir seu cheiro, seu gosto, sua textura. Tudo isso, não sem a ausência de algumas centradas na nova companhia. Talvez para deixar claro quem mandava no pedaço. Ela rapidamente se intimidou e curvou-se placidamente ao seu domínio. Talvez respeitando a lógica natural: chegou depois, era mais jovem, menor, enfim, a metade mais frágil da relação, melhor não abusar.

Não demorou muito para toda a situação se inverter: menos de seis meses, linda em seu desabrochar de fêmea o enlouqueceu de vez. Era de dar pena olhar como o cheiro dela, mais forte e denso o provocava, tirava-o do sério, fazia com que o pobre infeliz uivasse de desejo e intuitivamente lamentasse todas as vezes que a desprezou, intimidou-a. Ela fez-se de rogada, como das virgens, mesmo entre as mais insinuantes, é esperado.

A voyeur que vos escreve observou, não sem certo ar de solidariedade ao gênero, a formidável inversão. Entretanto, porque a mim restava a responsabilidade de cuidar desses dois amantes inconseqüentes e de seus frutos, para além de observar, também passei a agir. Aprendi com a experiência, pois paguei caro por ignorar as leis do ciclo natural: adolescente no cio, transa animalesca e um lindo filho como resultado.

Foi assim, depois dessa experiência traumática ocasionada pelo meu desavisado conhecimento, que como precaução, de tempos em tempos, eu perversamente os separava. Para meu castigo eles se revoltavam.

Amotinavam-se mesmo, fazendo-me pagar um preço altíssimo: dias e dias sem conseguir trabalhar, noites em claro ouvindo a canção do amor. Essa agonia de paixão e desejos interrompidos, de tão rotineira e insistente, fez-me perder o humor e a compaixão típica para com os amantes. Foi assim que hoje pela manhã tomei a decisão que tantas vezes adiei.

Ele parecia adivinhar o que minha mente perversa e desumana maquinava. Olhava-me com seus olhos penetrantes, visivelmente irritados e se recusava até mesmo a se aproximar de mim. Enfureci e uma força descomunal tomou-me. Era um misto de cansaço de quem acordou às 3 da matina e não conseguiu mais pregar o olho diante daquela corte revoltante e interminável, e quem sabe, de inveja por aquele amor tão simples, sem frescuras, sem senões (a não ser os que eu impunha). Resultado: agarrei-o à força, obrigando-o a me seguir.

Ela antes toda oferecida, dona da razão e que, literalmente, por entre as grades, esfregava na cara dele, em uma dança lasciva e irritante, todo o tesão que sentia, reafirmando-lhe com os olhos, o corpo e todo esplendor da ocasião– olha o que está perdendo–, igualmente se revoltou. Parece que entendeu com toda a clareza possível, que devido a esse amor escandaloso, eu como responsável sem colher os louros da loucura de ambos, iria retirar-lhes o poder. O dela, totalmente condicionado ao dele, perderia o efeito de encantamento e de danação. Desse modo, quando aquele cio infernal e invejável chegasse, ele a desprezaria para meu prazer, sono e sossego. Cheguei a sentir uma certa felicidade pela escolha: ao optar por ele como vítima de meu castigo, infligia a ela um castigo muitíssimo maior. Vitória sobre a Vitória.

Mas as coisas rapidamente mudaram de figura, percebi que meu contentamento era fugaz. Lembrava dos gritos dela quando eu o arrastava à força rumo ao matadouro e, enquanto tentava acalmá-lo diante do açougueiro, que me ajudaria nesse malévolo plano de castração do desejo de cópula dos amantes, disfarcei como pude. Conversava com ele com voz doce e manhosa, usada para a sedução. Mas em sua memória biológica, todo o afeto que ele sentia por mim estava esquecido e ele se revoltava ainda mais, frisando-me– sinta-se culpada, sua castradora de prazeres, devoradora da fertilidade, cruel e invejosa mulher!

Teve efeito: senti um nó no peito tamanho, uma angústia diante da injustiça que eu provocava. Meu tom de voz, e meu gesto insistente para secar o seu corpo exposto há três dias de chuva e revolta eram agora sinceros. Ele tomou a anestesia sob correntes, frisando-me no olhar carrancudo toda a minha despeitada traição.

Acompanhei sua agonia a resistir bravamente aos efeitos anestésicos. Ele corria pela sala feito cão danado, lastimando-se, amaldiçoando-me, como se a mim também desejasse a ausência de prazer para o todo o sempre.

Chorei diante de meu poder perverso de escolha, aos primeiros passos de suas pernas cambaleantes. Afaguei-o e com toda a sinceridade do meu coração, pedi-lhe desculpas…

Quase desisti do meu intento e no meu pensamento, presenciando aquela cena deprimente de um lindo macho em pleno vigor não conseguir sustentar-se sobre suas próprias pernas, pensei: se ao menos você usasse camisinha, se ao menos esse amor não fosse tão irritantemente escandaloso, se ao menos eu não tivesse que passar meses criando seus filhos, buscando novos responsáveis para tal inconseqüência… Falei a ele dos perigos do sexo sem pudor na chuva, no chão e confessei-lhe que o amava muito, apesar de não demonstrar cotidianamente. Disse-lhe que meu amor era tanto que, na impossibilidade de afeto maior, de acompanhá-lo aos passeios diários, de na tentativa de acalmar seu stress diário, fui eu que escolhi a sua parceira, que a trouxe para morar conosco, mesmo sem grande espaço na casa. Entretanto, diante do modo como ele passou a agir — embriagado de amor, sem se alimentar, prostrado na chuva por três dias seguidos, confinado, enredado, entregue aos encantos dela, eu tinha de pôr um fim nesta história. Não podia expulsá-la, porque o afeto a ela também era grande….

Finalmente ele adormeceu em meus braços. Ao olhar seus últimos instantes de resistência, senti pena e orgulho de tanta bravura.

Espero que ele se recupere logo e me perdoe. E torço para que ele se torne um rufião, que seus instintos biológicos, cravados na memória atávica permitam-lhe que ainda sinta desejo. Assim, poderá brincar e folgar sem que eu tenha de apartá-lo de sua amada e pagar um preço alto, para além de minha inveja pelos amores simples, diretos, sem complicação.

(Frô) 16/03/2005

PS: O Minho morreu há dois anos, em 2005 quando redigir esta crônica ele não apenas tornou-se um rufião, como no dia que voltou da vasectomia canina, cobriu a Vitória e meses depois descobri que o danado ainda conseguiu fazer um filhote. Hoje é o cão da minha irmã.

PS2. Esta é a Vitória meio amassada porque acabou de tomar banho :)

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