Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

20 de novembro de 2006, 15h17

Mais Consciência negra

Mastrangelo Reino/Folha Imagem: Cerca de 12 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, participaram da marcha em comemoração ao Dia da Consciência Negra, em São Paulo

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movimento

Mano Brown (líder dos Racionais MCs)
Manter-se na periferia ou crescer com a mídia? Para o líder dos Racionais, na estrada há 18 anos, a primeira opção é óbvia.

DENISE BRITO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA 20/11/2006
A descrição de uma realidade dura e crua, de pobreza e de discriminação pela polícia e pela sociedade são constantes nas letras do rap, como é o caso do pioneiro Racionais MCs. Em 18 anos de estrada, prestes a lançar o quinto CD e mantendo a mesma formação original, Ice Blue, Edy Rock, KL Jay e Mano Brown conseguiram uma posição ímpar no cenário do rap. Trata-se do único grupo que obteve projeção nacional mantendo-se à distância da grande mídia. Mano
Brown, 35, falou ao Folhateen sobre o fato de companheiros ingressarem na grande mídia e sobre outros temas ligados aos rumos do país.

FOLHATEEN – Qual a sua opinião sobre os colegas que fizeram contratos
com a grande mídia?
MANO BROWN
– Somos jovens cheios de vontade de vencer e, às vezes, somos arrogantes. Quando a mídia abriu as pernas e disse “vem”, a gente falou “não”. Mas, se hoje chegou o momento de alguns companheiros ocuparem a mídia, eu não vou oprimir a vontade deles.
Sou a favor da liberdade.
FOLHATEEN – Você se refere também ao Thaíde, que começou junto com vocês e hoje está numa minissérie da Globo ?
BROWN – O Thaíde não tem o pensamento igual ao nosso, mas temos mais coisas em comum do que diferenças. Ele conhece o rap, está na estrada há anos e conhece os espinhos. Cada um defende com amor as suas razões, e elas não são iguais. Porque os pretos não têm todos as mesmas idéias.
FOLHATEEN – Você apoiou o Lula nas eleições? Chegou a pedir voto?
BROWN
– Democracia é isso. Pedi voto para o Lula em shows. Fui pelo olhar e pelas idéias dele.
FOLHATEEN – Houve mudanças no panorama da vida na periferia nesses
últimos anos?
BROWN
– Eu não sei até que ponto conseguimos fazer esse tipo de análise. Vejo pequenas mudanças. Uma que me deixou contente foi um aumento do pequeno comércio nas ruas das favelas. Salões de beleza, pizzarias, locadoras, e os bares perdendo espaço. Acho que prefiro não ver as mudanças para não perder a ambição de fazer outras. Eu sempre quero mais.
FOLHATEEN – O que você gostaria de ver mudar?
BROWN
– Tenho sonhos românticos, com a população ouvindo música nas ruas, se dedicando a uma atividade dentro de seu próprio bairro, fazendo academia, cuidando do corpo, tendo uma boa alimentação… Mas isso tudo não está tão longe. Há metas próximas, como a divulgação da prática de esportes. O ser humano atrás da favela também pode ser sensível.
FOLHATEEN – O crescimento do rap atrapalha ou ajuda o movimento?
BROWN
– Quando você se impõe e passa a ser uma coletividade não é ruim; é bom para o rap. Ao mesmo tempo, os valores não são aqueles que se gostaria de difundir. Há muita valorização de roupas, aparência, cabelo. Ainda mais para nós, que somos pretos, se vestir melhor faz muita diferença. Mas não me agrada ver os irmãos escravos de marcas. É a escravidão do século 21. É ficar pondo comida na boca do monstro.
FOLHATEEN – Como você vê o alcance do discurso do rap?
BROWN – Esse discurso contra a elite foi defendido por toda uma geração. De 1988 até hoje, 2006. Algumas idéias foram insistentemente repetidas durante uma época, em palavras, em discos. Essa mensagem de vencer, de lutar, seja negro, tenha orgulho, não abaixe a cabeça, responda, estamos juntos. Como filosofia de vida, a primeira que aprendi e fielmente tentei seguir foi “se imponha, você não depende deles, muitos de nós já foram esmagados”.
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Roberto Price /Folha Imagem
O cantor, compositor e sambista Bezerra da Silva

Bezerra da Silva

“Gravo a realidade brasileira do povo faminto e marginalizado. Cada um entende de um jeito. O importante é vender. Artista bom é aquele que vende, segundo o mercado. Veja a frase “tem coca aí na geladeira”, frase que todo mundo diz, mas como é o Bezerra que canta, então sujou.”
(Folha de S.Paulo, 08.out.2000)

Partideiro número 1 dos morros cariocas, o pernambucano Bezerra da Silva é hoje o porta-voz de cronistas que  retratam uma realidade quase sempre cruel.

José Bezerra da Silva nasceu em Recife (PE), a 9 de março de 1938. Veio para o Rio de Janeiro aos 15 anos fugindo da fome e apenas com a roupa do corpo. Fez a viagem num navio que carregava açúcar.

Passou então a trabalhar na construção civil como pintor de paredes e tinha como endereço a obra no centro da cidade, onde exercia sua profissão. Foi nessa época, lá pelos idos de 1949, que enamorou-se de uma “dona” e foi morar com ela no morro do Cantagalo (zona sul do Rio).

Iniciado na música pelo coco de Jackson do Pandeiro, começou, em 1950, sua carreira como ritmista na Rádio Clube —tocava tamborim, surdo e instrumentos de percussão em geral. Suas primeiras composições, “O Preguiçoso” e “Meu Veneno”, foram gravadas por Jackson. Seu primeiro disco —um compacto— foi gravado, em 1969, pela Copacabana. Bezerra da Silva estudou violão clássico por oito anos e passou outros oito anos tocando na orquestra da TV Globo. É um dos poucos partideiros que lê música.

Como ele próprio explica, sua ligação com o mundo musical se deu por causa do “medo da fome”. Diz também que a única saída que tinha era “lutar por dias melhores”, pois “tinha dias que trabalhava e não comia”. Não se cansa de afirmar que saiu do ramo da construção civil porque achava que algum dia iria “virar uma escada, um tijolo, um saco de cimento”.

Cantor e compositor de verve ácida, Bezerra da Silva atira contra as injustiças sociais. Uma boa demonstração disso é a faixa “Partideiro Sem Nó na Garganta” do disco “Presidente Caô Caô”, na qual canta:

“Dizem que sou malandro, cantor de bandido e até revoltado
Porque canto a realidade de um povo faminto e marginalizado”,

ou então a faixa “Vítima da Sociedade” de seu disco “Malandro Rife”, na qual afirma:

“Se vocês estão a fim de prender o ladrão.
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho”.

Suas músicas são quase sempre de outros compositores ou então de parcerias que ele cultiva há muitos anos. Seus parceiros são poetas dos morros como 1000tinho, Barbeirinho do Jacaré, Baianinho, Em Cima da Hora, Embratel do Pandeiro, Trambique, Zé Dedão, Popular P., Pedro Butina, Simão PQD, Wilsinho Saravá, Rubens da Mangueira, Pinga, Dunga da Coroa, Jorge Laureano, Adelzo Nilto, Edson Show e uma imensa lista de outros ilustres desconhecidos que Bezerra faz questão de divulgar em seus discos.

Nas letras dos sambas desses compositores se expressam os conflitos sociais de uma população marginalizada. Tudo através de uma ótica bem humorada, mas também áspera. São letras com palavras afiadas, de gente que tem uma visão sociológica amadora, porém lutadora e inconformada.

Antigamente, Bezerra não gostava que o chamassem de pagodeiro. Dizia que “quando a música é feita por pobre, analfabeto ou crioulo, eles dizem que é pagode. Eu não aceito isso!”.

Atualmente, quando é questionado a respeito do novo pessoal do pagode, afirma que “o Sol nasceu pra todos, todos os colegas são bons. Cada um tratando de si. Eu acredito que o meio está pra todo mundo. Graças a Deus, muitos colegas estão fazendo sucesso. Um sambista carrega a bandeira do samba”.

Perguntado certa vez se achava que brancos não sabiam fazer samba respondeu: “isso é uma mentira, uma discriminação boba. Tudo depende da veia poética do sujeito. Você já imaginou se Deus deixasse eu fazer eu do jeito que quero, com a cuca que tenho? Eu seria verde, todo bonito. Ninguém ia ser igual a mim. Eu seria um sucesso, o cabelo de ouro, ia ser tudo comigo. Mas me fizeram um crioulo esquisito. Essa história de que branco não faz samba é mentira. E também tem crioulo que não faz samba. Artista nasce em qualquer lugar”.

Veja também:  Que novos Paulos de conversas afiadíssimas ocupem esse enorme vazio deixado por ele

Apesar de ser um campeão de vendas —seus mais de 25 discos já venderam aproximadamente três milhões de cópias—, Bezerra da Silva é, ainda hoje, excluído das salas VIP das emissoras de FM. Uma prova disso é que ele só tocou no Canecão em 1996, depois de mais de 20 anos de uma carreira de consecutivos sucessos.

Macumbeiro, filho de Ogum e assíduo frequentador do terreiro do Pai Nilo, em Belfort Roxo, Bezerra da Silva é o rosto de uma parcela do povo brasileiro que a mídia insiste em esconder. Já virou tese de doutorado e livro —”Bezerra da Silva: Produto do Morro”, publicado pela Jorge Zahar editora—, mas permanece longe de programas televisivos que preferem exibir os “novos fenômenos de vendagem” que desaparecem tão rápido quanto surgem.

Renato Roschel (do Banco de Dados da Folha)
PARA TER ACESSO ÀS LETRAS DE BEZERRA DA SILVA, CONSULTE:

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Uma boa leitura para analisar as estatísticas expostas aqui:

O Estado de S.Paulo, caderno Aliás, 19/11/06.

O mercado é assimétrico e perverso. Mas quem vê?

Na pauta das políticas públicas, as desigualdades raciais passam batido

Marcelo Paixão*

Nessa semana, o IBGE divulgou os dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do período 2002-2006, abordando as diferenças raciais no mercado de trabalho nas seis principais Regiões Metropolitanas brasileiras. Daquele levantamento vemos que no mercado de trabalho metropolitano de nosso país existem fortes disparidades separando pessoas de peles claras e escuras em termos salariais, educacionais e ocupacionais.

O rendimento médio do trabalho dos negros (R$ 660,45) representava metade do rendimento médio das pessoas brancas (R$ 1.292,19). Ao longo daquele período de quatro anos a escolaridade média de um afrodescendente vinculado ao mercado de trabalho permaneceu 1,9 ano inferior do que o das pessoas do outro grupo de raça/cor. Os indicadores disponibilizados igualmente revelaram uma nítida discrepância em termos da qualidade dos vínculos dos grupos raciais ou de cor no mercado de trabalho metropolitano brasileiro. Se na População em Idade Ativa daquelas metrópoles os negros respondiam por cerca de 41% do contingente total, esse mesmo grupo representava 50,8% da população desempregada, 57% dos ocupados no serviço doméstico, 55,4% dos engajados no setor da construção civil.

Apesar das visíveis disparidades entre brancos e negros, nem sempre os analistas do mercado de trabalho entendem tais mecanismos como sendo causados pela discriminação racial. Uma das variáveis que costumam ser mobilizadas para a explicação desse fenômeno vem a ser as diferenças médias em termos de anos de estudos. Outros vetores explicativos comumente mobilizados são as diferenças das regiões geográficas de maior concentração entre brancos (Sul-Sudeste) e negros (Norte-Nordeste), os vínculos diferenciados nos distintos ramos de ocupação e os efeitos derivados da segmentação do mercado de trabalho de nosso país (setores formal e informal). Assim, pode-se ver que a mobilização preferencial dessas dimensões retira do âmbito das relações raciais, tal como praticadas em nosso país, o principal vetor determinante das assimetrias encontradas nas formas de vínculos de brancos e negros no nosso mercado de trabalho.

Alternativamente, quando observamos alguns indicadores com mais detalhes, vemos que aquelas hipóteses são passíveis de críticas. Por exemplo, as diferenças de remuneração no mercado de trabalho brasileiro são maiores justamente entre os trabalhadores que ao menos completaram o 2º grau (diferença de 149% entre brancos e negros). Do mesmo modo, a escola acaba sendo uma instituição que abriga com menos denodo os negros do que os brancos. Senão, como explicar o fato de que entre a população adulta daquelas regiões o percentual de trabalhadores negros com ensino médio completo ser de 28,5%, frente a 45,9% dos brancos? Como entender o motivo pelo qual entre as pessoas brancas com 18 anos ou mais a taxa de freqüência ao ensino superior (25,3%) ser, proporcionalmente, quatro vezes superior à mesma taxa entre os afrodescendentes (8,2%)? Também não é incomum verificarmos explicações que apontam serem essas últimas diferenças causadas pelas assimetrias das condições sociais. Ou seja, os afrodescendentes estudariam menos por serem mais pobres. Ora, por engenhosa que seja essa tentativa de explicação, mais uma vez nos enredamos em um raciocínio que não fecha: as diferenças de remuneração entre brancos e negros são causadas pelas assimetrias em termos de anos de estudos, que por sua vez são causadas pelas assimetrias de remuneração. Nesse caso, parece que estamos diante de uma relação de causalidade de tipo circular que, ao final, parece não conseguir explicar nem as diferenças de remuneração e, tampouco, das médias de anos de estudos entre as pessoas de diferentes raças/cores em nosso país.

Também as explicações de ordem geográfica padecem do fato de não esclarecer os motivos pelos quais as diferenças raciais de remuneração se fazerem presentes em rigorosamente todas as regiões do país. Os demais vetores explicativos de ordem estrutural, como a heterogeneidade e segmentação do mercado de trabalho, quase sempre deixam uma singela pergunta por ser respondida: por que os negros encontram mais facilidade de ocupação justamente nos ramos de atividade mais precários?

Quando apontamos que as diferenças raciais entre brancos e negros no mercado de trabalho brasileiro são geradas pela dinâmica presente do modelo brasileiro de relações raciais, isso não implica que estamos mobilizando apenas um único fator determinante para a explicação das assimetrias verificadas. De fato, é notório que as grandes empresas aplicam práticas de contratação e promoção de pessoal que não raras vezes levam em conta fatores de ordem racial ou de cor. Esse seria um fator discriminatório típico. Por outro lado, tal aspecto não reduz toda a p
roblemática.

É necessário observar o processo de construção de desigualdades raciais em seus aspectos globais envolvendo os motivos pelos quais os negros apresentam piores índices educacionais e de aproveitamento escolar. Por que as áreas em que vivem predominantemente são preteridas em termos de investimentos públicos e mais expostas à violência? Por que ocorre um processo de naturalização dos vínculos dos afrodescendentes com ocupações piores remuneradas e prestigiadas? Finalmente, e essa talvez seja a pergunta mais importante de todas, por que essa questão, de evidentes implicações sociopolíticas, é uma notória ausente da formulação das políticas públicas e das agendas de estudos acadêmicos?

Em suma, o modelo brasileiro de relações raciais consiste em práticas de congelamento de assimetrias raciais. Tal padrão consiste na geração de um imaginário coletivo que passa a considerar natural a interminável reprodução das desigualdades entre os grupos de raça/cor, na invisibilidade das demandas sociais dos contingentes discriminados e na indefinida postergação das ações do poder público no sentido de sua superação. Tais efeitos, quando postos à luz dos indicadores do mercado de trabalho, denotam ser evidentemente perversos, não somente contra os negros e negras brasileiros, mas para toda nação no seu conjunto que, destarte, acaba aproveitando de forma notoriamente insuficiente o potencial criativo de metade de sua população.

*Marcelo Paixão é professor do Instituto de Economia
da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Um pouco de história do 20 de novembro

O Estado de S.Paulo, caderno Aliás, 19/11/06.
Uma história de subversivos que não se imaginavam como tal

Eles fugiam de complicações com autoridades. Ainda assim, desbancaram o 13 de maio

Veja também:  Que novos Paulos de conversas afiadíssimas ocupem esse enorme vazio deixado por ele

Roldão Arruda

Em São Paulo, no Rio e em outras 222 cidades do País comemora-se amanhã o Dia da Consciência Negra. É um feriado recente do ponto de vista oficial e de significado desconhecido para a maioria das pessoas. A história não oficial, porém, é longa e recheada de surpresas. Uma delas é que o berço do feriado que desbancou o dia 13 de Maio foi o Rio Grande do Sul – Estado quase sempre apresentado como terra de gente branca e loira, descendente de alemães e italianos. Outra surpresa: trata-se de uma história de subversivos que não se imaginavam subversivos e que agiam em plena ditadura militar.

O ano de 1971, marco zero do Dia da Consciência Negra, foi um dos mais pesados dos anos de chumbo. O general Emilio Garrastazu Médici, por acaso um gaúcho, mandava e desmandava no País e o tempo andava tão fechado que, ao saber que em Porto Alegre um grupo de negros se reunia para discutir a história de Zumbi dos Palmares, o serviço de inteligência do Exército mandou ver o que era. Quis saber se tinha ligação com a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, ou VAR-Palmares, movimento guerrilheiro que acabou desmantelado naquele ano.

Foram os tais negros – que não tinham nada a ver com a organização clandestina e fugiam de complicações com as autoridades – os idealizadores do feriado de amanhã. Não chegavam a uma dúzia, entre universitários e jovens recém-formados, e se reuniam na Rua da Praia, oficialmente Rua dos Andradas, na época festejada área de circulação de negros, no centro de Porto Alegre.

Paravam diante do prédio da Casa Masson, revendedora de jóias e relógios, hoje ocupado por uma filial das Casas Bahia, e lá ficavam, trocando figurinhas sobre namoros, filmes, clubes de futebol e política. Um dos mais assíduos e animados era o poeta e professor Oliveira Ferreira da Silveira.

Ele conta que, apesar da sombra da ditadura, o debate sobre as grandes questões nacionais fervia e refervia. Foi por aqueles anos, um pouco mais à frente ou para trás, que ele ouviu, em debates na PUC de Porto Alegre, as vozes de personalidades como o pensador católico Alceu Amoroso Lima e os sociólogos Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e Florestan Fernandes.

Oliveira fala baixo e pausado e, fora os cabelos brancos, não aparenta a idade de 65 anos. Dono de memória admirável, dessas que permitem ao dono derramar versos e versos no meio de uma conversa, dos mais diferentes autores negros, do cubano Nicolás Guillén ao brasileiro Solano Trindade, sem esforço nenhum, como se fosse uma respirada mais longa, ele guarda com riqueza de detalhes os fatos da época. Recorda que às vésperas do Dia da Abolição, o 13 de Maio de 1971, o grupo enveredou para uma discussão animadíssima sobre o significado daquela data. Ou falta de significado, pois ali era unânime que os negros não tinham o que comemorar. Afinal, eram vítimas de discriminação em qualquer lugar do País.

O mais exaltado era Jorge Antonio dos Santos, o Jorge de Xangô, que fazia teatro e era uma espécie de animador cultural na comunidade negra. Mas os outros não ficavam atrás. Dois anos antes, Silveira escrevera um poema, depois publicado em livro, no qual dizia: “13 de maio traição/ liberdade sem asas/ e fome sem pão.”

Na semana passada, conversando com o repórter nas imediações da Rua dos Andradas, entre as passagens suspensas e os arcos do grandioso Hotel Majestic, hoje transformado no Centro Cultural Mário Quintana, numa homenagem ao poeta que lá viveu durante anos, o professor explicou: “Nós negros éramos instados a comemorar o 13 de Maio como nossa grande data. Mas não havia motivo para comemorar. A Lei Áurea aboliu a escravidão, mas não adotou providências para absorver socialmente a grande massa de escravos. Não se fez nenhum movimento para dar terras a essa população. Pelo contrário, eles foram buscar mais migrantes europeus, num esforço de embranquecimento do País.”

E então criou-se a dúvida: se não era 13 de Maio, o que seria? Na discussão alguém apareceu com um fascículo da série Grandes Personagens da Nossa História, lançada no final dos anos 60 pela Abril Cultural.

Era o fascículo sobre Zumbi, líder dos quilombos de Palmares e símbolo maior da resistência negra ao escravismo. Lá estava registrado que o assassinato do guerreiro ocorrera no dia 20 de novembro de 1695, em meio ao ataque da última das expedições enviadas para aniquilar o reduto negro formado por quase dez quilombos, na então capitania de Pernambuco.

Foi o estopim. E se fosse comemorado o 20 novembro? Se, em vez da bondosa princesa, o negro insurgente?

O grupo saiu à caça de livros históricos para reunir mais informações sobre o episódio e, principalmente, confirmar se a data da morte estava correta. Uma fonte valorosa foi um livro que Silveira mantém até hoje em sua estante: As Guerras nos Palmares – Dados Sobre a Campanha – Domingos Jorge Velho e a Tróia Negra. Escrito por Ernesto Ennes e publicado na década de 30, era uma obra rica em documentos oficiais, que confirmaram o 20 de novembro. A ironia é que o objetivo de Ennes não foi o de ajudar os negros, mas exaltar os bandeirantes que comandaram as expedições de extermínio.

Entusiasmada com seus achados, a rapaziada decidiu formar um grupo de estudos. Silveira estava entre os quatro que toparam a empreitada. Formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com especialização na língua francesa, ele dava aulas em escolas da rede pública e achava que estava em falta com a militância do movimento negro desde a leitura, anos antes, do livro Reflexões Sobre o Racismo, de Jean Paul Sartre. “Eu estava atrasado”, conta o professor, cujo pai era branco e uruguaio e a mãe, negra e nascida numa comunidade rural de Rosário do Sul,no centro-oeste do Estado.

O segundo integrante do grupo de estudos era Antonio Carlos Cortes, estudante de Direito que ouvira muito sobre racismo em casa por causa do pai, que, embora tivesse boa formação educacional e falasse inglês, nunca conseguiu ir além do cargo de contínuo numa repartição pública. Ainda faziam parte do grupo Ilmo Silva, estudante de Economia, que cursara o ginásio numa escola particular onde era o único negro; e Vilmar Nunes, estudante de Administração e funcionário público.

Em 20 de julho de 1971 os quatro oficializaram a formação do Grupo Palmares e acertaram a realização de três atividades públicas. As duas primeiras foram homenagens a Luiz Gama e José do Patrocínio, negros e precursores da luta abolicionista.

A terceira e mais importante foi programada para 20 de novembro. Seria no Clube Náutico Marcílio Dias – que não tinha nada de náutico, mas era um dos mais animados dos quase dez clubes de negros que funcionavam em Porto Alegre.

Alguns desses clubes tinham se constituído como grupos de ajuda. Entre outras coisas providenciavam enterros dignos para os mais pobres. Outros eram clubes sociais, para bailes e blocos carnavalescos, necessários numa cidade onde os clubes de brancos recusavam pessoas de pele negra.

No fundo, eram espaços de resistência contra a discriminação. O mais antigo, o Sociedade Beneficente e Cultural Floresta Aurora, criado em 1872, antes da Lei Áurea, funciona até hoje.

E aqui vale um parêntese para dizer que a importância desses clubes no Estado já foi tão grande que a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Sepir) decidiu escolhê-lo para abrigar o 1.º Encontro Nacional de Clubes Negros, previsto para o próximo fim de semana em Santa Maria, no centro do Estado.

Voltando a 1971: dias antes do encontro do 20 de novembro, um jornal porto-alegrense anunciou que seria uma homenagem dos “negros do teatro” a Zumbi. Não deu outra: no dia seguinte, um agente da Polícia Federal bateu no clube e advertiu que, se fosse teatro, era preciso submeter o texto à censura prévia.

Veja também:  Que novos Paulos de conversas afiadíssimas ocupem esse enorme vazio deixado por ele

“Para não causar complicação, escrevemos um roteiro da apresentação que faríamos sobre Zumbi e levamos até a PF”, conta Silveira. “Leram, aprovaram e aplicaram o carimbo, sem o qual não se podia fazer nenhuma exibição. Guardo a página carimbada até hoje.”

Receoso, o grupo adotou o mesmo procedimento em todos os eventos que promoveu a partir dali: escrevia o roteiro e saía atrás do carimbo da PF. “O agente encarregado me recebia bem, com simpatia. Até nos cumprimentávamos na rua.”

Na data marcada, um sábado à noite, apareceram 12 pessoas, somando aí os integrantes do Palmares. Ficaram reunidas durante duas horas no Náutico, que funcionava numa casa já demolida, na Avenida Praia de Belas, quase esquina com a José de Alencar. A maior parte do tempo foi tomada com uma apresentação sobre Zumbi e sua importância para o movimento negro. Foi um sucesso.

Ao fundo, sem se juntar ao grupo, um senhor branco assistiu em silêncio. Ao final foi se apresentar. Era o historiador gaúcho Décio Freitas, respeitado estudioso de insurgências populares, que se exilara no Uruguai após o golpe de 1964.

Recém-chegado do exílio e ainda temeroso de aparecer em público, ele fora até o Náutico para presentear o grupo com um livro que acabara de lançar em Montevidéu. Chamava-se La Guerrilla Negra e tinha Zumbi como tema.

No ano seguinte, o grupo, engrossado por novos associados, fez nova comemoração no 20 de novembro. Dessa vez ganhou um empurrão da Revista Zero Hora, que publicou um encarte de sete páginas chamando a atenção para a questão negra.
Em 1973, a programação foi mais extensa, com show musical, exposição de obras de artistas plásticos negros e uma palestra de Décio Freitas.

Aos poucos os eventos gaúchos atraíram a atenção da mídia nacional e de grupos negros de outros Estados, que também passaram a adotar o 20 de novembro. Finalmente, em 1978, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial adotou a data, batizando-a de Dia Nacional da Consciência Negra. Mais recentemente os poderes públicos abraçaram a idéia, dando origem ao feriado de amanhã, celebrado principalmente em cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso.

Em uma dissertação de mestrado apresentada há pouco no programa de pós-graduação em história da PUC de Porto Alegre, o jornalista negro Deivison Moacir Cezar de Campos sugere que os rapazes do Palmares foram subversivos. Porque fizeram um contraponto ao discurso oficial do regime militar, que exaltava as igualdades proporcionadas pela democracia racial e via no debate sobre o tema um fator de distúrbio.

“Eles buscavam o reconhecimento das diferenças étnicas e das condições desiguais de acesso à cidadania e a integração socioeconômica”, diz a tese. E mais: “Colocaram-se contra o oficialismo ao defenderem a substituição do 13 de Maio, o Dia das Raças, pelo 20 de Novembro, Dia do Negro; ao proporem uma revisão da historiografia; ao afirmarem um herói não reconhecido.”

Silveira ainda não leu a dissertação. Mas prometeu fazê-lo brevemente. Será num intervalo entre os passeios que ainda gosta de fazer pelas ruas centrais de Porto Alegre, onde descobriu Zumbi. A propósito, uma última pequena surpresa dessa história: na capital gaúcha amanhã não é feriado.
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Folha de S.Paulo, seção Opinião-Tendências/Debates, 20/11/06.

TENDÊNCIAS/DEBATES

Consciência se faz com educação

JOSÉ VICENTE

Os motivos de Zumbi continuam atuais e exigindo a mesma capacidade e a mesma disposição de luta.
A educação é a nossa arma.

CAROS LEITORES , é com grande alegria que compartilho minhas emoções nesta data muito especial.
Nossa nação, em especial a partir dos anos 90 do século passado, tem compreendido a importância histórica de Zumbi dos Palmares como um ícone do que ele foi e tem sido para a trajetória do negro e de todos os brasileiros, inscrevendo seu nome no panteão dos heróis da pátria, tornando feriado no Estado do Rio de Janeiro e na cidade de São Paulo, entre outras, a data do aniversário de sua morte, denominada como Dia Nacional da Consciência Negra.
Os motivos de Zumbi continuam atuais e exigindo a mesma capacidade e a mesma disposição de luta. Trilhamos novos e inéditos caminhos para a condução dessa nova etapa e escolhemos como arma a educação. Na certeza de leitores cônscios, não citarei nem um único índice negativo que diga respeito aos negros brasileiros. Hoje é dia de festa, de vitória, de rememorar o herói que há mais de 300 anos é lembrado, contado e cantado na casa grande e nas senzalas.
Concordo com os que advogam que os vários espaços de poder, prestígio e status social das instituições e das organizações sociais tendem a funcionar melhor quando incorporam pontos de vista diferenciados dos diversos grupos que compõem a população. O que é simbólico é real. Um negro ou uma mulher podem, sim, imprimir um novo olhar, um novo enfoque, uma nova expressão do espírito e da face da nação.
Por todo o país, pessoas e instituições públicas e privadas têm trabalhado para descobrir formas novas e desenhar iniciativas que, de modo efetivo, possam fazer uma condução eficiente e objetiva da inclusão, qualificação e valorização do negro.
Nós, da Afrobras da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares, também estamos fazendo nossa parte. Hoje estamos presenteando todos os brasileiros com a realização do Troféu Raça Negra, numa verdadeira celebração à vida e ao valor do cidadão e em agradecimento a todos que contribuem para tornar realidade efetiva e perene esses valores. Autoridades, personalidades, artistas e pessoas comuns do país e do exterior estarão juntos à mesma mesa e de mãos dadas, elevando um brinde à força e à raça do negro brasileiro.
Com a Fundação Bradesco, estaremos mais uma vez impulsionando a crença do conhecimento como libertador de mentes e corações, entregando para a cidade de São Paulo, no bairro da Luz, sede da Unipalmares, mais um centro de inclusão digital.
Certamente toda a comunidade desse lugar castigado da cidade irá auxiliar a fazer-se uma nova luz.
A Unipalmares, com o inestimável apoio dos bancos Itaú, Bradesco, Real, Citibank, HSBC, Safra e Santander, comemora seus 300 jovens trainees de executivo júnior que estão tornando a av. Paulista muito mais bonita e colorida, e essas instituições, mais alegres e com cara de Brasil.
Encontrar universitários afrodescendentes de cabeça erguida, circulando sem constrangimento nem receio pelos corredores de cada vez mais universidades e das maiores e mais importantes empresas do país nos faz crer na nova realidade que, timidamente, começa a ser desenhada e consolidada -mais, já inicia seu processo de reprodução. A luz no fim do túnel já se deixa vislumbrar.
Os caminhos enveredados por todos aqueles que, ao longo de toda a história, procuraram construir um protagonismo para o negro brasileiro sempre estiveram integrados e compreendidos na indispensabilidade da educação.
Por causa dessa convicção, clamamos pela união, a fim de nos juntarmos em uma verdadeira usina de solidariedade em prol da educação como o veículo único de realização da consciência e do valor do ser humano, dos seus sonhos, das suas conquistas, da sua felicidade. Por isso, devemos ser todos pela educação. A educação liberta, a liberdade educa e, sem educação, jamais haverá liberdade.
Seguiremos convictos e certos dos novos tempos que estamos conformando. Democracia é a possibilidade de convívio na diferença, e república é bem comum, coisa de todos.
Aprendemos desde sempre a lutar e, agora, estamos prontos, mais fortes e com extrema disposição para, definitivamente, ajudar a construir uma nova história de protagonismo, cujo legado deverá ser de novos e promissores horizontes às gerações que nos sucederão.
Teremos todos novos moinhos a desafiar nosso empenho e nossa imaginação na direção da construção da conscientização que permita alcançar o Brasil justo e igualitário de que os negros precisam e do qual todos os brasileiros necessitam. Não nos faltarão energia, coragem ou vontade, pois a memória de Zumbi estará sempre no meio de nós.
JOSÉ VICENTE , 47, advogado e sociólogo, é reitor da Unipalmares (Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares) e presidente da Afrobras (Sociedade Afro-Brasileira de Desenvolvimento Sociocultural).

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