Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

08 de novembro de 2008, 01h40

Nilma Bentes comenta o texto sobre Caetano

Esse belo e singelo texto da militante negra Nilma Bentes sintetiza uma enorme força. Reproduzo-o aqui junto com a sua mensagem provocada pelo meu texto nesta postagem.

Fico feliz por sua mensagem. Ouçamos mais Nilma que as bobageiras caitanescas.


CONSCIÊNCIA NEGRA
TEXTO: Raimunda Nilma de Melo Bentes

” Ter consciência negra, significa compreender que somos diferentes, pois temos mais melanina na pele, cabelo pixaim, lábios carnudos e nariz achatado, mas que essas diferenças não significam inferioridade.


Ter consciência negra, significa que ser negro não significa defeito, significa apenas pertencer a uma raça que não é pior e nem melhor que outra, e sim, igual.


Ter consciência negra, significa compreender que somos discriminados duas vezes: uma, porque somos negros, outra, porque somos pobres, e, quando mulheres, ainda mais uma vez, por sermos mulheres negras, sujeitas a todas as humilhações da sociedade.


Ter consciência negra, significa compreender que não se trata de passar da posição de explorados a exploradores e sim lutar, junto com os demais oprimidos, para fundar uma sociedade sem explorados nem exploradores. Uma sociedade onde todos tenhamos, na prática, iguais direitos e iguais deveres.


Ter consciência negra, significa sobretudo, sentir a emoção indescritível, que vem do choque, em nosso peito, da tristeza de tanto sofrer, com o desejo férreo de alcançar a igualdade, para que se faça justiça ao nosso Povo, à nossa Raça.


Ter consciência negra, significa compreender que para ter consciência negra não basta ser negro e até se achar bonito, e sim que, além disso, sinta necessidade de lutar contra as discriminações raciais, sociais e sexuais, onde quer que se manifestem. “

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Carta de Nilma, provocada pelo texto Caetano, cada dia mais gagá, quer branquear Obama

Sei que alguém tem de fazer isso: ver, ler, ouvir as coisas que o Caetano Veloso vem ´fazendo´ contra nossa luta, mas, confesso, tenho me poupado disso, pois me invade uma indignação tal, que me causa mal. Evidente que não só ele (o Ferreira Gullar, e outros, também; pelo menos uma pessoa dos 113 já se foi…).


A partir de certa época me chamou a atenção o enorme grau de racismo da maioria dos brancos baianos (Salvador, mais especificamente), pois, talvez diferentemente dos brancos de outros Estados, os baianos brancos/as são PRATICAMENTE OBRIGADOS/AS a conviver com a população negra (mesmo que só nas suas cozinhas, nas portarias de seus prédios, nas garagens, etc.). Isso, parece, torna Salvador uma cidade um tanto mais peculiar que outras, até porque, como foi a primeira capital do Brasil, para lá fora levados africanos (creio) de todas as etnias ´subjugadas´ no continente africano. Isso, talvez , torne Salvador um local onde a diversidade africana é mais diversa, então (parece), cria mais dificuldade à hegemonia integral dos/as brancos/as.


Isso é um tanto diferente do RJ, onde o ap
artheid (de moradia, pelo menos; Av. Atlântica, Vieora Souto, etc), é mais visível (soube que no bairro da Laranjeiras, nem ´as/os´ empregadas/os domésticas/os são negros). Diferente também de São Paulo onde apesar de ter o maior contingente de negros/as do país, proporcionalmente, são quase insignificantes, até porque estão ´diluidos e de certa forma mimetizados´ com o ´ser paulistano´ (capital).


Em Minas, o ´recato´ é ainda maior, talvez, por ser um Estado central (sem mar), e por ter tido um dos mais cruéis ´tipos´ de escravismo – trabalho em minas debaixo da terra, senzalas absolutamente desumanizadas, etc.
Assim , os/as baianos brancos/as (por terem de ´engolir´ a presença de negros/as) tentam encontrar formas de ´não perder o eurocentrismo jamás´. Então, tal como fez (diz) Monteiro Lobato, alguns tem seus ´negros/as de estimação´ e isso já basta para não serem considerados racistas (acham eles/as).

Por outro lado, para se desenvolver o máximo de criatividade, qualquer pessoa deve o mais livre possível (não acredito em liberdade, na amplitude que a palavra-conceito requer), e, creio que é isso que o Caetano Veloso (CAVEL) tenta experimentar – ele tem músicas lindas, de fato. Porém, ele está apeado a seus racismo intrínseco/de ´essência´ – a música Haiti é dele e do Gil, e não sei quem fez o que (letra/música), mais dois meses depois de lançá-la o CAVEL declarou que aquela não situação (em Salvador) já havia sido mudada para melhor. Ora, dois meses????

Creio que com relação ao CAVEL e outros, o movimento negro deve tomar uma ATITUDE! Fazer protestos em frente a seus shows, nem que isso possa parecer antipático ao público em geral.

Temos de ´chamá-lo de racista ´meeeeeemo´, além disso, temos de fazer uma campanha internacional divulgando isso. Uma pessoa não deixa de ser racista só porque tem três ou quatro amigos negros, ou por ter se casado com negra/o; esse tipo de branco só aceita ´aquelas´ pessoas que ele ´escolheu´ para álibi de seu não racismo. Falta para nós, coragem de enfrentar certa situações.

Soube por um amigo, que certa vez ele e a esposa foram assistir um show do Ray Charles (eram loucos por ele, e a oportunidade era ímpar) e quando chegaram lá foram convencidos a não entrar porque o Ray Charles tinha ido cantar na África do Sul (no tempo do apatheid).

Pois é, ´sei que temos sido o que temos sido´ (“como uma pessoa se torna o que é”-N), inclusive ´aceitando´ o tal ´racismo cordial´, mas, há de haver um limite. Creio, sinceramente, que o CAVEL vai acabar ´pirando´ de verdade.

Faz tempo que não compro, não vejo, não escuto, nada do CAVEL e, se tiver oportunidade, mesmo que vá parecer só uma ´transloucada´, farei um protesto diante desse euro-brasileiro canalha.

A diferença entre pessoas do movimento negro e pessoas negras (em geral) é que nós devemos ter mais coragem, que elas e fazer coisas que até as desagradem, mas que, para alguns dos descendentes delas, venha a fazer sentido mais tarde.

Saudações ´enraivecidas´ , mas, negritadas
Nilma Bentes
Belém-Pará-Amazônia-Brasil

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