Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

14 de maio de 2010, 17h02

Receita: como se recicla estigmas sociais por meio da ludicidade

Recebo pelo twitter o link do Observatório das Favelas e me deparo com um artigo que analisa um jogo no qual a pobreza é igual a violência; os favelados são bandidos, bêbados, criminosos, membros de gangue; a favela é vista como o locus do terror, a violência é transformada em espetáculo e para interagir os jogadores devem mobilizar o que tem de pior dentro de si….

Sem comentários.

Só um aviso aos conservadores cativos do MariaFrô: o título é uma ironia.

Debate – 14/05/2010 14:32
Favela virtual
Por Rosilene Miliotti

Lançado em abril deste ano, o Favelado Game é um jogo virtual em que os participantes devem, supostamente, atuar como favelados. Trata-se de uma versão do Mendigo Game que foi inspirada nas favelas cariocas. Entre as etapas que compõem o jogo, o internauta pode ficar bêbado, cometer crimes e formar gangues nas ruas dos 75 bairros da cidade. O objetivo final é tornar-se dono do Maracanã.

O jogo foi desenvolvido há três anos por dois jovens alemães que, a princípio, pensavam em Hamburgo como locação. Posteriormente, eles criaram versões para Paris, Londres, Varsóvia, Madri, Istambul e Rio de Janeiro. Na página do Favelado Game, a empresa alemã responsável pela venda do jogo informa que: “não se propõe a retratar a realidade e é importante notar os elementos satíricos como duplo sentido, exagero, ironia e contradições”.

Pedro Strozenberg, do  ISER

Pedro Strozenberg, do ISER

Para Pedro Strozenberg, do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e do Centro de Mediação Comunitário do Chapéu Mangueira e Babilônia, é difícil dissociar a mensagem transmitida dos preconceitos e estereótipos que já existem.  “É preciso sensibilidade dos brasileiros para perceber o que está envolvido na veiculação de imagens estigmatizadas sobre as favelas, principalmente que esses locais são locais de moradias das pessoas sérias e não necessariamente envolvidas com o tráfico”, afirma Strozenberg. Ele ainda ressalta que é papel dos meios de comunicação difundirem visões sobre a favela para além destes estigmas. “É importante buscar veicular informações e reportagens que ultrapassem preconceitos e o senso comum”, sugere.

O geógrafo Jorge Barbosa, professor da UFF e coordenador do Observatório de Favelas, é mais enfático em sua avaliação. Para Barbosa, o jogo revela apenas preconceitos: “é uma versão que desrespeita o significado da humanidade. Reduz os seres humanos a condições de barbárie como mediação para a realização de objetivos igualmente desprovidos de significados plenos para vida em sociedade”, diz. Além disso, ele afirma que o jogo reproduz leituras conservadoras que associam a pobreza à violência. “Favelado Game é uma representação que contribui para preservar estigmas sociais, reforçando a ideia da existência de uma cidade civilizada, em face de uma outra cidade: onde imperam a desordem, a ilegalidade e a brutalidade”, lamenta Barbosa.

Na mesma linha de Barbosa, Strozenberg vê no jogo uma reafirmação das fragilidades existentes na relação favela e asfalto. “A vida dos moradores da favela é afetada por muitos preconceitos, pois os mesmos são encarados sob uma ótica redutora das suas infinitas possibilidades de vida. É importante afirmar que o jogo pode interferir, de forma negativa, na vida desses moradores. Vejo que esse game é oportunista e desrespeitoso, não apenas com os moradores de favela, mas com a cidade”, afirma ele.

A violência como espetáculo

Uma das telas do Favelado Game

Uma das telas do Favelado Game

O Favelado Game foi considerado o melhor jogo de browser em 2008 e tem mais de três milhões de jogadores registrados. Hoje, no dia 14 de maio, somente no Rio de Janeiro, a página contava com mais de 73 mil jogadores registrados. Destes, mil estavam conectados e jogando no período da manhã. Barbosa atribui o aparente sucesso do jogo ao processo de espetacularização da violência. “A violência é tornada como um espetáculo para ser consumido por meio de objetos, instrumentos e ações que, aparentemente, podem trazer sensações de segurança como punição aos que representam ameaça”, explica o professor.

Na visão de Pedro Strozenberg o jogo é atraente porque se apropria de algo que está no imaginário das pessoas e que é permanentemente explorado pela grande mídia como símbolo de medo e ameaça aos habitantes da cidade. “O game inverte a condição de exposição, vítima do temor e coloca a pessoa na condição de agente causador do medo. Creio que esta alternância de papéis estimula os sentimentos de vingança e agressividade guardadas no imaginário de cada pessoa”, afirma. Ele avalia que essa inversão é prejudicial para se pensar a transformação da sociedade. “Em parte, o sucesso da aceitação do jogo mais do que o desejo da violência, representa o fracasso da lógica de convivência e diálogo entre diferentes camadas sociais”, conclui.

Veja também:  Moradores de rua do Rio de Janeiro recorrem a pombos para se alimentar

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