Blog do Mouzar

05 de julho de 2019, 22h46

Bolsonário (I)

O Blog do Mouzar convida o amigo e escritor Antônio Preto, que revela o significado de algumas palavras novas que surgiram em 2019 no cenário político nacional

Foto: Valter Campanato/Agência Braasil

Por Antônio Preto*

Bolsonário 1. Pequeno dicionário de bolso com palavras e relatos sobre fatos contemporâneos. A maioria vem da ação popular que, com mínimas alterações, às vezes de uma só letra, confere novos sentidos às palavras. Afinal, as línguas são construídas assim, ao longo de séculos, apesar da Academia Brasileira de Letras pretender congelar as formas e os significados (por exemplo, escrever apesar de a academia…). Em coerência com as modernas tendências de balbúrdia, os verbetes são organizados em ordem analfabética.

Bolsonário – 2. Gênero de político que pratica a bandidagem consistente em usar cargos disponíveis para nomear laranjas que nunca trabalham e entregam parte dos seus recebimentos para um agente desse político. É comum que em pouco tempo acumulem grandes fortunas ilegais, encham seus bolsos e engordem suas contas bancárias. Não raro, engordam também seus corpos. Assim, seu símbolo nacional é um volumoso boneco “inflávio”.

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Miliciânus – Conforme a classificação do eminente filólogo Olavo de Car(v)alho (ver verbete Incuerência), são criminosos que usurpam os poderes do Estado, expulsam traficantes de seus redutos e assumem o comando das ações. Em geral, são egressos da polícia, do crime organizado, de organizações políticas e de parcelas das Forças Armadas. Seu objetivo essencial é acumular riqueza pela cobrança de proteção, venda de drogas e de variedades (gás, internet, direito de passagem e outras formas), assassinatos seletivos (Marielle e tantos outros). São relacionados com bolsonários 2.

Seu principal expoente é um criminoso menor, conhecido como Queiroz, que desapareceu nos meandros do país e das mãos da chamada justissa. O inspirador do título é o milionário pastor Feliciânus, ex-namorado de Alexandre Frota, que hoje faz pregações contra gays. O título homenageia também o eminente filólogo e sua obsessão, partilhada pelo atual presidente & família, além de fazer coro com o povão que sabe que todos eles só querem “encher o rabo de dinheiro”.

Militar de carreira – 1. Profissão de pessoas que optavam pela defesa do território nacional e da integridade das instituições e dos procedimentos políticos. Já foi estrela em tempos idos entre as profissões mais pretendidas pelas famílias para seus filhos e filhas: médicos, engenheiros, advogados, religiosos, militares. Hoje anda em decadência pelos exemplos negativos de profissionais que aderem a causas opostas aos seus antigos ideais. Basta olhar para a centena de militares membros de um governo que os nega: Embraer, pré-sal, Alcântara, Amazônia, terras indígenas, direitos de minorias eettcc..

Militar de carreira – 2. Profissão nova inventada por ocasião da recente reunião do G20 em Osaka, Japão. A apreensão pela polícia espanhola de 39 quilos de cocaína nas mãos de um sargento aeronáutico membro da tripulação de apoio à presidência implicou nova acepção ao termo carreira: não mais o longo caminho pela vida com esforços, promoções, cargos e reconhecimento, mas as fileiras de coca dispostas para uso. Talvez por isso alguns velhos militares de respeito prefiram nomear o sargento traficante de aspirante. Como tal, ainda tem tempo de aprender sobre transporte de coca com os pilotos do helicoca, foragidos, que deixaram para trás 470 quilos de pasta de cocaína. Mas, como os envolvidos eram gatos gordos (ver verbete Operação Lava Gato), o fato ocorrido há anos nunca andou na justissa.

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Reforma da presidência – Tema que apaixona e divide a população. As opiniões variam de exigências éticas rigorosas a alguma comprovação de capacidades e habilidades necessárias ao exercício do poder. Alguns analistas avançados falam de testes, a exemplo dos vestibulares impostos aos postulantes a um canudo. Algumas questões foram propostas ao Congresso, para facilitar a fabricação de pães, digo, leis, já que se sabe que a maioria dos membros da casa não saberia responder, como: 1. O ângulo reto ferve a 90 ou a 100 graus. 2. Qual é a fórmula da água da loura oxigenada. 3. O átomo compõe-se de nêutrons, própolis e elétrons. 4. Foi Vital Brasil quem inventou a mordedura da cobra. 5. Escreva duas frases encadeadas com sentido. Interrogações.

Incuerência – Palavra essencial das falas e lucubrações do autodenominado filósofo Olavo de Car(v)alho. Como se sabe, o luminar da cultura ocidental, além de nunca ter lido autores que cita como Kant, Hegel e Marx, não tem controle sobre o mecanismo flexível conhecido na literatura médica como esfíncter, e por isso usa fraldão mesmo em casa. Mas o interessante do Olavo são suas concepções revolucionárias que viram a ciência do avesso, como: A terra é plana. Assisti a uma sua entrevista em que, além das respostas inovadoras, aparecia atrás da sua mesa um imenso globo terrestre esférico. Aí reside a incuerência, e o título atual do pensador não é guru, é curu. É celebrado como o inspirador da família bolsonarista. Todos se merecem.

Operação Lava Gato – A língua inglesa, herdeira do germânico arcaico e do latim, com leves tinturas de viking, abriga uma expressão curiosa: fat cat. T: gato gordo. Designa os que se situam acima de leis, poderes e governos. São inalcançáveis. A tal operação lava jato, também chamada operação vaza jato, perseguiu e prendeu membros do PT e alguns corruptos vergonhosos como o tal Cunha. Os fat cats da situação estão gozando sua riqueza roubada. Cadê o inefável Aécio, sumiu feito o Queiroz. E o Temer, nem notinha do Globo. Efeagacê, protegido da tal operação, ainda posa de reizinho, mas morre de medo, todo mundo sabe. Os diretores da Petrobras atingidos pela fúria lavagatista estão soltos nas suas mansões em condomínios com quadras, piscinas e campos de futebol. A operação lavou os gatos de suas culpas e seus deveres. Os ratos fazem a festa.

Sinistério – Neopalavra compacta formada pela fusão de ministério com sinistro. Alguns poucos exemplos bastam. A sinistra da Família & Outras Bobagens era apenas pregadora quando, numa caravana de pregação evangélica, visitou uma tribo. Raptou uma menina indígena de doze anos. Pregou que ia levá-la ao dentista. Pregou mentiras nas paredes da sua vida. E nunca mais devolveu a menina para sua família. É conhecida também como autora da obra infantil “A fadinha lésbica”. O sinistro do Meio Ambiente arrasta uma condenação judicial por crime ambiental. O sinistro do Turismo perdeu seu braço-direito, preso pela Polícia Federal por falcatruas eleitorais e variadas. Mas manteve o bandidinho no cargo, com salário.

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Do sinistro da Educação só se pode dizer que, a par de dedicar-se à destruição da Academia, odeia professores e estudantes, além de expelir sandices revoltantes. O sinistro do Gabinete de Segurança Institucional, nossa agência de inteligência (rs ou kkk, a escolher), general que só fala aos berros, revelou que o sargento traficante de cocaína teve “falta de sorte”. O sinistro da Justiça dispensa apresentações. O sinistro das Relações Exteriores tem fornecido fartíssimo material de todos os gêneros para humoristas de muitos países. E o sinistro da Economia é um financista bilionário que não entende porra nenhuma (obrigado, olavetes) de economia. Aliás, o presidente faz parte desse “redículo”, novo termo que expressa ridículos em rede, todos ao mesmo tempo.

Onyx – Gema suja e sem valor (não é nenhum nióbio) que ainda se encontra em vasos de plantas e cinzeiros de luxo nas antesalas dos poderes da capital. Não se conhece forma de limpar a imundície acumulada da gema. Alguns teóricos sustentam que talvez um bom banho com água sanitária e sabão veterinário possa resolver, desde que o chuveiro seja Lorenzetti.

Jurisimprudência – Novo ramo do Direito Inconstitucional, criado na república de amadores de primeira instância de Curitiba pelos juristas Moro e Dallagnol, que os autoriza a falar e agir em nome dos poderes republicanos. Sua última façanha foi tentar se apropriar de R$ 2.500.000.000 (dois bi e quinhentos mi) de um pagamento de multa do governo dos EUA sobre a Petrobras, destinado ao governo brasileiro. Fundaram uma ONG voltada ao bem-estar de criancinhas, registraram seus estatutos em segredo, foram chancelados por outra juíza de primeira instância e, num só dia, tentaram avançar sobre o butim. O objetivo final era usar a grana para eleger futuramente a dupla como presidente e vice do Brasil. Mas foram traídos pelo amadorismo: Dallagnol enviou correspondência assinada à direção da Caixa pedindo orientações sobre aplicações de investimento da bufunfa. A carta foi parar nas mãos do implacável líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta. O trem desandou.

Dilação premiada – Mecanismo pelo qual acusados de crimes entregam o jogo sujo sob promessa de redução da pena e do tempo de prisão. As dilações da operação lava gato foram, e são, preparadas e instruídas pelos procuradores para entregas seletivas, e valem sempre mais se incriminam os alvos prediletos dos operadores, leia-se membros do PT. Segundo verbetes dos dicionários clássicos, dilação quer dizer adiamento, demora, prazo. Jogar pra frente, empurrar com a barriga. Os contemplados na dilação logo voltam para casa e adotam elegantes tornozeleiras rastreadas via dispositivos eletrônicos. Mas a função não é saber se estão em casa, conforme as regras: é apenas saber se estão bem, nas praias, nos restaurantes ou nas casas das meninas generosas.

Desmorolização – Nome que recebe o ato de agir conforme sua bestunta, ao arrepio de qualquer lei ou norma, ir escorregando nos desvãos da legalidade e produzir desmoralização geral de si mesmo (autodesmorolização), dos mecanismos e entidades da Justiça e dos órgãos que em tese deveriam desqualificar e punir os escorregadores. O verbete retira seu nome do juiz de primeira instância Sérgio Moro, pequeno imbecil que já se julgou deus e que hoje amarga execração internacional. Suas peripécias incluem orientar procuradores do Ministério Público em causas que deveria julgar com isenção, fabricar “provas” contra desafetos políticos, estender a desmoralização ao STF (ver verbete), aceitar barganhas inconfessáveis (tirar Lula das eleições de 2018 em troca do cargo de sinistro da Justiça) e outros procedimentos criminosos que vêm à tona com o trabalho dos jornalistas do The Intercept Brasil, que, para sua tristeza, mal começou.

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STF – Sigla de Supremo Tribunal Foderal (de foder todos, foderall, à maneira de forró que, na origem, era anúncio de baile para todos, for all. Grato pelo foderall, Olavinho). Os juízes (título dúbio; afinal, futebol de várzea também tem) costumam votar as maiores injúrias e ofensas ao direito e à vergonha nacional com as caras e as togas que vestem em seus espetáculos públicos. Seus expoentes são Gilmar Mendes (famoso por ter sido chamado de chefe de jagunços), Luiz Fux (queridinho da operação lava gato), Edson Fachin, Tal Fulano Barroso (recuso-me a decorar seu nome) e outros mais à sombra. O STF abriga também cidadãos dignos, como Lewandowski, mas em compensação exibe duas mulherzinhas que inspiram pena. O título pode enganar: foderal quer dizer todos menos os roedores do PSDB, a exemplo do Aécio Neves, o José Serra e o FHC. O presidente declarou que tem um “compromisso” com Moro de indicá-lo à próxima vaga do STF. Críticos afirmam que, com tal indicação, o STF ficará finalmente completo.

Biodesagradável – Inovação introduzida no vernáculo pelo governo atual, que liberou até agora 250 agrotóxicos, muitos proibidos pelo mundo afora, sem perceber que, em breve, todos eles, sinistros, “aceçores”, generais de pijama e terninho, deputados e laranjas estarão comendo essas porcarias e comprometendo sem remédio sua saúde.

Acordo hortográfico – Celebrado com Portugal, esse acordo visou abrir caminhos para a indústria editorial brasileira, que não conseguia vender livros didáticos no mundo lusófono em razão de pequenas diferenças de acentuação, hifenização etc. Mas, como se vê na lista seguinte, de nada adiantou, já que: abobrinha aqui é curgete lá, tangerina é clementina, caqui é diospiro, pêssego é alperce, physalis é capucho. E, já que estamos com a mão na massa, fila lá é bicha, trem é comboio, broche é sexo oral. Pensando bem, talvez seja indicado esquecer esses acordos.

Presstitute – Palavra criada pelo analista político Paul Craig Roberts para a nova velha imprensa dos EUA (como a nossa cópia sem pudor a de lá, é a lesma lerda). Junta press, imprensa, e titute, de prostitute. Dispensa tradução.

*Antônio Preto é escritor

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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