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25 de maio de 2019, 13h01

Bolsonaro e as manifestações deste domingo, por Max Marianek

A manifestação parece ser um marco divisor do mandato. Entretanto, independentemente dos resultados, o jogo parece estar se encerrando para Bolsonaro

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Por Max Marianek* Muitas questões se colocam a partir das manifestações chamadas pelo governo para este domingo, 26 de maio. Essas passeatas pró-governo, independentemente do seu resultado, das bandeiras levantadas na rua e da presença massiva ou não de pessoas, serão um divisor de águas do mandato de Bolsonaro, pois as manifestações abrem diversas possibilidades políticas. Bolsonaro pretende, ao convocar seus apoiadores, dar uma resposta às passeatas que sacudiram o país no dia 15 de maio contra os cortes da educação. Esta tomada das ruas por uma parte da população que é crítica ao presidente colocou a crise política, que...

Por Max Marianek*

Muitas questões se colocam a partir das manifestações chamadas pelo governo para este domingo, 26 de maio. Essas passeatas pró-governo, independentemente do seu resultado, das bandeiras levantadas na rua e da presença massiva ou não de pessoas, serão um divisor de águas do mandato de Bolsonaro, pois as manifestações abrem diversas possibilidades políticas.

Bolsonaro pretende, ao convocar seus apoiadores, dar uma resposta às passeatas que sacudiram o país no dia 15 de maio contra os cortes da educação. Esta tomada das ruas por uma parte da população que é crítica ao presidente colocou a crise política, que vivia o governo, em um novo patamar, o que trouxe grandes incômodos à presidência.

Em segundo lugar Bolsonaro tenta recuperar, ao mostrar força com o apoio dos seus eleitores, parte do capital político que perdeu ao não conseguir articular o governo e as reformas que a elite financeira deseja.

O presidente tenta também se antecipar às revelações dos casos que envolvem seu nome e sua família ao crime organizado e esquemas de corrupção, o desgaste político decorrente do avanço das investigações, o cenário de enfraquecimento da economia, crise política com setores da população na rua e queda da popularidade. Tudo isso pode gerar inúmeros pedidos de impeachment. Por isso, Bolsonaro tenta construir agora o papel de vítima e inicia os trabalhos de mobilização de sua base.

Porém, há também uma outra motivação muito séria para esta convocação. Bolsonaro nunca foi um democrata e sempre deixou claro seu desprezo pelo regime democrático. Por isso, essas manifestações vêm ao encontro do seu desejo de estabelecer um regime autoritário (bonapartista).

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Bolsonaro considera o Congresso e o STF empecilhos estruturais para o desenvolvimento do seu projeto, e é isso que deve ser dito com todas as letras. Entretanto, dada a conjuntura atual e sua força política, Bolsonaro não se sentiu autorizado a manifestar esse desejo explicitamente e, visto a repercussão negativa da sua ação, retrocedeu da participação nas manifestações.

Agora, por essas questões, a manifestação tem o objetivo de emparedar o Congresso. Entretanto, permanecem as intenções antidemocráticas, que parte do eleitorado bolsonarista compartilha com o presidente.

Esta estratégia, mesmo que as manifestações deste domingo tenham uma presença massiva, parece ser mais um desatino do presidente, uma vitória de Pirro. Talvez, se as passeatas tiverem uma presença vigorosa, Bolsonaro consiga equilibrar a correlação de forças no jogo político momentaneamente, mas, e o amanhã? Como ficará a relação de Bolsonaro com o Congresso e as outras forças políticas?  O estrago estará selado e as relações entre o Congresso e a presidência azedadas de vez, visto que o mote das manifestações é o ataque ao Congresso.

Assim, a cada novo desgaste, a ameaça de impeachment rondará o presidente, ainda mais no atual cenário de crise econômica, e manifestações populares na rua contra o governo, como as planejadas para o dia 30 de maio e da Greve Geral do dia 14 de junho.

A cada nova crise política, Bolsonaro conseguirá trazer para as ruas manifestações massivas que enquadrem o Congresso? Me parece difícil. Em todo o caso, isso manteria o país num perpétuo estado de tensão, o que levaria a um caminho desconhecido. Por outro lado, se as manifestações forem esvaziadas, se tornará explícita a perda de prestígio do presidente e, a partir disso, será questão de tempo a sua queda.

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É assombroso, para qualquer observador, ver o tamanho da erosão do capital político de Bolsonaro. Mesmo os mais pessimistas não imaginavam que tal cenário se desenharia com tamanha rapidez. Era óbvio que Bolsonaro era uma bomba-relógio prestes a estourar, pelo seu despreparo. Mas todos imaginavam que haveria mais tempo para isso.

Bolsonaro sempre foi o plano B das elites políticas e econômicas. Elas preferiam outras opções. Porém, no decorrer do processo eleitoral, foi ficando nítido que apenas Bolsonaro teria forças para vencer a esquerda nas eleições e garantir a implantação das reformas liberais e privatizações que o mercado deseja, de realizar a reordenação das relações entre capital e trabalho, para garantir maiores taxas de lucro, em um processo de reorganização do capitalismo brasileiro, que vive ainda as consequências da crise econômica e do redesenho do seu perfil, que se torna cada vez mais colonial novamente.

Mas Bolsonaro, pelo seu destempero, despreparo e tosquice, se torna um perigo para a implantação das reformas que a elite econômica e política do Brasil deseja, e isso está erodindo seu governo. Em consequência, as elites começam a estudar alguma nova resposta para essa crise política.

As cúpulas sociais vivem um momento de fissura em sua unidade. A cada dia parece ser mais claro de que não será mais possível manter o antigo sistema político, de que para completar o processo de reformas será necessário um caminho diferente do que manter Bolsonaro na presidência. Porém, a resposta ainda não está evidente. Há diferentes propostas, como o golpe dentro do golpe, ao instituir Mourão presidente, ou até um semiparlamentarismo, com Bolsonaro esvaziado de poderes encarnando o papel de rainha da Inglaterra.

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Outra questão relevante é que no atual momento no Brasil e, inclusive, no mundo, pela forma que se desenvolve a política internacional, aparentemente não há espaços para os golpes clássicos, de fechamento do Congresso e instituição de uma ditadura nos moldes tradicionais. Agora, não há mais o embate entre EUA e URSS, que justificava tal procedimento.

Os dias atuais parecem mais inclinados para a instituição de governos de cunho autoritário, mas que preservam o arcabouço democrático, e que esvaziam as instituições pouco a pouco para garantir um tipo de reordenação econômica e política que se dá de maneira diferente, de acordo com a posição dos países na economia internacional. Porém, Bolsonaro, pelo seu claro despreparo, parece que não irá conseguir trilhar tal caminho.

A manifestação deste domingo, portanto, parece ser um marco divisor do mandato. Entretanto, independentemente dos resultados, o jogo parece estar se encerrando para Bolsonaro. Talvez ele ganhe uma sobrevida, um respiro, mas, mesmo que a população vá em peso para as ruas, as relações políticas ficarão estremecidas e sob estado de tensão.

Nada impede, porém, um giro de 180 graus na prática política de Bolsonaro e que ele consiga refazer seu capital político. Contudo, pelo seu perfil, que lembra o do escorpião da fábula do sapo, ele irá continuar protagonizando um processo autofágico.

*Max Marianek é graduado em História pela Fundação Santo André (CUFSA) e em Biblioteconomia pela Universidade de São Paulo (USP)

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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