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29 de agosto de 2018, 07h10

Bolsonaro e os ecos do golpe nas eleições de 2018

Mais do que PT versus PSDB, a disputa fundamental parece ser mesmo entre Lula ou "anti-Lula". E o "anti" até aqui é Bolsonaro. A cada aparição dele na TV isso é reforçado

Bolsonaro. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Por Vinícius Wu* Há muitas hipóteses a serem testadas nas eleições presidenciais deste ano. A TV seguirá cumprindo um papel determinante na definição do voto? Estrutura partidária, alianças e apoios regionais definem as condições de disputa? As redes sociais podem servir de contraponto ao peso das máquinas eleitorais? Há quem aposte que tudo segue como antes e acredite, peremptoriamente, na repetição do já tradicional confronto entre PSDB e PT no segundo turno. E há também os que, como eu, crêem que desta vez pode ser diferente. Ou não. O mais importante nesta perspectiva é a percepção de que o espaço...

Por Vinícius Wu*

Há muitas hipóteses a serem testadas nas eleições presidenciais deste ano. A TV seguirá cumprindo um papel determinante na definição do voto? Estrutura partidária, alianças e apoios regionais definem as condições de disputa? As redes sociais podem servir de contraponto ao peso das máquinas eleitorais? Há quem aposte que tudo segue como antes e acredite, peremptoriamente, na repetição do já tradicional confronto entre PSDB e PT no segundo turno. E há também os que, como eu, crêem que desta vez pode ser diferente. Ou não. O mais importante nesta perspectiva é a percepção de que o espaço para certezas aristotélicas parece bem reduzido.

Um aspecto fundamental parece escapar às análises mais “conservadoras”, que apostam intransigentemente na repetição do mesmo roteiro das últimas seis disputas eleitorais: trata-se dos reflexos do golpe de 2016 sobre as eleições deste ano. Desconsiderar este fator parece imprudente, afinal, há uma expressiva parcela do eleitorado que esteve com Aécio em 2014 e se viu escandalosamente traída, ao menos, duas vezes desde então. Primeiro, ao se deparar com o “Aécio realmente existente” (não seria preciso discorrer aqui a respeito) e depois ao receber, inerte, a fatura do golpe que apoiou contra Dilma Rousseff. Sim, é preciso reconhecer que teve gente que acreditou sinceramente na mudança, mas recebeu o desastroso governo Temer de presente. Este eleitor segue rejeitando o PT, mas resiste em abraçar a opção tucana, como nos informam todas as pesquisas de opinião disponíveis até aqui.

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Assim, a história da sucessão presidencial em 2018 será também a história da interpretação do impeachment de Dilma. E os que patrocinaram a emergência de Temer podem mesmo acabar falando sozinhos em meio ao oceano de tempo de TV da coligação que apoia Geraldo Alckmin.

Quem decide eleição no Brasil, por hora, é o contingente de eleitores a favor ou contra Lula. Mais do que PT versus PSDB, a disputa fundamental parece ser mesmo entre Lula ou “anti-Lula”. E o “anti” até aqui é Bolsonaro. A cada aparição dele na TV isso é reforçado. É sua estratégia. E ele tem os resultados do governo Temer a seu favor. O candidato do PSL é a outra face do golpe de 2016. Como se sabe, ele votou a favor do impeachment. Mas soube manter a distância necessária pra se apresentar agora como porta-voz dos que seguem odiando Lula e o PT, mas se sentem enganados por aqueles que, ao optarem pela via fácil da tomada do poder sem o aval das urnas, agora pagam o preço de uma aventura mal calculada. Se conseguirão, com dinheiro e tempo de TV, reduzir o “efeito Temer” sobre suas pretensões eleitorais, saberemos em algumas semanas. Mas, os ecos do golpe serão o maior pesadelo que terão de enfrentar até o dia 07 de outubro. E Bolsonaro parece estar bastante ciente disto.

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*Mestre em comunicação social pela PUC-Rio

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